Idem Velle, Idem Nolle
Recentemente, li um ensaio do professor Olavo de Carvalho que comentava a concepção de amizade dentro da tradição escolástica e tomista. Na cultura hispânica e nos estudos medievais, há uma máxima latina muito cara a essa linhagem filosófica: idem velle, idem nolle, que se traduz como “querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas”.
No Brasil, a expressão ganhou popularidade ao contrastar a profundidade das alianças espirituais com a superficialidade das relações modernas. Embora muitos atribuam a autoria dessa fórmula diretamente à Suma Teológica de São Tomás de Aquino, a história do conceito é mais antiga e perpassa diferentes séculos. A origem exata da frase remonta à Roma Antiga, escrita pelo historiador patrício Salústio em sua obra A Conjuração de Catilina. No texto original, o autor afirmava que desejar e rejeitar as mesmas coisas era, afinal, o que consolidava uma amizade firme. Séculos mais tarde, essa intuição pagã foi batizada e absorvida pelo pensamento cristão (como a Igreja fez por várias e várias vezes, de várias formas).
No século XII, o monge cisterciense Santo Elredo de Rievaulx, em seu tratado A Amizade Espiritual, lapidou a máxima em uma de suas passagens mais belas: “Onde está a verdadeira amizade, aí está o mesmo querer e o mesmo não querer, tanto mais agradável quanto mais sincero”. Foi através desse resgate medieval que São Tomás de Aquino incorporou o conceito em sua teologia, definindo a própria virtude da caridade como uma forma de amizade profunda e união de vontades entre o homem e Deus.
À primeira vista, a expressão pode parecer afirmar que amigos verdadeiros precisam concordar em tudo. Essa interpretação, porém, seria superficial. A amizade não exige duas personalidades idênticas, nem elimina diferenças de temperamento, interesse ou opinião. O que ela parece exigir é uma comunhão mais profunda: algum acordo sobre aquilo que merece ser buscado e aquilo que deve ser evitado.
Amigos podem trabalhar em áreas diferentes, possuir gostos opostos e discordar sobre questões importantes. Ainda assim, sua amizade pode permanecer sólida se compartilharem certos fundamentos morais indissociáveis, tais como a honestidade, a lealdade, o respeito mútuo, a preocupação sincera com o bem do outro e a constante disposição para agir de boa-fé. Nesse sentido, querer as mesmas coisas não significa desejar exatamente o mesmo futuro material, mas sim reconhecer e venerar os mesmos bens substanciais que ambos consideram dignos. Dois amigos podem possuir projetos de vida completamente diferentes e, ainda assim, desejar ardentemente um para o outro o crescimento pessoal, a integridade de caráter, a felicidade, a realização, a liberdade e a proteção contra aquilo que os degrada.
Da mesma forma, “não querer as mesmas coisas” não significa rejeitar os mesmos filmes, estilos musicais ou escolhas estéticas cotidianas. Significa, primordialmente, compartilhar certos limites morais inegociáveis. Uma amizade dificilmente permanece profunda quando uma pessoa considera natural aquilo que a outra entende como traição, abuso ou desonestidade. Por isso, a semelhança necessária à amizade não é uma repetição de personalidades, mas uma compatibilidade de direção.
Julgo que a lógica vale até para pares românticos.
Claro, é importante reconhecer que um amigo verdadeiro não é aquele que concorda com todos os nossos desejos. Às vezes, a maior demonstração de amizade consiste justamente em discordar. Um amigo pode recusar-se a apoiar uma decisão destrutiva porque deseja para nós algo melhor do que aquilo que desejamos naquele momento. Nessa situação, ele não rompe o princípio de idem velle, idem nolle. Pelo contrário, compartilha conosco um bem mais profundo, mesmo quando precisa se opor à nossa vontade imediata.
A amizade, portanto, não é bajulação e puxa-saquismo. Ela exige sinceridade. Esse ponto é especialmente relevante em uma época em que a palavra “amigo” é utilizada com extrema facilidade. Redes sociais e ambientes digitais permitem acumular centenas de contatos, mas a mera quantidade de conexões não se confunde com a intimidade real. Um amigo verdadeiro não é apenas alguém que acompanha passivamente nossas publicações, dá um like barato e compartilha entretenimento passageiro, aparece apenas quando a relação é conveniente ou oferece aprovação constante e artificial.
A amizade verdadeira envolve uma profunda reciprocidade. Ela exige que ambos reconheçam o outro como pessoa, e não como um instrumento de validação ou interesse. Relações utilitárias funcionam bem enquanto existe alguma vantagem mútua em jogo. Quando a utilidade ou o ganho desaparecem, a proximidade desmorona imediatamente. A amizade autêntica, por outro lado, não depende exclusivamente do que o outro pode oferecer materialmente (um problema de meio e fim). Isso não significa que amigos nunca recebam benefícios da relação. Toda amizade madura oferece companhia, apoio nos momentos difíceis, aprendizado mútuo e prazer na convivência. O problema surge quando o benefício deixa de ser a consequência natural da amizade e se torna sua única razão de existência.
Também não basta compartilhar valores abstratos e teóricos. Duas pessoas podem concordar perfeitamente sobre moralidade, religião ou política e, ainda assim, não serem boas amigas no dia a dia. Foi meu caso com alguns amigos intelectuais que acreditei serem compatíveis comigo.
A amizade precisa se manifestar em comportamentos concretos, que envolvem cumprir a palavra empenhada, estar presente quando possível, respeitar os limites individuais, guardar confidências sagradas, ouvir sem transformar o diálogo em competição, corrigir os desvios sem humilhar, reconhecer os próprios erros, reparar os danos causados e alegrar-se sinceramente com o bem e o sucesso do outro. Por isso, refletir sobre a amizade exige muito mais do que perguntar quantos amigos possuímos em nosso feed do Facebook. É necessário indagar que tipo de vínculo estamos construindo e que tipo de amigo nós temos sido.
Para isso, talvez algumas perguntas íntimas sejam úteis para o nosso próprio exame de consciência. Devemos nos questionar se desejamos verdadeiramente o bem dos nossos amigos, se conseguimos nos alegrar com o sucesso deles sem sentir que isso nos diminui e se permanecemos próximos apenas enquanto a relação nos beneficia. É preciso avaliar se temos a coragem de discordar quando acreditamos que eles estão se prejudicando, se aceitamos ser corrigidos por alguém que deseja nosso bem, se respeitamos a individualidade alheia e se somos genuinamente confiáveis quando a amizade exige sacrifício e esforço.
A expressão idem velle, idem nolle não deve ser usada como uma ferramenta para exigir uniformidade ou anulação das diferenças. Ela deve servir, essencialmente, como um convite para examinar a direção moral de uma relação. Amigos não precisam passar o tempo olhando constantemente um para o outro em busca de espelhamento. Muitas vezes, a amizade se fortalece justamente porque ambos conseguem olhar juntos para a mesma direção, contemplando algo que consideram verdadeiro, bom ou digno de ser buscado. A amizade profunda não é a união de duas pessoas iguais. É a feliz união de duas pessoas distintas que reconhecem, entre suas diferenças, uma direção comum. Seja amigo, seja parceiro.
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