Sobre os fins justificarem os meios...
Eu sempre volto à velha pergunta sobre os fins justificarem os meios.
Intelectualmente, partindo de uma moral objetiva e da verdade católica, sei que a resposta deve ser negativa. Não se deve praticar o mal para alcançar o bem. A regra é clara, coerente e suficientemente bonita para ser citada por pessoas que provavelmente a abandonarão assim que ela começar a atrapalhar seus planos.
O incômodo aparece quando saio da teoria e observo a vida concreta. Porque, na prática, meios malignos às vezes funcionam (e convenhamos, melhor que os meios bonzinhos).
A mentira pode preservar uma reputação. A manipulação pode te dar controle sobre uma situação que poderia se tornar caótica. A traição, dentro de teoria dos jogos, pode remover um obstáculo e te colocar na frente de um adversário mais imprevisível. Se o mal nunca produzisse resultados desejáveis, não precisaríamos de ética.
Isso significa que um bem exterior pode, sim, ser alcançado por meios maus. Posso roubar dinheiro e doá-lo a um hospital. Os pacientes tratados não ficam menos curados por causa da origem do dinheiro. O hospital continua sendo um bem real. O problema é que a existência desse bem não transforma o roubo numa obra de caridade.
São Tomás de Aquino explica, na Suma Teológica (nosso carro chefe aqui do blog), escrita entre aproximadamente 1265 e 1274, especialmente na primeira parte da segunda parte, questão 18, que a moralidade de um ato depende do seu objeto, de sua finalidade e de suas circunstâncias. Uma intenção boa não consegue transformar qualquer ação em boa.
O Catecismo afirma nos parágrafos 1753 a 1756 que uma finalidade boa não justifica meios moralmente maus. O objeto escolhido também importa.
Existe ainda uma razão mais profunda para rejeitar certos meios: eles não produzem apenas resultados externos. Eles também mexem comigo, e é justamente aí que eu entendi onde a tal moralidade objetiva da Igreja entra.
Quando minto, não crio somente uma mentira. Torno a mentira mais disponível para a próxima ocasião. Quando manipulo alguém, não altero apenas sua decisão. Ensino minha própria vontade a tratar pessoas como meios para meus fins.
O meio não é uma estrada neutra pela qual caminho até o objetivo. Enquanto caminho, a estrada também está sendo construída dentro de mim.
Posso chegar exatamente ao lugar que desejava e descobrir que o homem que queria chegar ali ficou perdido no percurso. Em seu lugar, apareceu alguém mais eficiente, mais poderoso e moralmente irreconhecível. Já vi animes o suficiente pra saber que é legal desejar ser esse cara, mas no fundo, ser esse cara é um porre.
Talvez por isso os fins não justifiquem os meios. O agente também faz parte do resultado.
A dificuldade mais real, pra quem acompanha os artigos mais antigos onde eu falei do problema da linguagem, é que o ser humano não consegue produzir um bem absolutamente perfeito. Mesmo quando escolho corretamente, não controlo todas as consequências. Posso dizer a verdade e provocar uma tragédia. Posso agir com justiça e perder. Posso respeitar todos os princípios enquanto alguém menos escrupuloso conquista a posição, o reconhecimento e, provavelmente, uma vaga de estacionamento melhor por não ligar para o assento do idoso.
Então surge a tentação: se não sou capaz de garantir um bem plenamente puro, por que devo atar minhas próprias mãos?
Posso agir com justiça, coragem e honestidade. O que não posso fazer é calcular todas as consequências históricas, prever cada reação humana e garantir o maior bem possível para todos. Eu não sou moralmente impotente. Sou apenas metafisicamente limitado, condição que compartilho com toda a humanidade.
É justamente porque não sou Deus que não devo autorizar a mim mesmo a praticar o mal em nome de grandes projetos, em teoria. Se frequentemente não consigo prever o resultado de uma reunião administrativa, talvez eu não esteja qualificado para sacrificar inocentes em nome do destino da civilização. Se eu fosse onisciente, como Deus é, talvez o cálculo fosse justo.
Tudo isso parece intelectualmente sólido até o sofrimento se tornar pessoal. Estar em desvantagem é uma bosta. A depender, pode doer. Quando dói, eu não quero uma exposição metafísica sobre o valor purificador da espera. Quero que pare. De preferência hoje, antes da hora de dormir, e sem a obrigação de desenvolver cinco virtudes no processo.
Sejamos justos. Deus permite o mal e o ordena para um bem maior. No nosso caso, buscamos o mal ativamente na tentativa de produzir um bem. Pode ser que consigamos. A moral católica nega essa validade, mas é inegável que ocultar intenções, por exemplo, pode preservar relações e evitar desgastes. O dano espiritual costuma parecer mais fácil de pagar do que o dano em vida: em tese, sempre é possível confessar e reparar a alma, enquanto uma relação com quem se é obrigado a conviver diariamente pode se tornar insustentável após a revelação de verdades dolorosas.
Mesmo que esse arrependimento espiritual funcione como um cálculo moral (algo que entendi como Pecado da Presunção), ele se apresenta como o custo-benefício mais seguro diante de uma realidade irreversível. Caso contrário, é só aceitar consequências miseráveis sem culpar Deus por isso, e sofrer calado como um monge shaolin.
O sofrimento cria urgência. O meio mau (que a Igreja orienta evitar) passa a parecer uma ponte rápida entre a dor presente e o alívio desejado.
Eu posso saber que devo confiar em Deus e, ainda assim, não desejar aquilo que Ele permite. Posso reconhecer racionalmente que certo caminho é correto e emocionalmente detestá-lo. A obediência não exige que eu ache o sofrimento agradável (até porque eu teria que ser um fiel masoquista).
No Evangelho segundo Lucas, capítulo 22, versículo 42, Cristo pede que o cálice seja afastado e, ao mesmo tempo, submete sua vontade ao Pai. Ele não chama a cruz de experiência enriquecedora para o currículo.
Santo Agostinho afirma no Enchiridion, especialmente no capítulo 11, que Deus não permitiria o mal se não fosse suficientemente poderoso e bom para extrair dele algum bem. Deus consegue tirar o bem do mal. Logo, eu pratico o mal, Deus resolve depois. Isso me lembrou alguém. Arrisca um palpite?
Ele mesmo. Judas.
A traição de Judas contribuiu historicamente para a prisão e a crucificação de Cristo. Como a paixão fazia parte do plano divino da redenção, parece surgir um dilema: Judas não teria apenas cumprido o papel que lhe cabia? Se era um plano divino, Judas agiu de acordo com o plano.
São Tomás responde, na terceira parte da Suma Teológica, questão 46, artigo 2, que a paixão não era absolutamente necessária, como se Deus não pudesse salvar a humanidade de outra maneira. Ela tornou-se necessária dentro do plano livremente escolhido por Deus. Judas, portanto, não era uma peça obrigatória.
No Catecismo, parágrafos 599 e 600, diz que a morte de Cristo pertence ao plano e à presciência de Deus, mas também declara que os participantes da paixão não eram personagens passivos de um roteiro. O conhecimento divino inclui as escolhas livres. Não as substitui.
Como? Não sei. É difícil o conceito entrar na cabeça sem dar um nó.
Na terceira parte da Suma Teológica, questão 47, artigo 3, diz que a entrega de Cristo pode ser moralmente avaliada de maneiras diferentes conforme a vontade de quem age. O Pai entrega o Filho por amor. Cristo entrega a si mesmo por caridade. Judas o entrega por cobiça. As autoridades o entregam por inveja. Pilatos o entrega por medo.
O acontecimento exterior converge, mas as intenções não formam uma grande cooperativa moral.
Judas colaborou causalmente com as circunstâncias da paixão, mas não desejou a redenção da humanidade. Ele não procurou os sacerdotes dizendo que havia elaborado uma solução para o pecado original.
Deus tirou um bem infinito da traição. Isso não transformou a traição em virtude.
Ainda resta a dificuldade da liberdade. Se Deus sabia infalivelmente que Judas trairia, Judas poderia realmente escolher outra coisa? De novo, não sei. É difícil o conceito entrar na cabeça sem dar um nó, de novo.
Na primeira parte da Suma Teológica, questão 14, artigo 13, São Tomás explica que Deus não conhece o futuro como alguém situado no presente tentando prever o que virá depois. Deus está fora da sucessão temporal. Todos os tempos estão presentes à eternidade divina.
Ele utiliza uma analogia semelhante à de alguém observando uma estrada de uma posição elevada. Quem está na estrada vê os viajantes um depois do outro. Quem observa do alto pode vê-los simultaneamente em pontos diferentes. Deus conhece eternamente Judas escolhendo livremente. Imagine aqui o Multiverso Marvel onde Deus tem o poder de saber todas as variações possíveis, infinitamente. E por estar fora do tempo, não temos como entender ou conceber como é possível. Basta só calar a boca e falar, "Caramba, que Deus grandioso."
Admito que esse conceito continua difícil. Tentamos imaginar a eternidade usando categorias de antes e depois, e então nos surpreendemos quando o resultado parece contraditório.
A tragédia de Judas não termina na traição. Depois de reconhecer que entregou sangue inocente, ele parece não conseguir transformar a culpa em esperança.
Aqui encontro uma conexão com Jacques Lacan. No ensaio “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”, publicado originalmente em 1945 e reunido na edição brasileira traduzida por Vera Ribeiro e publicada pela Jorge Zahar em 1998, especialmente nas páginas 204 a 206, Lacan distingue o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir. Guarde consigo essas três distinções.
Lacan não estava falando de Judas. O achismo é totalmente meu.
Judas vê a gravidade do próprio pecado e salta diretamente para uma conclusão definitiva sobre si mesmo. Ele não atravessa o tempo necessário para compreender a misericórdia, de que não existiria pecado maior do que a misericórdia de Deus.
Pedro, antes de ser o primeiro Papa, também trai a confiança de Cristo. Também vê sua imagem moral desabar. A diferença é que Pedro permanece vivo o bastante para ser reencontrado.
Judas conclui sobre si mesmo antes da Ressurreição.
Essa estrutura também aparece na sociedade atual. Recebemos uma informação, identificamos qual emoção devemos sentir e imediatamente produzimos um veredito. Não examinamos a fonte, o contexto ou as alternativas. A informação não é checada.
O conteúdo moderno costuma chegar com fato, interpretação, emoção e sentença no mesmo pacote. É uma espécie de refeição ultraprocessada para a consciência. Desce rápido, dá prazer imediato e ninguém sabe exatamente o que havia dentro.
Hartmut Rosa, em Social Acceleration: A New Theory of Modernity, especialmente entre as páginas 97 e 148, descreve a aceleração tecnológica, a aceleração das mudanças sociais e a aceleração do ritmo da vida. As tecnologias economizam tempo, mas aumentam ainda mais a quantidade de ações esperadas. Corremos mais e continuamos atrasados, o que é uma conquista administrativa impressionante.
O mercado e o corpo obedecem a temporalidades diferentes. O mercado exige atualização, disponibilidade e respostas contínuas. O corpo precisa dormir, hesitar, elaborar, esquecer e recuperar-se. O mercado funciona vinte e quatro horas por dia. O sistema nervoso, por evidente falta de espírito empreendedor segundo seu coach de Instagram, ainda possui limites.
Essa aceleração favorece diretamente a lógica de que os fins justificam os meios. Para avaliar moralmente uma ação, preciso examinar o que estou fazendo, por que estou fazendo e quem será afetado. Isso exige tempo.
Quando o tempo para compreender desaparece, resta apenas a urgência do resultado.
A pergunta deixa de ser “o que posso fazer legitimamente?” e passa a ser “o que funciona mais rápido?”. A eficiência assume o lugar da bondade. Se os números aumentaram, a estratégia foi boa. Se o adversário foi destruído, o método funcionou. Se alcancei meu objetivo, beleza.
Continuo reconhecendo que meios maus podem produzir resultados desejáveis. Podem gerar dinheiro, segurança, prestígio e até alguns bens sociais verdadeiros. Seria infantil fingir que não. É feio pagar de puritano aqui.
Mas funcionar não é o mesmo que ser bom.
Um meio maligno pode levar ao endereço desejado. O que ele não garante é que eu chegue lá ainda sendo alguém capaz de reconhecer o bem quando o encontrar. Talvez os fins não justifiquem os meios porque os meios já fazem parte do fim.
No fim, não devemos evitar o mal porque temos certeza de que a virtude nos dará resultados melhores. Muitas vezes ela não dará (desculpa aos heróis). Devemos evitar o fim de justificar os meios porque não somos Deus, não conhecemos todas as consequências e não temos autoridade para transformar pessoas em instrumentos dos nossos projetos.
É fácil falar dos outros. Falando de mim, adoraria se Deus, sabendo de todos os meus caminhos, pudesse me dar um spoiler sobre algumas coisas. Enquanto permaneço na insegurança de falhar, sofrer e engolir o pão que o diabo amassou, talvez eu caia na soberba de me utilizar de um ato maligno pra atingir algo que eu considero, pra mim, benigno. Às vezes só queremos parar de sofrer. Um eu frustrado já causa males demais pra nós mesmos.
Comentários
Enviar um comentário