Você provavelmente não sabe o que é dinheiro (e alguém lucra com isso)

A maioria das pessoas usa dinheiro a vida inteira sem nunca parar para pensar no que ele realmente é.

Uns vão dizer que dinheiro é aquilo que usamos para comprar coisas. Outros vão dizer que é uma forma de guardar riqueza. Alguns talvez falem em notas, moedas ou números numa conta bancária. Nenhuma dessas respostas é exatamente falsa, mas todas confundem a função do dinheiro com a natureza dele.

Uma nota de cem euros, por si só, não vale cem euros.

É um pedaço de papel particularmente com tinta, basicamente. Dá pra limpar a bunda com ele.

Ela vale cem euros porque existe uma quantidade enorme de pessoas dispostas a tratá-la como se valesse cem euros. O comerciante aceita porque sabe que o fornecedor aceitará. O fornecedor aceita porque sabe que seus funcionários aceitarão. Os funcionários aceitam porque sabem que o supermercado aceitará.

O dinheiro funciona porque existe uma cadeia de confiança. E claro, existe o curso forçado por lei. Você usa porque o Leviathan mandou você usar.

Uma empresa também pode valer bilhões sem que existam bilhões guardados em algum cofre dentro dela. Um contrato vale porque existe um sistema disposto a reconhecê-lo. Uma propriedade vale porque outras pessoas reconhecem que aquele bem pertence a você.

Com dinheiro acontece algo parecido.

O que você realmente possui quando tem dinheiro é a capacidade de reivindicar uma parcela dos bens e serviços produzidos por outras pessoas.

E é justamente aí que aparece uma coisa que todo mundo aprende na escola, mas curiosamente esquece quando começa a falar sobre dinheiro: oferta e demanda.

Se existe muita procura por uma coisa e pouca oferta, seu preço tende a subir. Se existe muita oferta e pouca procura, seu preço tende a cair.

Dinheiro não recebeu uma dispensa especial dessa regra. Esse papel colorido que você chama de dinheiro também possui oferta e demanda.

Se uma moeda é desejada por pessoas, empresas e governos, sua demanda aumenta. Se as pessoas confiam que conseguirão utilizá-la amanhã, guardá-la, investi-la e trocá-la por outras coisas, essa confiança sustenta sua procura.

Por outro lado, se a quantidade de dinheiro cresce muito mais rápido do que a quantidade de coisas que esse dinheiro pode comprar, cada unidade monetária começa a disputar uma parcela menor da riqueza real disponível.

É uma maneira menos dramática de entender a inflação e de entender que se você imprimir milhões para acabar com a pobreza, a pobreza não acaba.

A Escola Austríaca de Economia me ensinou sobre escassez. E eu pouco elaborei aqui no blog.

Se amanhã todos acordassem com dez vezes mais dinheiro na conta, mas a quantidade de casas, comida, energia, carros, médicos e horas de trabalho continuasse exatamente igual, não estaríamos dez vezes mais ricos.

Teríamos apenas dez vezes mais dinheiro tentando comprar a mesma quantidade de coisas.

Essa distinção parece pequena, mas muda bastante a maneira como você enxerga o mundo. Dinheiro é uma reivindicação sobre riqueza que existe.

E depois que você entende isso, algumas promessas começam a parecer bem menos impressionantes.

Criar dinheiro não é o mesmo que criar prosperidade (tal como La Casa de Papel, onde o Professor imprime a própria moeda e critica o fato de que o governo faz isso sempre).

É aqui que entender dinheiro começa a ficar lucrativo. A ignorância custa caro.

Quando alguém oferece um investimento extraordinário, você deixa de perguntar apenas quanto ele paga e começa a procurar de onde vem o valor que sustenta aquele pagamento.

Quando alguém promete resolver um problema econômico simplesmente colocando mais dinheiro nele, você começa a perguntar se aumentou também a quantidade de recursos, produção ou produtividade disponíveis.

Dinheiro é um mecanismo extraordinariamente poderoso, mas ele não revoga as leis econômicas. Ele não produz comida, não constrói casas e não cria energia. Ele organiza quem pode reivindicar essas coisas.

Talvez a maneira mais útil de pensar sobre dinheiro seja justamente essa: ele vale porque outras pessoas acreditam que poderão entregá-lo adiante em troca de algo que desejam. É por isso que isso é mais eficiente que o escambo; eu provavelmente não quero suas maçãs e você provavelmente não quer minhas bananas. Mas se temos dinheiro, podemos trocar.

Entender dinheiro também é entender incentivos.

Pessoas respondem ao que é recompensado, punido ou facilitado.

Um incentivo virtuoso acontece quando o sistema recompensa justamente o comportamento que produz o resultado desejado. Se um vendedor ganha mais quando mantém clientes satisfeitos por muito tempo, ele tem incentivo para vender bem e preservar a relação. Se um funcionário participa do lucro que ajuda a criar, existe maior alinhamento entre esforço, resultado e recompensa.

Quem assistiu a O Lobo de Wall Street deve se lembrar.

Se o vendedor é recompensado apenas por fechar a venda, e não por resolver o problema do cliente, o sistema não está incentivando boas soluções. Está incentivando vendas. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Nesse cenário, empurrar qualquer porcaria para cima do comprador pode ser perfeitamente racional (pra quem vende). A confiança do cliente vira um preço barato a pagar diante de uma comissão suficientemente gorda.

O problema não está necessariamente na pessoa. Está naquilo que o sistema decidiu recompensar.

Mas nem todos somos vendedores. Eu, por exemplo, nunca trabalhei com vendas. Sempre trabalhei com a bundinha sentada numa cadeira de escritório, executando tarefas.

E lembro muito bem de quando comecei. Eu era MUITO eficiente.

Terminava rápido, resolvia problemas, entregava o que me pediam e, frequentemente, sobrava tempo. Minha recompensa por avisar ao gestor que terminei tudo com rapidez não foi um salário maior. Foi mais trabalho. Trabalho de colegas que ganhavam mais do que eu.

Imagine duas pessoas no mesmo cargo, com o mesmo salário. Uma termina suas tarefas com eficiência, resolve problemas rápido e entrega mais do que o esperado. A outra faz apenas o necessário para cumprir a função.

Se, no fim do mês, ambas recebem exatamente o mesmo e a única diferença é que a mais eficiente ganha novas tarefas porque terminou antes, o sistema criou um incentivo curioso: trabalhar melhor virou uma forma de ser punido.

Pessoas inteligentes percebem isso. Eu passei a perceber isso.

Elas fazem o cálculo. Existe reconhecimento? Existe chance real de promoção? Mais responsabilidade vem acompanhada de mais salário, autonomia ou participação nos resultados? Existe alguma perspectiva concreta de crescimento?

Se a resposta for sim, trabalhar além do necessário pode ser um investimento.

Se a resposta for não, o incentivo muda completamente. Você entrega mais, termina antes, avisa o chefe e recebe como recompensa... mais trabalho.

Nesse tipo de ambiente, não é surpreendente que as pessoas aprendam a administrar o próprio esforço.

Ninguém aqui é preguiçoso. Perceba isso como adaptação racional ao sistema de incentivos. Se uma empresa quer funcionários excelentes, mas recompensa excelência apenas com carga extra, talvez ela esteja treinando seus melhores funcionários a parecerem medianos.

A vida real me ensinou isso. Classroom of the Elite também me ensinou isso. Pra absolutamente TUDO é necessário um incentivo, inclusive se destacar perante aos outros.

Por isso, diante de qualquer sistema, vale perguntar: quem é recompensado, por quê e pelo quê?

Se você consegue ligar parte da sua renda ao valor que cria, seus incentivos ficam mais alinhados com crescimento.

O sistema é foda, mas é o que é. Esse sistema inteiro é sustentado pela confiança, pela escassez e pela expectativa de que amanhã o jogo continuará funcionando do jeito que funciona.

O curioso é que bilhões de pessoas participam desse jogo todos os dias. Pouquíssimas se dão ao trabalho de aprender as regras.

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