Boas intenções, maus resultados...

Sempre que uma merda acontece, às vezes pensamos que aquele não era o efeito que queríamos. Nisso surge o famigerado debate: intenção importa? Ou somente as consequências?

Existem dois extremos. A pessoa contempla a merda que fez, olha para as próprias mãos e conclui que, como não desejava aquilo, talvez não tenha nada a ver com aquilo. No extremo contrário, pouco importa o que você queria. Só importa o que aconteceu. Se sua ação terminou mal, você agiu mal. Se terminou bem, agiu bem.

Imagine que alguém lhe pede dinheiro emprestado. Diz que está passando por dificuldades. Você conhece a pessoa, sente pena e entrega cem euros. Horas depois descobre que o dinheiro foi usado para comprar drogas.

Sua intenção era alimentar um vício?

Certamente você só queria ajudar um pobre coitado.

Mas isso significa que você está completamente isento de responsabilidade?

Talvez não.

A pergunta incômoda começa exatamente aí.

Você sabia que a pessoa tinha problemas com drogas? Ela já havia mentido sobre dinheiro antes? O pedido era estranho? Você perguntou para que precisava? Havia sinais evidentes que preferiu ignorar porque era mais agradável sentir-se generoso do que parecer desconfiado?

A intenção importa, eu sei. Mas a intenção precisa vir acompanhada de algumas virtudes.

Há coisas que realmente não poderíamos prever.

Consequências importam porque vivemos no mundo real, não dentro da nossa cabeça. Pessoas sofrem com aquilo que fazemos, não com a versão idealizada daquilo que pretendíamos fazer.

Mas intenção também importa porque atos humanos não são pedras caindo de uma montanha. Eles partem de uma inteligência e de uma vontade. Existe diferença moral entre matar alguém deliberadamente, causar uma morte por negligência e estar envolvido numa morte completamente imprevisível. O cadáver pode ser o mesmo. A culpa não é.

O problema, portanto, não é escolher entre impacto e intenção.

É descobrir qual responsabilidade existe entre os dois.

Não existe uma fórmula infantil capaz de calcular culpa com precisão matemática.

“Intenção boa + resultado ruim = inocente.”

“Resultado ruim = culpado.”

A responsabilidade cresce conforme crescem o conhecimento, a liberdade e a previsibilidade.

Quanto mais você sabia, mais difícil alegar inocência.

Quanto mais você poderia ter sabido sem esforço absurdo, mais difícil usar ignorância como escudo.

Quanto mais previsível era a consequência, menos convincente é dizer que “não era sua intenção”.

Talvez um exemplo mais cotidiano seja o de certas verdades inconvenientes. Às vezes alguém resolve dizer algo que pensa há meses, xingar uma ex, confessar um sentimento, declarar amor por alguém comprometido ou lançar uma verdade brutal em nome da sinceridade.

Depois, diante da reação, vem a defesa de que a intenção era apenas ser honesto.

Pode até ser.

Mas honestidade não concede imunidade contra consequência.

Se você escolhe dizer algo sabendo que aquilo pode ferir, romper uma amizade, destruir uma relação ou colocar outra pessoa numa situação constrangedora, não basta alegar que não queria aquele resultado. Você decidiu entrar numa situação em que ele era perfeitamente possível.

Existe diferença entre querer ferir alguém e aceitar o risco de feri-lo para dizer aquilo que você queria dizer.

A ausência de intenção direta não elimina a responsabilidade.

É por isso que “eu só estava sendo sincero” às vezes é menos uma defesa moral e mais uma tentativa de lavar as mãos depois de jogar uma granada no ambiente.

E aqui mora uma distinção importante.

Não desejar o mal não significa ter feito o suficiente para evitá-lo.

Há uma diferença enorme entre inocência e negligência.

Quem empresta dinheiro ao dependente químico sem saber de nada pode ter cometido apenas um erro infeliz. Quem percebe sinais estranhos, pedidos de dinheiro muito recorrentes e sem um plano claro de restituição, e mesmo assim entrega o dinheiro sem fazer perguntas, talvez ainda tenha uma boa intenção, mas já não possui a mesma inocência.

A bondade veio acompanhada de estupidez. Aconteceu comigo. Quando descobri depois, me senti um otário.

Também tive uma amizade construída em cima de uma dinâmica bastante específica. Era uma amizade tóxica no sentido quase cômico da palavra. Eu zoava essa pessoa sem parar, ela aceitava, respondia, a relação funcionava assim e, em nenhum momento, houve um limite claro estabelecido.

A dinâmica simplesmente existia.

Até que, em determinado momento, fiz uma brincadeira que ela não gostou.

O problema não foi ela não gostar. Isso, por si só, era perfeitamente legítimo.

O que me marcou foi perceber que, naquele momento, minha intenção parecia ter perdido qualquer importância. A reação veio imediatamente no campo da consequência. A brincadeira a havia atingido mal, portanto o ato inteiro parecia ter sido reduzido àquele impacto.

E foi ali que comecei a pensar com mais seriedade sobre a separação entre intenção e resultado.

Porque eu conseguia entender que o resultado tinha sido ruim.

Eu poderia reconhecer isso.

Poderia admitir que a piada ultrapassou algum limite que, embora nunca tivesse sido estabelecido claramente, PRA ELA esse limite existia.

E eu, mesmo naquele momento, era totalmente capaz de pedir desculpas pelo efeito produzido. Eu tinha maturidade pra entender que eu posso ter errado no limite, no aspecto da piada ou na leitura da situação.

O foda é que, ao mesmo tempo em que eu sabia do dano que eu causei, eu esperava da parte dela algum esforço em distinguir esse efeito da intenção que havia por trás do ato.

Na minha mente, ela deveria saber que minha intenção não foi machucá-la. Ela ficou puta comigo por que? Nunca saberei. Ela nunca me disse.

Eu não havia acordado naquele dia e decidido humilhá-la. Eu já havia feito brincadeiras pesadas dentro daquela mesma dinâmica, sem que aquilo tivesse sido apresentado como um limite. Na minha cabeça, eu estava apenas agindo dentro da linguagem que aquela própria amizade havia construído.

Eu era jovem. Permita-me ter alguns amigos com quem ser idiota era parte da dinâmica.

Bem, infelizmente nossa amizade acabou sem que essa distinção entre intenção e resultado jamais ficasse clara para mim. Até hoje não sei se ela condenava apenas aquilo que a piada produziu, se acreditava que minha intenção também era ruim ou se simplesmente não houve espaço para separar as duas coisas.

E talvez esse tenha sido o ponto mais frustrante.

Sem essa separação, também não existe uma boa responsabilização.

Porque pedir desculpas por uma consequência não exige necessariamente admitir uma intenção que nunca existiu. Eu, de fato, reconheci que eu posso tê-la machucado. Mas nunca foi o que eu quis.

Talvez algumas relações terminem justamente porque as pessoas não conseguem fazer essa distinção.

Uma quer que o impacto seja reconhecido.

A outra quer que sua intenção não seja falsificada.

E ambas acabam falando de coisas diferentes enquanto acreditam estar discutindo o mesmo ato.

A intenção costuma ter excelente departamento de relações públicas, mas é perfeitamente possível ter boas intenções e produzir resultados terríveis. Pais controladores, políticos autoritários e fanáticos religiosos palpiteiros da vida alheia podem estar carregados de boas intenções.

Falta responsabilidade pelo resultado.

Por isso, confiar exclusivamente na declaração que alguém faz sobre as próprias intenções é ingenuidade.

O ser humano mente para os outros, mas possui talento especial para mentir para si mesmo.

Às vezes a pessoa não queria ajudar. Queria sentir-se como alguém que ajuda.

A intenção real pode ser muito menos nobre do que a intenção anunciada.

Mas existe uma arrogância igualmente perigosa no sentido contrário, que é julgar decisões antigas usando informações que só apareceram depois.

Responsabilidade exige perguntar o que a pessoa sabia naquele momento, o que razoavelmente poderia saber e quais alternativas realmente estavam disponíveis.

Não aquilo que sabemos agora.

Isso não é relativismo.

É justiça.

Talvez uma das melhores medidas do caráter nem seja nunca causar consequências ruins. Isso é impossível.

Talvez seja observar o que alguém faz depois de descobrir que causou uma.

A pessoa imatura usa a ausência de má intenção como salvo-conduto. Age como se o simples fato de não ter desejado o resultado encerrasse toda a discussão.

A pessoa responsável consegue reconhecer algo mais desconfortável: eu não queria que isso acontecesse, mas aconteceu através de uma decisão minha. Então preciso entender qual parte me pertence.

Existe uma zona desconfortável entre malícia e acidente onde mora boa parte da responsabilidade humana.

É ali que encontramos imprudência, ingenuidade, negligência, orgulho, cegueira voluntária e todas aquelas pequenas falhas que adoramos chamar simplesmente de “boa intenção”.

No fim, intenção e consequência precisam andar mais de mãos dadas.

Mas isso não significa tratá-las como se fossem a mesma coisa.

Às vezes, a única maneira de fazer justiça a uma situação é separá-las.

Perguntar primeiro o que a pessoa quis fazer. Depois perguntar o que ela efetivamente fez. Depois olhar para o que aquilo produziu. E só então discutir responsabilidade.

Se você gosta de simplificações matemáticas, como eu, dá para pensar assim:

I = intenção, E = execução, R = resultado, P = previsibilidade, C = culpa.

I boa ≠ R bom.
R ruim ≠ I ruim.

Pode existir I boa + E ruim = R ruim.
Pode existir I ruim + acaso = R bom.
Podem existir variáveis fora da equação, como acidentes, baixa previsibilidade, negligências, etc.

Quem causou o dano precisa olhar para o resultado. Quem recebeu o dano também precisa, quando possível, olhar para a intenção.

Porque consequência não apaga intenção.

E intenção não apaga consequência.

Comentários

Mensagens populares