"Se tudo já estava escrito, por que ainda somos culpados?"
Predestinação e livre-arbítrio sempre foram um dilema fortíssimo para o qual nunca encontrei uma resposta definitiva.
Deus conhece antecipadamente aquilo que farei. Então eu poderia realmente fazer outra coisa? Se não poderia, em que sentido minha escolha é livre?
E se Deus não apenas conhece, mas também determina providencialmente tudo aquilo que acontece, qual parte da minha decisão ainda pode ser chamada propriamente de minha?
Passei bastante tempo tentando encontrar respostas satisfatórias para essas perguntas. O assunto voltou com força para mim graças ao Redeemed Zoomer.
Redeemed Zoomer é um criador de conteúdo cristão presbiteriano e reformado que conseguiu fazer algo que eu particularmente considero genial: transformar teologia em mapas, esquemas, desenhos, fluxogramas e sequências lógicas que pessoas normais conseguem acompanhar. Ele produz conteúdo sobre história, denominações cristãs (meu conteúdo favorito dele até então), predestinação e outros temas. E ele faz isso muito bem.
Às vezes tenho inclusive a impressão de que conhece certas posições católicas melhor do que muitos católicos. Isso é menos uma acusação contra ele do que contra nós. Pergunte a dez católicos aleatórios o que significa transubstanciação, sucessão apostólica ou a diferença entre veneração e adoração. Existe uma chance preocupante de você ouvir uma mistura de catequese da infância, superstição da avó e alguma opinião mastigada de influencer de internet.
Redeemed Zoomer pelo menos lê e tenta entender aquilo de que discorda.
Depois de passar boa parte da vida cercado pelo cenário religioso brasileiro, isso já aumenta bastante minha simpatia pelos protestantes, em especial pelos presbiterianos.
O Brasil produziu exemplos particularmente criativos de exploração comercial da fé. Em 2020, por exemplo, Valdemiro Santiago foi alvo de questionamentos e atuação de órgãos públicos depois de divulgar sementes de feijão em um contexto associado a supostos benefícios contra a Covid-19, envolvendo contribuições que chegavam a valores elevados.
Mais recentemente, o "Pastor" Miguel Oliveira tornou-se objeto de enorme exposição nas redes sociais, críticas de outras lideranças religiosas e atenção de órgãos de proteção à infância diante de preocupações sobre sua exposição pública, uso de alegações de milagres e possível exploração comercial de sua imagem e atividade religiosa.
O ponto que me interessa é outro: o ambiente religioso brasileiro frequentemente recompensa espetáculo, promessa extraordinária e personalidade carismática muito antes de perguntar pela consistência teológica daquilo que está sendo anunciado.
Lembro-me do caso João de Deus. Durante anos, multidões atribuíram poderes sobrenaturais a um médium que realizava supostas “cirurgias espirituais” e recebia visitantes do mundo inteiro. Depois vieram as denúncias, os processos e sucessivas condenações por crimes sexuais.
Depois de décadas vendo religião ser reduzida a envelope, milagre televisionado, personalidade messiânica e produto “consagrado”, confesso que é quase terapêutico encontrar protestantes discutindo predestinação.
Por isso considero o presbiterianismo uma corrente séria do protestantismo.
Discordo de pontos importantes da teologia reformada, obviamente. Se concordasse com eles, provavelmente não estaria escrevendo um artigo católico sobre o assunto. Mas existe uma diferença enorme entre discordar de alguém que possui uma tradição intelectual, categorias teológicas e disposição para argumentar e discutir com alguém cuja atividade religiosa gira em torno de promessas espetaculares e comercialização da esperança.
Prefiro mil vezes discutir a questão 22 da Suma Teológica com um calvinista do que discutir a “adoração de imagens” pela milionésima vez com a vovózinha que assiste às pregações do Edir Macedo.
É inclusive esse nível de seriedade que gostaria de ver preservado no debate católico-protestante.
Redeemed Zoomer merece ser respondido no melhor nível possível justamente porque oferece argumentos melhores do que a média. Mas mesmo em alguém intelectualmente sério como ele, encontro alguns sinais de má vontade.
Na discussão sobre predestinação, acredito que ele parte de premissas reformadas que já carregam boa parte da conclusão que quer provar. Meio que um viés.
Na profissão de fé publicada em seu site, Redeemed Zoomer afirma que Deus ordena, num sentido geral, tudo aquilo que acontece, chegando ao “nível quântico subatômico”, e usa a imagem de Deus como autor do livro da história do universo. Ele aceita algum sentido terreno de livre-arbítrio compatível com essa providência, mas afirma que, em relação à salvação, não existe livre-arbítrio: Deus escolheu desde a eternidade quem seria salvo e quem não seria, e o homem não pode escolher Cristo sem que Deus primeiro regenere sua vontade.
Meu espanto diante disso seria semelhante ao de entrar numa churrascaria e descobrir que servem carne.
A questão é outra.
A meu ver, antes de perguntar se Deus predestina, precisamos distinguir pelo menos três coisas que frequentemente acabam espremidas dentro da mesma palavra: conhecimento divino, providência divina e causalidade divina.
A doutrina católica não tem nenhuma dificuldade em afirmar que nada escapa à providência.
Toda capacidade causal existente numa criatura depende de Deus. Aliás, tudo, basicamente, depende de Deus.
Mas daí não segue que Deus precise causar cada ação criada exatamente do mesmo modo pelo qual um escritor determina cada ação de uma personagem fictícia.
O próprio Zoomer usa uma analogia entre J. K. Rowling e Harry Potter que eu nunca comprei. Eu sabia que havia alguma coisa errada no raciocínio, mas demorei a colocar em palavras.
Tive que apelar para quem sabe mais do que eu. Vamos de São Tomás de Aquino.
São Tomás distingue Deus como causa primeira e as criaturas como causas segundas.
Isso significa que Deus não apenas cria coisas passivas. Ele cria coisas que realmente possuem capacidade causal.
Uma planta cresce. Um animal se move. Um homem conhece, delibera e escolhe.
Nada disso ocorre independentemente de Deus, porque sem Deus nenhuma dessas coisas sequer existiria. Mas daí também não segue que, para possuir causalidade verdadeira, uma criatura precise transformar-se numa espécie de concorrente metafísico de Deus.
A frase que melhor resume o ponto, para mim, é esta:
"A dependência ontológica da criatura não destrói sua causalidade própria."
O Catecismo chega a dizer que Deus concede às criaturas a dignidade de agir por si mesmas e de serem causas umas das outras (Catecismo da Igreja Católica, §306).
Esse ponto é extraordinariamente importante.
A alternativa não é “Deus produz imediatamente todas as escolhas humanas” VS “existe algum princípio metafísico independente disputando o universo com Ele”.
Uma criatura pode verdadeiramente causar um efeito precisamente porque Deus criou uma realidade capaz de produzir efeitos.
Quando um ser humano decide realizar determinada ação, a causalidade divina sustenta sua existência, sua inteligência, sua vontade e toda a ordem ontológica na qual aquela ação é possível.
Ao mesmo tempo, o homem continua sendo causa real do ato enquanto agente racional.
Minha liberdade não existe apesar de Deus. Ela existe porque Deus me criou como uma criatura capaz de conhecer e querer.
São Tomás trata diretamente dessa questão quando pergunta se a providência impõe necessidade às coisas governadas por ela.
Sua resposta é muito mais sofisticada do que simplesmente dizer que “Deus controla tudo”.
Segundo São Tomás, pertence à própria providência divina que alguns efeitos aconteçam necessariamente e outros contingentemente. Deus não governa apenas a existência dos efeitos; sua providência alcança também os diferentes modos pelos quais as causas operam (Suma Teológica, I, q. 22, a. 4).
Se Deus pode criar uma causa que opera contingentemente, a contingência não representa uma região do universo que escapoliu da soberania divina.
Ela própria faz parte da ordem querida por Deus.
É justamente esse ponto que sinto falta em certas apresentações populares da predestinação.
Não basta colocar “Deus é soberano” no topo de um fluxograma e considerar o problema resolvido. É preciso explicar por que uma soberania absoluta exigiria que toda causalidade criada fosse reduzida a um único modelo de determinação.
E aqui voltamos à analogia do autor.
"J. K. Rowling escreve que Harry Potter toma determinada decisão."
Dentro da narrativa, dizemos perfeitamente que “Harry escolheu”. Mas metafisicamente Harry não escolheu nada.
Não existe uma vontade harrypotteriana fora da sentença escrita por Rowling avaliando alternativas e produzindo causalmente um ato. Harry Potter não é uma substância racional real. Seu mundo inteiro é uma representação produzida pela autora.
Por isso, a analogia pode ser útil para falar de soberania narrativa, mas se torna perigosa quando importamos sem correção a relação entre autora e personagem para explicar a relação entre Deus e uma criatura racional real.
Imagine que toda a deliberação de Judas, todos os desejos envolvidos, todas as circunstâncias, cada movimento de sua vontade e finalmente a traição tenham sido determinados pelo Autor exatamente como Rowling determina uma página.
Depois, Judas é condenado por realizar o ato escrito para ele.
A resposta reformada normalmente insiste que Deus não é autor do pecado e que Judas agiu voluntariamente.
E é precisamente aí que a pergunta volta.
O que significa dizer que Judas agiu voluntariamente se toda a estrutura de seu querer estava determinada de maneira que ele jamais pudesse efetivamente querer o contrário?
Eu já escrevi sobre o dilema de Judas aqui no blog, então não pretendo reconstruí-lo inteiro.
Quero apenas marcar o ponto fundamental: minha liberdade não compete com Deus. Ela depende d'Ele.
Uma liberdade criada não precisa ser absoluta para ser verdadeira.
No artigo que escrevi sobre a natureza humana, defendi que Deus cria criaturas boas e livres e que a possibilidade do mal decorre justamente da possibilidade real de ordenar inadequadamente bens que, em si mesmos, continuam sendo bens.
Essa concepção começa a perder bastante do seu sentido se chamarmos de “liberdade” apenas o fato de um agente realizar espontaneamente aquilo que estava eternamente determinado a realizar e que jamais poderia efetivamente deixar de querer.
Talvez alguém considere isso liberdade suficiente.
Eu não considero.
E é aqui que precisamos separar outra coisa que frequentemente aparece misturada: infalibilidade e necessidade.
Deus conhecer infalivelmente um ato futuro não significa que seu conhecimento funcione como uma pressão causal sobre a vontade.
Nós existimos dentro do tempo. Deus não.
Na teologia clássica, Deus não está no presente fazendo uma previsão extraordinariamente precisa sobre amanhã. Pra Deus, é como se fosse tudo um só.
São Tomás sustenta justamente que a providência pode ser infalível sem que todos os efeitos sejam necessários, porque certos efeitos procedem de causas que Deus quis contingentes.
Essa distinção parece pequena até percebermos que quase toda a discussão depende dela.
Se amanhã eu escolher assistir a Dragon Ball, Deus conhece eternamente esse ato. Se, contrafactualmente, minha escolha livre fosse assistir a Naruto, então o ato conhecido eternamente por Deus seria esse.
Não existe um primeiro momento em que Deus “acha” que vou assistir a uma coisa e depois precisa atualizar a informação. O conhecimento divino não muda.
Portanto, "Deus sabe infalivelmente que farei A" não segue automaticamente "sou coagido a fazer A".
É por isso que considero enganadora a perguntinha-armadilha “Se tudo já estava escrito, por que ainda somos culpados?”.
Eu sei que é foda.
Religião com dois mil anos de metafísica infelizmente não vem acompanhada de botão “resumir em TikTok” com alguém encaixando quadradinhos na tela para prender seu foco.
Chegamos então à predestinação propriamente dita.
E aqui é importante reconhecer uma coisa que alguns católicos parecem esquecer: Predestinação também é doutrina católica.
O Catecismo pressupõe eleição e iniciativa da graça.
Católicos não acreditam que Deus criou um Squid Game da humanidade e depois observa passivamente quem conseguiu chegar ao céu por mérito próprio.
A graça vem primeiro. Ela sustenta.
A salvação é dom de Deus.
A divergência começa na maneira pela qual graça e liberdade se relacionam, haja vista que a própria tradição católica possui discussões enormes sobre isso. Tomistas, molinistas e outras escolas tentaram explicar de modos diferentes como conciliar a eficácia da graça, a presciência divina e a liberdade criada.
Portanto, não estou fingindo que o catolicismo possui um botão secreto escrito “resolver predestinação” que ninguém mais encontrou.
Existe mistério aqui. E pra quem estuda teologia, sabe que mistério é mistério.
Se Deus escolhe desde toda a eternidade conceder graça eficaz àqueles que infalivelmente chegarão à fé e simplesmente decide não concedê-la aos demais, enquanto o número dos dois grupos não pode aumentar nem diminuir, existe uma pergunta moral legítima sobre o sentido dessa responsabilidade.
Dizer simplesmente que Deus é justo porque tudo aquilo que Deus faz é justo pode ser uma proposição teológica verdadeira e ainda assim não responder ao problema específico.
Aliás, já escrevi sobre isso quando tratei do dilema de Eutífron.
O Catecismo afirma:
“Deus não predestina ninguém para o Inferno.”
Para que alguém se condene, é necessária uma aversão voluntária a Deus e a perseverança nessa aversão até o fim (Catecismo da Igreja Católica, §1037).
Deus predestina para a glória, concede graça e conhece desde toda a eternidade. Mas a condenação envolve realmente a rejeição voluntária da criatura.
Lembremos: A providência não destrói contingência. A presciência não cria coerção.
E a predestinação não exige que Deus produza seres cuja perdição esteja positivamente inscrita no decreto da mesma forma pela qual um escritor determina o destino de uma personagem.
O Catecismo define a liberdade como o poder, fundado na razão e na vontade, de agir ou não agir e de realizar atos deliberados sob responsabilidade própria (Catecismo da Igreja Católica, §§1730-1734).
Isso não significa que o homem consiga salvar a si mesmo.
A liberdade não fabrica graça, mas a graça também não precisa destruir liberdade para ser eficaz. Caso contrário, os Templários de Assassin's Creed estariam certos.
É justamente essa síntese que considero mais convincente.
Deus é soberano o suficiente para criar causas verdadeiras e governar uma história na qual criaturas realmente agem.
Não é como jogar Detroit: Become Human e descobrir que todas as suas escolhas, por mais dramáticas que pareçam, continuam sendo variações previamente programadas por um dev.
E foi justamente enquanto escrevia este artigo que me ocorreu uma coisa bastante engraçada.
Eu estava há um bom tempo lendo sobre Deus, tentando entender, comparando causalidade, providência, liberdade e predestinação, voltando em trechos, escrevendo parágrafos, apagando outros e tentando encontrar uma maneira intelectualmente honesta de falar sobre Ele.
Em determinado momento parei e pensei: isso que estou fazendo conta como oração?
Minha primeira reação foi imaginar oração no sentido mais comum: ajoelhar, fazer o sinal da cruz, rezar um Pai-Nosso, pedir alguma coisa, agradecer alguma coisa.
São João Damasceno define a oração como a elevação da mente a Deus, definição que São Tomás recupera ao tratar da própria natureza da oração (Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 1).
O Catecismo adota a mesma fórmula ao definir a oração como a elevação da mente e do coração a Deus ou a petição de bens convenientes (Catecismo da Igreja Católica, §2559).
Naturalmente, estudar teologia não é automaticamente rezar.
Posso estudar por vaidade ou ganhar uma discussão no X, falecido Twitter. Posso estudar simplesmente porque gosto de estar certo.
O estudo torna-se oração quando essa atividade intelectual é realmente ordenada a Deus.
Quando procuro compreender melhor quem Ele é, submeto minha inteligência à verdade e tento evitar atribuir a Ele uma injustiça que não Lhe pertence, alguma coisa além de pesquisa acadêmica pode estar acontecendo.
O Catecismo chama a meditação justamente de uma busca na qual a inteligência procura compreender para poder aderir e responder ao Senhor. Ela mobiliza pensamento, imaginação, emoção e desejo para aprofundar a fé e fortalecer a vontade de seguir Cristo (Catecismo da Igreja Católica, §§2705-2708).
Isso descreve bem o que aconteceu enquanto escrevia este artigo.
Comecei tentando responder a um presbiteriano.
Terminei pensando em Deus.
“Uma hora de estudo, para um apóstolo moderno, é uma hora de oração” (São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 335).
Nem todo encontro com Deus precisa acontecer depois que eu fecho os livros. Às vezes acontece justamente porque eu os abri.
E aqui a discussão deste artigo dá uma volta curiosa sobre si mesma.
Passei horas perguntando como uma criatura pode agir verdadeiramente se Deus conhece eternamente tudo aquilo que ela fará.
Enquanto tentava responder, fiz justamente aquilo que estava defendendo.
Usei uma inteligência criada. Deliberei. Escolhi o que ler. Mudei frases. Rejeitei argumentos. Voltei ao Catecismo. Discordei de um presbiteriano.
E, em algum momento no meio disso tudo, percebi que minha inteligência havia se voltado para Deus.
Comecei este texto perguntando como podemos ser culpados se tudo já estava escrito.
Termino fazendo uma oração que não planejei fazer.
E isso me deixa numa situação particularmente divertida diante do Redeemed Zoomer.
Porque, se a explicação calvinista estiver correta e cada acontecimento desta tarde já tiver sido decretado desde a eternidade exatamente como aconteceu, então Deus não apenas predestinou um católico brasileiro a assistir a um presbiteriano e encontrar defeitos no fluxograma dele.
Predestinou também que a refutação terminasse em oração.
Nesse caso, meu caro Redeemed Zoomer, qualquer reclamação sobre este artigo ficou metafisicamente complicada. Segundo sua própria tese, eu só agi conforme o que já estava escrito por Ele. Não gostou? Reclame com o Autor.
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