Oração é checklist?
Muita gente rejeita a ideia de oração obrigatória porque ela parece mecânica. Se eu tenho que rezar todos os dias, em horários específicos, mesmo quando estou cansado ou sem vontade, isso não transforma a oração em checklist?
Existe uma diferença entre uma prática ter estrutura e ela existir apenas para cumprir tabela.
Um casamento ajuda a entender isso. Um homem pode combinar que toda sexta-feira vai jantar com a esposa. Existe dia marcado, compromisso e repetição. Aquilo pode até estar no calendário.
Mas ninguém diria que o casamento virou checklist por causa disso. É só uma tradição que o casal combinou.
O compromisso existe justamente porque algumas coisas são importantes demais para depender apenas da vontade do momento. Convenhamos, não é sempre que dá vontade.
Se o casal só se encontrasse quando os dois estivessem espontaneamente animados, provavelmente a relação começaria a se desgastar. O horário não substitui o amor. Ele protege um espaço onde o amor pode continuar existindo.
Com oração acontece algo parecido.
Nem todos os dias a pessoa vai acordar inspirada. Em alguns, a oração pode ser intensa. Em outros, cansativa, distraída e até seca. Se a regra for rezar apenas quando surgir vontade, a vida espiritual passa a ser controlada pelo estado emocional. Já escrevi artigos aqui questionando as emoções.
Talvez seja por isso que a Igreja sempre tenha dado tanta importância a horários, ciclos e orações fixas. O rosário possui uma estrutura. A Liturgia das Horas possui horários. Ordens religiosas organizam grande parte do dia ao redor da oração.
Isso não significa que Deus precise de uma quantidade determinada de palavras antes de considerar a tarefa concluída.
Significa que o ser humano precisa de estrutura.
Um exemplo particularmente forte está na vida dos padres.
Mesmo em um dia de folga, o sacerdote continua ligado à Liturgia das Horas. Ele pode estar viajando, visitando a família ou descansando, mas aquela oração continua fazendo parte da sua missão.
A Missa também ocupa um lugar central na vida sacerdotal. Embora nem sempre exista obrigação de celebrá-la diariamente, a Igreja recomenda fortemente a celebração frequente, inclusive quando não há uma comunidade presente.
Além disso existem oração pessoal, meditação, estudo, exame de consciência e toda a disciplina própria da vida sacerdotal.
E isso acontece antes de considerarmos o restante da rotina.
Nos dias comuns ainda existem Missas, confissões, funerais, casamentos, batizados, reuniões, administração da paróquia, visitas a enfermos, preparação de homilias e emergências que simplesmente não perguntam se aquele era o dia de folga.
Um checklist serve para terminar alguma coisa. Você marca o item e segue para o próximo.
A oração não deveria funcionar assim.
A estrutura existe, mas a finalidade não é simplesmente poder dizer que terminou.
É permanecer em relação com Deus mesmo quando a pessoa não está emocionalmente disposta.
Talvez termine uma oração sentindo que não aconteceu absolutamente nada. Ainda assim, você apareceu.
Isso não é tão diferente de ficar sentado ao lado de alguém que você ama quando não existe muito para dizer.
O silêncio não torna a presença inútil. Inclusive, ouso dizer que relacionamentos só dão certo quando o silêncio não é constrangedor.
Da mesma forma, rezar sem entusiasmo não significa necessariamente rezar sem valor.
A cultura atual costuma tratar autenticidade como espontaneidade. Se eu sinto vontade, faço. Se não sinto, seria falso me obrigar.
Mas algumas das coisas mais importantes da vida funcionam justamente ao contrário.
Você cuida de alguém quando está cansado.
Cumpre uma promessa quando seria mais conveniente abandoná-la.
Continua estudando quando perdeu a motivação.
A repetição não substitui a intenção.
Por que a oração seria a única área da vida em que disciplina destruiria a autenticidade? Um checklist ajuda as coisas a sobreviverem à nossa própria inconstância.
Tenha sempre um lugar reservado para Deus, mesmo quando acordar sem vontade.
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