Overdose em Redpill

Conteúdo redpill é viciante.

Não necessariamente porque seja sempre verdadeiro, mas porque oferece uma experiência psicológica extremamente sedutora: a sensação de que você finalmente descobriu aquilo que todos os outros são ingênuos demais para perceber.

De repente, relacionamentos viram mercados, afeto vira negociação, gentileza vira fraqueza e cada interação humana passa a esconder uma estratégia secreta.

O movimento acerta ao discutir temas que muitas vezes são ignorados: solidão masculina, rejeição, falta de apoio emocional, expectativas contraditórias, manipulação e dificuldades reais no mercado amoroso.

O problema começa quando observações parciais são tratadas como leis absolutas.

Uma experiência ruim com uma mulher se transforma em teoria sobre todas as mulheres. Um homem traído vira especialista em natureza feminina. Um influenciador divorciado abre a câmera, acende um charuto e começa a explicar por que o amor nunca existiu.

A redpill promete retirar o homem da ingenuidade. Em excesso, apenas troca uma ingenuidade por outra.

Antes, ele acreditava que todas as mulheres eram puras e românticas.

Depois, passa a acreditar que todas são calculistas e oportunistas.

Continua simplificando metade da humanidade. Apenas mudou a roupagem.

Existe diferença entre aprender a reconhecer riscos e enxergar ameaça em tudo. Quem consome esse conteúdo sem temperança pode começar a interpretar qualquer gesto como manipulação, qualquer independência como deslealdade e qualquer rejeição como confirmação de uma teoria universal.

Nesse ponto, ele já não está estudando a realidade. Está procurando provas para justificar a própria amargura.

Nem toda “verdade dolorosa” é verdade. Essa expressão também pode ser usada para vender vulgaridade intelectual a homens feridos. Basta dizer algo cruel, colocar uma música dramática ao fundo e chamar aquilo de despertar.

A verdadeira sabedoria não consiste em conhecer todas as perversidades possíveis.

Consiste em saber quais informações ajudam você a agir melhor.

Santo Tomás de Aquino tratava a temperança como a virtude que ordena os apetites. Isso também vale para o apetite por explicações.

Há pessoas viciadas em prazer. Outras são viciadas em indignação.

Algumas não conseguem passar um dia sem consumir um novo motivo para desprezar o mundo (autocrítica, e sim, já parei com isso). O excesso de ignorância torna o homem ingênuo. O excesso de suspeita torna o homem incapaz de confiar. E dá muito trampo consertar esse estado emocional.

Ambos estados emocionais são fáceis de manipular.

O sábio não é aquele que ignora os riscos dos relacionamentos, nem aquele que transforma todos os vínculos em guerra. É aquele que aprende o suficiente para não ser tolo, mas preserva humanidade suficiente para não se tornar insuportável.

Às vezes, saber mais é libertador. Em outras, é apenas assistir ao mesmo ressentimento em cinquenta vídeos diferentes e chamar isso de pesquisa, quase como um confirmation bias.

A verdadeira redpill talvez seja perceber que nenhum algoritmo, influenciador ou teoria de mercado substituirá caráter, prudência e experiência concreta.

E que o homem que passa a vida inteira tentando não ser enganado pode acabar enganando a si mesmo.

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