Sentir é uma coisa, saber é outra
Recentemente voltou a me dar gás para escrever.
Não necessariamente porque eu tenha alguma pretensão de ensinar grandes verdades para a humanidade. A internet já tem gente suficiente fazendo isso muito melhor do que eu.
Eu quero escrever principalmente para colecionar ideias, conceitos, ensinamentos, erros, coisas que aprendi tarde demais e coisas que talvez eu esqueça cedo demais.
Quero conseguir voltar aqui daqui a cinco, dez ou vinte anos e encontrar alguma coisa útil.
E, se eu tiver sorte, talvez minha esposa, meus filhos, meus amigos e outras pessoas que amo encontrem alguma coisa útil também.
Seria muito bom poder economizar para eles alguns dos tombos que precisei tomar pessoalmente.
Porque aprender com os próprios erros é ótimo. Aprender com os erros dos outros costuma sair mais barato. Sempre fui mestre nas duas artes, especialmente a segunda. Ser um cara menos vivido te obriga a observar muito.
Também tenho sentido falta de participar de discussões inteligentes. Não discussão no sentido moderno da internet, em que duas pessoas esperam impacientemente a vez de chamar uma à outra de idiota ou simplesmente esperam sua vez de falar.
Discussão de verdade. Aquela em que você termina sabendo alguma coisa que não sabia antes.
Foi nesse contexto que o Pedro, da NeuroVox, me sugeriu escrever sobre mente humana.
Eu já conhecia vários dos conceitos que vou comentar aqui. Alguns há bastante tempo. Mas recentemente voltei a ver conteúdos sobre o assunto e reacendeu esse interesse.
Porque existe uma pergunta absurdamente estranha que quase todo mundo ignora: o que exatamente acontece quando você sente alguma coisa?
Você já sentiu medo, raiva, vergonha. Já ficou ansioso esperando uma resposta. Já sentiu aquele frio na barriga antes de fazer alguma coisa importante. Talvez já tenha olhado para alguém e sentido seu coração acelerar.
Boa parte dessas respostas começa sem que você precise conscientemente mandar que aconteçam. Quem já brincou na Barca (aquele brinquedo de parque de diversões que se move subindo e descendo) sabe bem aquele frio na barriga cabuloso quando a barca vai descer. Você pode tentar se convencer de que está tudo sob controle. Pode racionalizar. Pode saber perfeitamente que o brinquedo foi construído para não te matar. O estômago, por outro lado, se esqueceu de processar essa mesma informação.
Alguns sentimentos dão pra domar. Outros nem tanto. E talvez “domar” nem seja a palavra certa: muitas vezes você não controla o aparecimento da resposta, mas consegue controlar melhor o que faz depois dela.
Imagine que amanhã você precise subir num palco e falar para quinhentas pessoas.
Você entra no lugar e olha para a plateia. Seu corpo pode tremer. O coração acelera. A respiração muda.
Em situações interpretadas como relevantes, ameaçadoras ou altamente estimulantes, diferentes redes do cérebro participam da avaliação do estímulo e da preparação de uma resposta. Amígdala, ínsula, hipotálamo, regiões do córtex pré-frontal, cíngulo e outras estruturas trabalham de maneira integrada. Essa visão moderna ajuda a abandonar aquela ideia simplista de que existe um único "centro das emoções". Emoção é muito mais uma rede do que um botão liga-desliga.
O cérebro não é uma empresa em que o Departamento da Razão fica no décimo andar brigando com o Departamento das Emoções no terceiro. Eu assisti Bob Esponja e achava que era assim. Descobri depois de adulto que não.
E uma das consequências dessa avaliação é a ativação do sistema nervoso autônomo.
Você não precisa conscientemente mandar seu coração bater mais rápido.
De maneira didática, podemos falar em dois grandes braços: o parassimpático, associado especialmente a estados de repouso, conservação e digestão, e o simpático, que ganha protagonismo quando o organismo precisa ficar alerta e pronto para agir.
Quando o sistema simpático entra fortemente em ação, sua fisiologia muda. A frequência cardíaca pode aumentar. A respiração muda. A pressão arterial pode subir. Há participação de catecolaminas como adrenalina e noradrenalina.
É por isso que uma emoção não é apenas uma "ideia na sua cabeça". Ela acontece no corpo também.
Quando há forte ativação simpática, a circulação sanguínea pode ser redistribuída. Há vasodilatação em territórios importantes para a ação muscular e vasoconstrição em outros, incluindo partes do trato gastrointestinal.
A explicação do IFMG para o "frio na barriga" passa justamente por aí: durante o estado de alerta, o sistema simpático favorece o direcionamento de sangue para tecidos mais úteis numa eventual ação e reduz o fluxo em partes do sistema digestório. Essa mudança brusca da fisiologia visceral participa daquela sensação estranhíssima no abdômen.
Seu encontro romântico não colocou borboletas dentro do seu estômago.
Você só está experimentando alterações fisiológicas produzidas por um sistema nervoso tentando responder àquilo que considera importante.
E "importante" é uma palavra melhor do que simplesmente "perigoso", porque respostas parecidas aparecem em situações completamente diferentes. O mesmo coração que acelera diante de alguém que quer te bater pode acelerar diante de alguém que você quer beijar.
Cognição e emoção estão profundamente integradas. Ao observar algo estranho, haverá atividade da amígdala, ínsula, cíngulo e diferentes regiões pré-frontais. Em português claro: mudar para onde a atenção vai pode mudar a maneira como redes cerebrais ligadas à experiência emocional respondem.
E isso nos leva justamente ao objetivo deste artigo: entender que sentir alguma coisa não obriga você a obedecer ao que sentiu.
O medo, a raiva, o ciúme, a vergonha... tudo isso é só informação.
Talvez essa seja uma das diferenças mais importantes entre conhecer a própria mente e simplesmente ser carregado por ela.
Você pode sentir vontade de mandar uma mensagem pra sua ex. Isso não significa que precise mandar.
Parte da regulação emocional envolve exatamente essa capacidade de direcionar atenção, reinterpretar situações e modular respostas.
Sentimento é real, o que é diferente de infalível.
E talvez seja justamente por nossos sentimentos mudarem tanto que outro fenômeno começa a ficar interessante: estamos constantemente nos adaptando.
Hoje você agradece por ter conseguido um emprego. Daqui a algum tempo você acorda numa segunda-feira pensando: "Que inferno. Tenho que trabalhar de novo! MALDITO CAPITALISMO!"
Aquilo que era novidade virou rotina.
A psicologia chama parte desse processo de Adaptação Hedônica. Pessoas realmente se adaptam, em diferentes graus, a mudanças importantes da vida. Não voltamos necessariamente a um "nível mágico e imutável" de felicidade depois de qualquer evento. Desemprego, viuvez, divórcio e incapacidade, por exemplo, podem produzir mudanças duradouras, e existem enormes diferenças individuais.
Você já deve ter ouvido a frase "ânsia de querer ter, tédio de possuir."
Porque seres humanos se acostumam.
E essa capacidade é maravilhosa. Alguns vão dizer pra nunca se acomodar, mas eu mostro logo o dedo do meio. É delicioso se acomodar e ficar de boa. O perigoso é deixar esse conforto te impedir de sonhar e de se reinventar. O perigo real é acordar um dia disposto a destruir a própria realidade apenas por ter os olhos ofuscados pelo recorte idealizado da vida de outra pessoa.
Se acomodar pode ser sinal verde. Mas nossa capacidade de adaptação também permite deixar de perceber milagres cotidianos e faz a conquista de ontem parecer uma obrigação hoje.
E talvez aqui exista uma ponte interessante entre adaptação, gratidão e relacionamentos.
Se você espera que um casamento de vinte anos produza exatamente as mesmas sensações de um namoro de três semanas, talvez esteja cobrando de uma relação madura que ela permaneça eternamente numa fase biologicamente e psicologicamente marcada pela novidade.
Isso não significa que paixão obrigatoriamente morra. Se você fizer uma ressonância magnética, vai encontrar padrões associados ao amor romântico intenso em pessoas casadas há, em média, mais de vinte anos. Ou seja: amor duradouro e intensidade não são necessariamente opostos.
Mas a literatura sobre relacionamentos também sugere que novidade compartilhada importa. Casais que realizam juntos atividades novas, interessantes e desafiadoras podem experimentar aumento de satisfação e proximidade. Então talvez o problema não seja aceitar que a relação amadureceu, nem passar o resto da vida perseguindo o "frio na barriga" inicial. A questão é aprender a criar novidade dentro da própria construção, em vez de precisar destruir a construção para encontrar novidade fora dela.
Mudar o foco exclusivamente do "frio na barriga" para coisas como gratidão, intimidade, compromisso e experiências compartilhadas é uma mudança interessante no amor de longo prazo. A obsessão por reproduzir eternamente o início químico do namoro pode nos fazer interpretar familiaridade como fracasso.
Sentimentos são só química.
Beleza, talvez eu esteja sendo simplista. Existe todo um conjunto. Mas vamos focar no que importa.
Seja justo ao exigir "quero sentir alguma coisa". Sentimentos não aparecem por decreto. E ninguém te deve a manutenção eterna da sensação que você teve no primeiro mês.
Na filosofia, o "só sei que nada sei" te faz humilde. Na psicologia, percebemos que não somos tão importantes quanto imaginamos de um jeito diferente.
Existe um fenômeno bem documentado em psicologia social chamado "efeito holofote". E é libertador conhecer e se desprender disso.
Nós tendemos a superestimar o quanto as outras pessoas estão observando, avaliando e lembrando do que fazemos.
Você derruba alguma coisa num restaurante e acha que quarenta pessoas estão pensando: "Meu Deus. Olha aquele mentecapto!"
Provavelmente duas olharam. Uma pensou besteira, a outra só pensou quando o gerente do restaurante vai chegar pra te ajudar. Uma esqueceu três segundos depois. A outra estava tentando descobrir se o garçom já estava trazendo a sobremesa.
O estoicismo me ajudou a encarar isso como se houvesse um botão do "foda-se" pra apertar. Mas tem abordagens igualmente interessantes.
Isso conversa muito com uma coisa que já vi Rafael Gratta demonstrar de maneira prática em seu conteúdo: fazer algo socialmente desconfortável em público, chamar atenção, provocar alguns olhares e perceber que, pouco depois, todo mundo voltou para a própria vida.
Claro que isso não é um experimento científico controlado. É uma demonstração prática da mesma intuição que o efeito holofote ajuda a estudar experimentalmente.
Porque é isso que as pessoas fazem. Você é o protagonista da sua vida, não da delas.
Aquela vergonha que você carrega desde 2017 provavelmente está arquivada principalmente no seu cérebro. Os outros têm as próprias vergonhas de 2017 para administrar.
A sensação de que todo mundo está observando você não é evidência de que todo mundo está observando você.
Às vezes a melhor cura para a vergonha social é perceber que as pessoas não ligam tanto assim para você. E existe uma consequência menos confortável dessa mesma realidade: até quem gosta de você está ocupado vivendo a própria vida.
Alguns parentes vão parar de telefonar. Alguns amigos vão desaparecer. Pessoas que pareciam inseparáveis seguirão caminhos diferentes.
Eu lembro bem quando dei minhas camisetas da escola para meus amigos assinarem antes de acabar o último ano escolar. Eu diria que, se dois ou três amigos permaneceram na minha vida, foi muito.
E talvez isso não seja simplesmente uma história triste sobre pessoas esquecendo umas às outras. Talvez seja um lembrete de que relações também obedecem a processos de manutenção.
Você não "tem" uma amizade ou um casamento da mesma maneira que tem um PlayStation. Uma amizade ou um casamento está acontecendo.
E processos precisam de manutenção. Até seu PlayStation precisa, embora ele não fique triste se você não decidir jogar hoje. Tenha boa vontade com minha analogia.
Não basta amar alguém silenciosamente e assumir que essa pessoa receberá por telepatia todos os pacotes de informação necessários para perceber esse amor.
Relações precisam de presença, conversas, experiências compartilhadas, atenção, demonstrações de afeto e algum esforço consciente.
E aqui voltamos à Adaptação Hedônica: se você não fizer nenhum esforço consciente, coisas extraordinárias eventualmente podem começar a parecer normais. E quando algo parece completamente normal, fica muito fácil parar de prestar atenção no valor que aquilo possui.
Talvez gratidão seja, em parte, justamente isso: prestar atenção deliberadamente ao valor de alguma coisa antes que seu cérebro a transforme em papel de parede.
Existem associações positivas entre gratidão e autoestima, otimismo, satisfação com a vida e afeto positivo. Procure estudos na internet e vais encontrar. A gratidão também explica parte do bem-estar subjetivo para além de fatores de personalidade. Isso não prova que agradecer por três coisas antes de dormir magicamente resolverá sua vida, mas é evidência suficiente para tratar gratidão como um fenômeno psicológico relevante, não apenas uma frase bonita de caneca.
Só não espere espontaneamente sentir gratidão. Pratique prestar atenção.
Continuar apreciando conscientemente uma mudança positiva e introduzir variedade nas experiências relacionadas a ela pode ajudar a retardar a perda daquele ganho inicial de bem-estar. Não significa que gratidão seja um hack para felicidade infinita. Significa algo muito menos mágico e muito mais plausível: aquilo em que você presta atenção influencia aquilo que continua percebendo.
E falar em prática nos leva de volta ao cérebro, porque ele próprio muda com experiência.
O cérebro é plástico. O sistema nervoso se modifica em resposta a experiências internas e externas, desde alterações moleculares e sinápticas até mudanças funcionais em circuitos e redes.
Neuroplasticidade não significa, como algumas pessoas na internet parecem acreditar, que você pode "reprogramar seu cérebro" para qualquer coisa apenas pensando com força suficiente. Cansei de vídeos na internet de "como ser o Ayanokoji" e "como hackear sua mente" prometendo milagres. Significa que experiência, prática e aprendizagem produzem mudanças reais no sistema nervoso.
E, se experiência ensina, existe uma vantagem brutal em prestar atenção também na experiência de outras pessoas.
Seu amigo destruiu um casamento por alguma sequência previsível de comportamentos? Observe.
Seu pai tomou uma decisão financeira ruim? Observe.
Alguém passou vinte anos cometendo o mesmo erro e gentilmente realizou o experimento longitudinal por você? Observe com carinho.
Não precisa cometer todos os erros disponíveis pessoalmente. A vida é curta demais para esse método de pesquisa.
No fim, talvez um dos efeitos mais úteis de estudar a mente seja retirar um pouco do misticismo das próprias emoções.
Você sente ansiedade. Em vez de imediatamente concluir que existe alguma coisa terrivelmente errada, pode reconhecer que seu organismo entrou em estado de alerta.
Você sente o coração acelerar. Em vez de tratar automaticamente aquilo como prova de perigo, pode entender que o sistema nervoso autônomo está alterando sua fisiologia para responder ao que percebeu como importante.
Você sente vergonha. Em vez de cavar um buraco e enfiar a cara, lembre-se que Rafael Gratta já deu um grito num shopping, vários olharam, mas segundos depois, todo mundo esqueceu. Efeito holofote provado.
Isso não significa que conhecer neurociência torna alguém imune a ansiedade, medo ou vergonha. Conhecer o nome de um mecanismo não desliga o mecanismo. O que dá pra fazer é mudar a relação que você tem com aquele sentimento.
Dentro do crânio carregamos pouco mais de um quilo de tecido capaz de produzir percepção, memória, linguagem, planejamento, emoção e consciência. É matéria suficientemente organizada para conseguir investigar a própria matéria que a constitui.
E ainda sabemos surpreendentemente pouco sobre ela.
Mas sabemos alguma coisa. O suficiente para começar.
Entender sua própria mente não vai fazer você deixar de sentir medo, raiva, inveja, ansiedade ou tristeza. Nem um sábio estoico conseguiria isso. Nao temos a mesma habilidade que Damon Salvatore em TVD, infelizmente.
Mas talvez te deixe um pouco mais humano funcional e um pouco menos orangotango consanguíneo.
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