Crise de idade e desalento em relações humanas

Existe um termo usado para definir desempregados que desistiram de procurar trabalho: desalentados.

São pessoas que, depois de investir tempo, dinheiro, passagens, currículos e esperança, simplesmente se cansaram de ouvir “não”. Em algum momento, a pessoa deixa de procurar a oportunidade ideal e se sente compelida a abraçar o “qualquer coisa”.

Aceita um bico, um subemprego, uma troca de favores feita de boca ou alguma tentativa de ganhar dinheiro pela internet explorando o consumismo humano tais como as idiotices do Kwai e do TikTok.

Mas o desalento não existe apenas no mercado de trabalho.

Também existe nas relações humanas.

Há pessoas que desistiram de conhecer gente nova. Não porque odeiem a humanidade ou tenham descoberto algum segredo superior sobre a solidão, mas porque se cansaram de investir energia em relações vazias, temporárias e utilitárias.

Cansaram de gastar dinheiro em rolês que não agregam nada.

Cansaram de iniciar conversas que morrem depois de três dias.

Cansaram de perceber que certos “amigos” só aparecem quando querem favores, companhia para farra ou alguém que resolva um problema.

Diferentemente do desempregado, porém, o desalentado social nem sempre aceita qualquer coisa.

Um bico ruim ainda pode pagar uma conta.

Uma amizade falsa, uma mulher interesseira, uma madame com o ego nas alturas ou um sujeito que só lembra de você quando precisa de alguma coisa não mantém ninguém vivo. Apenas consome energia, dinheiro e paciência.

Por isso, em relações humanas, o desalento pode produzir o movimento contrário: em vez de aceitar qualquer vínculo, a pessoa deixa de aceitar quase todos.

O cansaço vira critério.

A desconfiança vira proteção.

E com cada novo “oi”, já imaginamos a qual favor vamos ter que ceder.

A internet piora essa sensação porque oferece uma vitrine permanente de vínculos supostamente intensos.

Quando algum famoso morre, as redes sociais são rapidamente tomadas por mensagens dizendo que “a vida é um sopro”, que devemos valorizar quem amamos e aproveitar cada instante.

Dois dias depois, todos voltam a ignorar mensagens, cultivar ressentimentos, tratar pessoas como descartáveis e passar horas assistindo vídeos de desconhecidos dançando.

A comoção dura menos do que a publicidade entre dois vídeos.

Ao mesmo tempo, essa vitrine cria uma crise de idade artificial.

Você começa a pensar que está ficando velho demais, que está perdendo a vida, que deveria viajar mais, sair mais, conhecer mais pessoas e colecionar aventuras como se a existência fosse um álbum de figurinhas.

Talvez exista alguma verdade nisso. A vida realmente passa. O problema é que saber disso não elimina o cansaço.

Eu posso reconhecer que o tempo está passando e, ainda assim, estar de saco cheio de pessoas no geral. Uma coisa não anula a outra.

Continuo entendendo que o ser humano é social e que a companhia humana faz bem ao coração. Se alguém se aproxima de mim com honestidade, posso ser um livro aberto.

Mas isso não significa ingenuidade.

Cansei de favores sem reciprocidade.

Cansei de segundas intenções em que o benefício só corre para um lado.

Cansei de amaciar ego de mulher com joguinhos infantis.

Cansei de pessoas que chamam conveniência de amizade e carência de afeto.

Confiança não é obrigação moral automática. É algo construído. Talvez eu esteja ficando mais velho. Talvez esteja perdendo a famosa “vida repleta de boas companhias e aventuras” que a internet promete diariamente e quase ninguém realmente vive.

Mas, quando eu tiver 80 anos, quero poder dizer que tentei.

Conversei.

Procurei.

Dei oportunidades.

Fiz minha parte.

Se, em algum momento, parei de insistir, não foi porque acreditava que toda companhia era inútil. Foi porque percebi que companhia sem reciprocidade não é companhia.

O desalento social não é necessariamente ódio às pessoas.

Às vezes, é apenas o momento em que alguém decide parar de se humilhar por vínculos que não se sustentam.

E, entre uma solidão honesta e uma companhia que drena tudo o que você possui, a velha frase continua sendo irritantemente correta: antes só do que mal acompanhado. Seja aos 22, aos 40 ou aos 80 anos.

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