O porquê de eu ter me afastado da Igreja...

Como já escrevi inúmeras vezes, a Verdade é um caminho sem volta.

Depois que certos assuntos entram na sua cabeça, não existe botão de desfazer. Você pode parar de praticar, evitar o assunto, ocupar a mente com outras coisas e até fingir que já não se importa tanto. Mas abandonar aquilo que você acredita ser verdadeiro é outra história.

Foi esse o meu problema.

Eu não saí da Igreja porque deixei de acreditar em Deus. Também não saí porque encontrei algum argumento revolucionário que dois mil anos de cristianismo esqueceram de responder e que, por feliz coincidência, apareceu para mim numa crise pessoal. Também não tive uma epifania intelectual.

Eu saí porque acreditar começou a pesar mais do que acolher.

Quando estive mais ativo na Igreja, costumava olhar para o existencialismo com certo desprezo. Via aquilo como uma crise adolescente sofisticada: pessoas incapazes de encontrar um sentido objetivo para a existência tentando fabricar um sentido próprio com trabalho, prazeres, relacionamentos, ideologias ou qualquer outra coisa suficientemente brilhante para distrair do vazio.

Ainda considero isso insuficiente. Mas hoje entendo por que o existencialismo acolhe.

Quem está dentro da Igreja acredita ter encontrado a resposta. E, de fato, encontrou. A questão é: até quando essa resposta continuará acolhendo, em vez de esmagar?

A chama da fé não permanece acesa por inércia. É preciso alimentá-la. É preciso rezar, estudar, confessar, resistir, recomeçar e vigiar constantemente a própria alma.

É um caminho árduo.

Em muitos momentos, eu me perguntava se valia a pena atravessar uma estrada cheia de espinhos quando, ao lado, existia uma tábua lisa por onde tanta gente caminhava rindo, bebendo, desejando, errando e aparentemente vivendo melhor do que eu.

O pior não era apenas querer pisar na tábua lisa.

Era acreditar que um único passo nela poderia apagar todo o progresso feito entre os espinhos. E quem ficou lá bebendo e festando ganhou o benefício de ser blue pill.

Se alguém vive corretamente durante anos, mas fraqueja no momento errado, pode acabar no mesmo destino de quem nunca se importou com nada? Nao há como saber. Muito do que acontece depois da morte ainda é mistério mesmo pra teólogos com boa base.

Será que um deslize realmente destrói todo o caminho percorrido? Nao há como saber. Muito do que acontece depois da morte ainda é mistério mesmo pra teólogos com boa base.

Será que nós estamos apenas fazendo essas perguntas profundas para tentar nos consolar e aliviar a culpa, em vez de aceitar a verdade cruel de que um deslize pode, sim, arruinar tudo?

Meu ponto é: mesmo os estudiosos não têm certeza da própria salvação. Se você tem lá seu checklist de obrigações religiosas e atos voluntários de amor, não dá pra cravar na pedra dizer que você está salvo mesmo se você cumprir com tudo.

É por isso que o existencialismo se torna tão acolhedor. Não porque ofereça uma resposta melhor, mas porque permite respirar sem carregar o peso de uma resposta absoluta.

Conhecer a Verdade não basta. É preciso ter estrutura para suportá-la. E numa filosofia em que a Verdade é relativa, é fácil seguir a vida. Né?

Existe dentro de nós um vazio praticamente impossível de preencher. Ficamos cansados, entediados, enjoados e insatisfeitos. Conseguimos algo que desejávamos e, algum tempo depois, aquilo já parece menor. Procuramos prazer, amor, reconhecimento, conhecimento e conforto. Tudo funciona por algum tempo. Depois, o silêncio retorna.

Somente algo Infinito e Perfeito poderia, em tese, preencher um vazio dessa proporção.

A questão que me perseguiu foi outra: e se eu não conseguir encontrar preenchimento nem mesmo em Deus?

Não estou dizendo que Deus seja insuficiente. Isso seria absurdo dentro daquilo em que acredito. O problema não está no Infinito, talvez na criatura limitada tentando alcançá-lo. O que estou tentando dizer aqui, em português claro, é que mesmo cumprindo todo meu checklist de obrigações religiosas, indo às missas, participando dos encontros, eu não me senti mais feliz ou mais realizado.

Talvez Deus seja plenamente suficiente e eu simplesmente não tenha capacidade para experimentar essa suficiência agora. Ou talvez essa felicidade simplesmente não exista aqui, em vida (tese em qual tendo a acreditar mais).

Vejo as limitações humanas tão grandes que a promessa do eterno, por mais intelectualmente verdadeira que seja, será sempre emocionalmente distante.

É como viver tentando manter a coluna perfeitamente reta enquanto tudo em você deseja alguns minutos de descanso. Seus valores sustentam sua postura, mas também começam a esmagá-lo.

Você continua firme porque acredita que existe um destino. Lembro-me de quando eu era bem ativo e tive a honra de interpretar o Bom ladrão na interpretação local da Paixão de Cristo.

Durante algum tempo, senti que estava no lugar certo. Mas sempre que olhava a grama do vizinho, no caso, os mundanos, eu sentia que a grama deles parecia bem verde.

Um jovem da minha idade vendo os amigos indo pra festivais musicais, bebendo, transando, tendo experiências extraordinárias, rindo de coisas nas quais eu não via graça alguma mas encontrando prazer em coisas que eu queria poder experimentar algum prazer.

Eu permanecia tentando compreender por que a renúncia, embora intelectualmente correta, não produzia em mim a mesma felicidade que o prazer parecia produzir nelas. Na minha cabeça, "estou fazendo o certo, então por que não sou feliz?"

Naturalmente, eu sabia que aquela felicidade era passageira. Mas ser passageira não significa ser inexistente. Uma festa termina. Um jantar termina. O sexo termina. A bebida perde o efeito. Ainda assim, por algumas horas, essas pessoas pareciam mais vivas do que eu, que estava lá só desejando fazer.

Eu sempre tive esse problema de parecer uma casca vazia (talvez seja por isso que eu gostava mais do Sasuke Uchiha do que do Naruto Uzumaki quando era mais jovem). Tive muita dificuldade em apreciar coisas, experiências, falar com pessoas, etc. Sempre achava quase tudo muito fútil na fase mais jovem.

E isso doía.

Podemos estar felizes servindo dentro da Igreja e, ao mesmo tempo, sentir tristeza ao observar amigos e conhecidos vivendo experiências que nós mesmos desejamos. E eu nunca contava pra ninguém que eu desejava aquilo, porque parecia hipócrita pra alguém com meu nível de sabedoria. Eu tinha uma imagem a zelar. Percebe o ego falando?

Seria estranho o "carinha inteligente e quieto da sala" ser visto naquele meio caótico onde todos pareciam estar experimentando o ápice do deleite.

Podemos acreditar que determinados prazeres não conduzem à verdadeira felicidade e, ainda assim, invejar aqueles que os desfrutam sem culpa. Novamente, estilo blue pill.

Podemos desejar o Céu e continuar fascinados pela Terra.

Foi bem nesse meio de campo dividido que eu criei, na minha cabeça, o dilema mais pica da minha vida. É um nó cego que eu não achei solução e duvido que alguém ache. Deixo aqui o desafio aos intelectuais.

Meu impasse é o seguinte: é melhor parar de enganar a Deus e a mim mesmo, chutar o balde e fazer logo o que eu quero, do que passar a vida inteira passando vontade e culpando Deus pela minha frustração. Com isso, mandei meu maior ultimato: se mesmo assim eu não quebrar a cara e achar a felicidade nessas coisas, o que já é o esperado, pelo menos será mais fácil me arrepender do que EU FIZ do que carregar o luto eterno pelo que DEIXEI DE VIVER.

Afinal, que tipo de santidade seria essa, construída sobre o ressentimento de um desejo sufocado?

Seria uma hipocrisia silenciosa demais para Deus não notar. Eu sabia que Deus é onisciente. Eu sabia que Deus também sabia que eu queria experimentar a grama verde do vizinho.

É preferível o peso da queda real ao cansaço de segurar uma pose de retidão que nunca me pertenceu de verdade. É aí que a armadilha se fecha e o ultimato se justifica. Para o pecado, existe perdão. Para a frustração e o sentimento de ser prisioneiro de Deus, não sei se haveria perdão.

Ao me lançar naquilo que desejo, eu elimino a dúvida. Se o mundo me der a frustração que eu já previa, pelo menos terei a ferida aberta da experiência, e não a cicatriz eterna de um "e se?".

Somos imediatistas.

A promessa do Céu é eterna, mas a tentação está disponível na sexta-feira à noite. A felicidade perfeita pertence à eternidade; o prazer imperfeito aceita cartão, dinheiro e reserva pelo aplicativo. E eu SABIA que aqueles que buscavam a tentação de sexta-feira poderiam simplesmente procurar o confessionário no domingo e "tava tudo certo."

A doutrina cristã ensina que este mundo não é nossa morada definitiva. Isso deveria nos fortalecer. Em mim, às vezes, produzia o efeito contrário.

Se existe um estado de felicidade perfeito e eterno, por que continuar vivendo em um mundo no qual toda alegria é passageira e os vícios brigam constantemente com as virtudes? Mais fácil morrer logo.

Se o destino final é infinitamente melhor, a vida terrena começa a parecer uma longa sala de espera, decorada com tentações que não podemos tocar. E isso me faz até ter uma raiva, ainda que injusta, de Deus. Eu sei que minhas vontades estão desordenadas. Já falei muito de St Tomás de Aquino aqui. Mas, para alguns prazeres, não me parece existe linha tênue.

Eu entendia racionalmente que a existência deveria ser vivida como preparação, missão e oportunidade de amar. Mas entender não eliminava o cansaço.

Deus provavelmente espera que a promessa do Paraíso nos motive a perseverar. Só que perseverar enquanto se teme perder tudo por uma fraqueza é angustiante.

É horrível imaginar que todo esforço pode ser invalidado porque você caiu no momento errado. Um bandidinho te assaltou e cometeu latrocínio no dia em que você estava em pecado mortal? Azar o seu. Toma aí uma fuckin' ETERNIDADE no fogo do inferno sem chance de se redimir ou reverter sua pena!

Existem muitos mecanismos para ajudar alguém a perseverar: oração, sacramentos, disciplina, comunidade, direção espiritual e estudo.

Mesmo assim, viver no caminho da salvação parece, em certos períodos, praticamente impossível.

Não sou santo e DUVIDO que um dia serei.

Os santos muitas vezes parecem pertencer a outra categoria de humano: homens e mulheres capazes de suportar privações, resistir a desejos profundos e encontrar alegria precisamente onde pessoas comuns encontram sofrimento. É lindo de se ver, mas uma grande bosta de se viver. Eu simplesmente não consigo.

É difícil não apenas resistir ao pecado. Também é difícil não querer desejar o pecado.

Abrir as redes sociais e observar pessoas vivendo experiências que você nunca teve pode ser fascinante e destrutivo. Você sabe que a felicidade exibida é editada, parcial e passageira. Ainda assim, ela parece maior do que a sua. E ao observar os santos serem martirizados e com quase nenhuma propriedade privada, e ao observar os mais mundanos que estão vivos e curtindo a vida, você começa a pensar que a ignorância dessas pessoas é uma forma de bênção.

Elas vivem sem carregar o peso de determinadas respostas. Não sabem tudo aquilo que você acredita saber. Portanto, talvez sejam menos cobradas.

Enquanto isso, você que é intelectual descobriu a Verdade e passou a sentir que essa descoberta se tornou uma sentença.

A Verdade lhe ensinou que TUDO pode ser feito, mas nem tudo convém.

Ensinou que muitos vivem sem qualquer preocupação com isso.

Ensinou também que, quanto mais alguém sabe, mais responsável se torna por aquilo que faz. Existe um incentivo a não querer saber. E como tudo é mistério, fica difícil mensurar o quanto da Ignorância Invencível é aplicada aqui.

Com isso, surge um pensamento vergonhoso: talvez fosse melhor nunca ter procurado certas respostas. Eu deveria mesmo era ter tomado a blue pill e seguir a vida. Talvez fosse melhor ser uma besta quadrada, encher a cara nos finais de semana, buscar prazeres baratos e nunca refletir sobre a própria alma.

Ao menos a inconsciência permite dormir.

Sempre acreditei que a Verdade liberta. Mas existe um momento em que ela parece aprisionar. Quanto mais sabemos, mais percebemos nossas obrigações. Quanto mais compreendemos o bem, mais claramente enxergamos nossa incapacidade de vivê-lo.

Nietzsche escreveu que é pelas próprias virtudes que somos castigados (e olha que nem gosto muito dele, mas aqui ele mentiu?).

Durante muito tempo, achei que meus vícios seriam minha ruína. Depois percebi que minhas virtudes também podiam me destruir.

Elas me impediam de desfrutar plenamente os vícios, porque eu conhecia suas consequências. Mas também não me permitiam descansar plenamente na virtude, porque eu nunca me considerava suficiente.

Fiquei preso no meio. Incapaz de encontrar felicidade no erro e nem no acerto.

Por isso, me afastei da Igreja. Só porque estava cansado de fingir.

Cansado de confessar pecados já imaginando quando os cometeria novamente.

Cansado de prometer pra Deus uma mudança que eu não tinha maturidade para sustentar.

Muito cansado de cumprir meu checklist católico esperando alguma recompensa, que provavelmente só viria depois que eu morresse aos 90 anos, restando aí uma longa vida de vários desejos reprimidos.

Suicídio é pecado. Se matar estando em Estado de Graca não é um caminho aceitável. Uma vez, uma amiga mais católica do que eu brincou com o fato de não ter medo de ser atropelada por um carro, pois está em Estado de Graça. Pensei, "nesse caso, o acidente é praticamente um lucro."

Comigo, a confissão era uma forma religiosa de adiar o inevitável. Era muito foda continuar dizendo a Deus "prometo nunca mais pecar" e DE NOVO ter que confessar.

Talvez sair tenha sido covardia da minha parte ter afastado da Igreja. Talvez tenha sido só honestidade.

Provavelmente foi um pouco dos dois.

Eu não abandonei Deus. Não consegui.

A Verdade continua sendo um caminho sem volta. Uma vez conhecida, impossível de ser negada.

Continuo acreditando que a felicidade plena só existe em Deus. Continuo acreditando no Céu, no pecado, na graça e na necessidade de conversão. Também continuo acreditando que, no meu estado atual, eu não estou preparado para viver tudo isso como deveria.

Espero que a maturidade mude algumas coisas (afinal de contas, experiências depois de vividas já não trazem o mesmo prazer na segunda vivência).

Espero que certos prazeres percam força (afinal de contas, depois de uma certa idade o pau nem levanta mais).

Espero que, um dia, a disciplina não pareça apenas mutilação e a renúncia não pareça apenas perda (afinal de contas, dizer sim pra tudo não te torna mais feliz, pode te condenar de um jeito até pior).

Espero voltar não por medo de morrer e ir ao inferno, mas porque finalmente terei estrutura para sustentar aquilo que sempre acreditei e, principalmente, não ficar pensando no tal do "e se?".

Tudo já estaria feito. Não existiria mais o "e se?" pra me atormentar. Se for bom, foi. Se não foi, não foi. Pra ambos, tem perdão. Posso ter gostado e, intelectualmente, reconhecer que uma hora vou morrer e preciso me preparar para o Eterno, ainda que desagradável. Posso não ter gostado; confirmo minha tese e só morro em paz e sem culpar Deus por não ter vivido.

O que não dava pra continuar fazendo é comungar, sair da Igreja, ver os amigos literalmente atravessando a rua da Igreja e indo no bar mais próximo, e você confuso: "deveria ir junto?"

Pois bem. Espero não dar o azar de ser assaltado e ser vítima de latrocínio antes de estar preparado pra me converter como deveria. O jeito é torcer. Fazer o quê? É um risco.

Por enquanto, resta a honestidade desconfortável de admitir que eu não saí porque a Igreja deixou de ser verdadeira para mim. Saí porque a verdade continuava verdadeira, e eu já não conseguia suportar o que ela exigia.

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