O caminho ao absoluto

Se você quiser levar a filosofia até o limite, existem duas perguntas que praticamente engolem todas as outras: 'por que existe algo em vez de nada' e 'qual é o sentido da vida?'

Uma olha para trás, procurando a origem de tudo. A outra olha para frente, perguntando para onde tudo isso aponta. Entre uma e outra está praticamente o mapa inteiro da existência humana. O resto, por mais importante que seja, parece em algum grau uma questão regional. Política, ciência, moral, psicologia, sociedade, tudo isso entra depois que você já aceitou o pequeno detalhe de que há alguma coisa aqui para ser estudada.

Então vale começar do início de verdade. Há algo?

Se absolutamente nada existisse, esta pergunta não poderia sequer aparecer. O nada não pensa, não duvida. A pergunta zero seria essa. A resposta parece fácil. Estamos aqui contemplando a pergunta. Logo, algo existe. E qual é a coisa mais segura que podemos afirmar? Você pode desconfiar do mundo, dos sentidos, da memória e até da própria sanidade, mas não consegue negar que há uma experiência acontecendo aqui nesse exato momento sem produzir justamente uma experiência de negação. Em sentido mínimo, portanto, 'eu' existo.

A próxima pergunta é mais perigosa: há algo além de mim? Posso conhecer alguma coisa da realidade ou estou condenado a viver dentro das minhas próprias representações?

Felizmente, o mundo tem o mau hábito de resistir. Você pode acreditar com convicção absoluta que o ar não existe. O ar continuará existindo, você sentindo a brisa enquanto respira mesmo negando. Isso não significa que conhecemos tudo perfeitamente. Significa apenas que há uma realidade capaz de corrigir nossos erros. Já é o suficiente para concluir que alguma coisa pode ser conhecida e que o real é, pelo menos em parte, inteligível.

A partir daí aparece a primeira grande bomba: o que significa existir? Há diferença entre aquilo que uma coisa é e o fato de ela existir?

Sim. Você consegue entender o que seria um unicórnio. Saber o que algo é não significa que aquilo necessariamente exista. E isso vale para quase tudo ao nosso redor. Um homem poderia não ter existido. Uma árvore poderia não ter existido. Um planeta poderia não ter existido. Então surge a pergunta que começa a apertar o parafuso: se essas coisas poderiam não existir, por que existem?

Aqui entra um dos problemas mais antigos e irritantes da filosofia, o Trilema de Agripa. Quando pedimos uma justificativa para alguma coisa, aparentemente temos três caminhos. Ou continuamos justificando para sempre, numa regressão infinita. Ou paramos em algum ponto e simplesmente declaramos que aquilo é assim, sem justificativa adicional. Ou usamos alguma coisa anterior para justificar aquilo que, em algum momento, volta a depender do que estávamos tentando justificar, criando um círculo. Só dor de cabeça.

Agora aplique isso ao próprio ser. Se uma coisa existe porque outra lhe deu existência, e essa outra depende de uma terceira, podemos continuar para sempre. Mas uma regressão infinita de dependentes ainda é composta apenas por dependentes. É como imaginar uma fila infinita de filhos de alguém e achar que, pelo fato de a fila não ter fim, não há um "pai" de todos. A regressão pode ser infinita e ainda assim não explicar a fonte da dependência.

É aqui que nasce a ideia de um fundamento absoluto. Se tudo aquilo que conhecemos recebe o ser, então deve existir aquilo que não recebe o ser. Algo que não exista porque outro o produziu, sustentou ou atualizou. Algo que exista por si. E agora começam as perguntas que realmente importam: esse fundamento pode ser composto? Se for composto, depende de suas partes. Pode ser material? Se for material, depende de condições, estrutura, potencialidade e mudança. Pode ser contingente? Se puder não existir, ainda falta explicar por que existe.

Aos poucos, o espaço de possibilidades vai ficando apertado. O fundamento último precisa ser simples, imaterial, necessário e independente. Se é absolutamente independente, não passa de potência a ato como os seres mutáveis. Portanto é imutável. Se não sofre mudança, não está submetido ao tempo como nós estamos. Portanto é eterno. Pode haver dois fundamentos absolutamente primeiros? Se houver dois, deve existir alguma coisa que os diferencie. Se um possui algo que o outro não possui, existe limitação. Se a diferença vem de uma composição interna, já perdemos a simplicidade. Se nada os diferencia, não são dois. O fundamento tende à unidade.

Até aqui alguém ainda poderia imaginar uma espécie de cósmo eterno, absolutamente necessário e completamente burro. O problema é explicar de onde vêm inteligibilidade, ordem, racionalidade e inteligência. Se o fundamento de toda realidade fosse inferior em perfeição àquilo que dele procede, teríamos a curiosa situação de uma causa incapaz de explicar aquilo que aparece nos seus próprios efeitos. O princípio primeiro não precisa pensar como nós, obviamente, mas deve conter de modo superior aquilo que aparece em nós de maneira limitada. O caminho começa então a apontar para um fundamento necessário, uno, simples, imaterial, eterno e inteligente.

Neste ponto, Deus começa a fazer sentido.

Mas ainda falta muita coisa, porque saber de onde tudo vem não responde à outra pergunta que interessa tanto quanto a primeira: qual é o sentido da vida?

Para chegar lá, precisamos perguntar se o fundamento do Ser também é o fundamento do Bem. Um olho que vê é melhor, enquanto olho, do que um olho incapaz de ver, porque o olho saudável possui mais 'ser', isto é, mais realidade operacional e funcional. Essa realização de um propósito intrínseco não depende do acaso; ela revela uma finalidade estruturada na própria natureza. Ora, se o fundamento absoluto possui o ser de maneira plena, originária e não recebida, nele não há falta, privação ou imperfeição. Sendo a máxima expressão do Ser, Ele é, por identidade metafísica, a máxima expressão do Bem. Portanto, o fundamento absoluto do ser é também, necessariamente, o Bem absoluto.

Se os seres possuem naturezas determinadas, possuem capacidades determinadas. O ser humano pensa, escolhe, vive corporalmente e forma relações. Essas capacidades podem ser realizadas bem ou mal. A inteligência pode buscar verdade ou mergulhar voluntariamente na estupidez. A vontade pode ordenar-se ao bem ou destruir aquilo que diz desejar. A sociabilidade pode produzir amizade, justiça e cooperação ou um condomínio onde quatro adultos passam seis meses brigando por uma vaga de garagem. Se existem modos objetivos de realizar nossas capacidades, então existem bens humanos objetivos. E se existem bens humanos objetivos, existe uma ordem moral que não depende apenas de preferência.

É aqui que o relativismo começa a ficar menos confortável. Dizer que todo bem é subjetivo parece sofisticado até alguém decidir aplicar essa filosofia à sua dignidade. De repente aparecem princípios universais com uma velocidade impressionante. A questão não é negar diferenças culturais ou circunstâncias. É reconhecer que uma natureza humana real permite falar em realização e destruição de maneira objetiva.

Então chegamos à felicidade. O que buscamos em todos os nossos desejos? Algum bem. Às vezes verdadeiro, às vezes imaginário, às vezes claramente idiota, mas sempre algo percebido como bom. O dinheiro promete segurança ou liberdade. O conhecimento promete verdade. O prazer promete satisfação. O reconhecimento promete valor. O problema é que nenhum desses bens fecha a conta. Você consegue um e aparece outro desejo. Descobre uma verdade e surgem cinco novas perguntas. A inteligência parece aberta à verdade enquanto tal e a vontade ao bem enquanto tal.

Isso recoloca a segunda pergunta suprema da filosofia: qual é o sentido da vida? Se o ser humano possui uma abertura que nenhum bem finito consegue preencher completamente, então talvez o fim último não seja um bem finito. Talvez estejamos tentando resolver uma fome estrutural com lanches sucessivos e depois nos surpreendendo porque continuamos com fome.

Se existe um Bem absoluto e se a vontade humana está aberta ao bem de maneira universal, então o fim último começa a apontar para o mesmo lugar de onde partimos metafisicamente. O fundamento primeiro do ser aparece também como o fim último da criatura racional. Deus seria não apenas aquilo de onde tudo procede, mas aquilo em direção ao qual o desejo humano encontra sua realização completa.

A razão consegue chegar até aqui. Marque esse ponto!

Apenas com argumentos racionais foi possível argumentar que algo existe, que a realidade é inteligível, que seres contingentes exigem uma explicação, que uma cadeia de dependentes não explica a própria dependência, que um fundamento último deve possuir certos atributos e que o Bem absoluto coincide com esse fundamento. O que a razão não consegue fazer sozinha é descobrir se esse Deus quer estabelecer alguma relação particular conosco. Precisamos apelar para alguma revelação que veio desse mesmo Deus.

Então surge uma nova pergunta: Deus pode revelar-se? Se é inteligente, certamente pode. A questão séria é se realmente o fez. E agora saímos da metafísica pura e entramos na história. Precisamos perguntar se existe alguma alegação de revelação suficientemente coerente com a razão e suficientemente sustentada por fatos para merecer confiança.

É aqui que entra Cristo. Se Jesus Cristo realmente é quem diz ser, se suas afirmações sobre si mesmo e sobre o Pai forem verdadeiras, então o mapa ganha uma extensão que a filosofia natural jamais conseguiria deduzir sozinha. O homem não seria chamado apenas a conhecer que Deus existe, mas a participar da vida divina. Essa participação é graça. Não significa deixar de ser criatura e virar uma espécie de mistureba metafísica com Deus. A criatura continua criatura, mas é elevada a uma comunhão que supera aquilo que sua natureza alcançaria por si mesma.

E o fluxograma inteiro pode ser reduzido sem perder a estrutura: há algo? Se nada existisse, nem a pergunta existiria. Logo algo existe. O que existe com certeza? Ao menos esta experiência presente. Portanto, em sentido mínimo, eu existo. Há algo além de mim? Sim, porque a realidade resiste e pode ser conhecida parcialmente. O que significa existir? Há seres cuja essência não implica existência. Se não explicam por si mesmos por que existem, de onde recebem o ser? Uma cadeia de dependentes explica a dependência? Não. O Trilema de Agripa mostra que regressão infinita, circularidade ou parada arbitrária deixam problemas abertos. É necessário um fundamento que não dependa do mesmo tipo de explicação. O que poderia existir por si? Algo simples, imaterial, necessário, imutável e eterno. Pode haver vários absolutos? A diferenciação introduziria limitação. Portanto é uno. Pode ser desprovido de inteligência? Isso deixaria sem explicação adequada a inteligibilidade e a inteligência presentes na realidade. Portanto é inteligente. Esse fundamento é Deus. Deus é apenas fundamento do ser? Não, porque a plenitude do ser implica plenitude do bem. Portanto é o Bem absoluto. O ser humano possui natureza racional e bens objetivos. Logo existe uma ordem moral objetiva. O que buscamos em última análise? Felicidade. Algum bem finito satisfaz completamente uma inteligência aberta à verdade e uma vontade aberta ao bem? Não. Então qual bem pode realizar plenamente o homem? O Bem sem limite. Esse Bem é distinto do fundamento absoluto do ser? Não. Deus é origem e fim. A razão consegue saber isso, mas não consegue decidir sozinha se Deus se revelou. A investigação histórica leva à pergunta sobre Cristo. Se Cristo é quem afirma ser, então o homem é chamado à participação sobrenatural na vida divina, pela graça, até a comunhão eterna com Deus.

É possível que nunca consigamos compreender o Absoluto de maneira absoluta. Isso não deveria surpreender ninguém. Seria bastante suspeito se uma inteligência finita conseguisse chegar no infinito. Conhecer verdadeiramente não significa compreender completamente.

No fim, talvez as duas perguntas mais brutais da filosofia sejam realmente essas: por que existe algo em vez de nada e qual é o sentido da vida? A primeira empurra a razão para um fundamento absoluto. A segunda empurra o desejo humano para um Bem absoluto. O curioso é que os dois caminhos parecem terminar no mesmo lugar.



Não temos uma fotografia metafísica de Deus em resolução perfeita. Temos um conjunto de argumentos que, tomados em sequência, tornam difícil tratar o Absoluto como simples invenção da cabeça de alguém. Se Deus foi inventado por uma mente humana, esse alguém é maior que Deus. "Um cego não pode inventar a ideia de luz se a luz não existir". Se a mente humana (que é finita e limitada) inventou um Deus infinito, o inventor teria que ser maior do que a própria realidade que ele habita. Há mais razões para confiar que existe um fundamento necessário, inteligente e absoluto do que para acreditar que toda a realidade consegue simplesmente pendurar-se no nada sem explicação alguma.

E o nada, mais uma vez, continua sem apresentar sua defesa.

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