Um ano após Charlie Kirk...
No dia 10 de setembro de 2025, Charlie Kirk foi assassinado com um tiro durante um evento na Utah Valley University. Havia milhares de pessoas assistindo. Um ano depois, o acusado Tyler Robinson já foi enviado a julgamento e se declarou inocente das acusações, portanto ainda cabe à Justiça determinar definitivamente sua responsabilidade criminal.
O fato central, porém, não está mais em discussão. Kirk foi morto enquanto fazia exatamente aquilo pelo qual se tornou famoso. Sentava diante de pessoas que discordavam profundamente dele e aceitava o confronto. E eu sempre achei admirável ter uma postura firme em defender as próprias idéias.
Eu gostava de Charlie Kirk como debatedor. Não concordava com tudo o que dizia. Kirk era protestante e, sendo católico, tenho divergências teológicas importantes com a tradição da qual ele fazia parte. Também discordava de algumas de suas posições políticas e de algumas simplificações retóricas que empregava. Isso não muda o fato de que ele era excepcionalmente competente na arte do debate.
Kirk resgatou o "Change My Mind" e inventou uma própria versão do debate universitário aberto. Uma mesa, um microfone, uma fila de estudantes e a proposta de tentar provar que ele estava errado. A própria Turning Point USA descreve hoje esse modelo como parte do legado de Kirk e continua promovendo eventos "Prove Me Wrong" em universidades americanas.
Parece pouco, mas não é.
Vivemos numa época em que o debate político é cada vez mais terceirizado para algoritmos. Você não precisa mais conversar com alguém que discorda de você. Basta assistir a um corte de trinta segundos em que alguém do seu lado humilha uma caricatura do outro (e o povo acha daora ver o espantalho apanhando).
Kirk também conhecia perfeitamente essa lógica e utilizava cortes agressivos nas redes. Seus críticos tinham razão ao apontar que seus debates muitas vezes buscavam a vitória retórica mais do que a busca da verdade. Faz parte do jogo. Mesmo fazendo showzinho, ouso dizer que Kirk acertava mais do que errava.
Mesmo assim, havia algo valioso no ato básico de colocar o adversário na sua frente e entregar-lhe um microfone.
Você poderia chamá-lo de extremista, fascista, reacionário, blá blá blá. Poderia passar vinte minutos explicando por que considerava suas ideias absurdas.
Mas ele te permitia argumentar. Te dava voz.
Talvez seja justamente por isso que sua morte tenha produzido uma reação tão diferente de outros episódios de violência política.
O assassinato já seria horrível por si só. O que veio depois, porém, expôs algo mais profundo. Enquanto democratas, republicanos e figuras públicas de diferentes posições condenavam o crime nos Estados Unidos, apareceram também pessoas comemorando, ironizando ou tratando a morte como uma espécie de correção moral do universo.
No Brasil, um dos casos mais grotescos foi o de Eduardo Bueno, o Peninha. Em vídeo publicado após o assassinato, afirmou que seria sempre terrível um ativista morrer por suas ideias, "exceto quando é o Charlie Kirk", sorrindo e batendo palmas. Depois, tentou qualificar sua posição. Disse que havia errado na forma e negou ter comemorado propriamente o assassinato, mas manteve a afirmação de que, em sua opinião, "o mundo ficou melhor" sem Kirk. A PUC-RS cancelou um evento que faria com Bueno, e posteriormente ele foi afastado do Conselho Editorial do Senado.
Outro episódio envolveu uma stylist da Vogue Brasil que compartilhou a frase "Amo quando fascistas morrem agonizando" dois dias depois do assassinato. Ela afirmou que a publicação não se referia a Kirk, mas à condenação de Jair Bolsonaro. A Vogue encerrou seu vínculo profissional. Esse detalhe precisa ser preservado porque acusar alguém de celebrar uma morte quando a própria pessoa nega que sua publicação tivesse aquele alvo exige cautela.
Houve gente de esquerda que condenou o assassinato imediatamente. Esses são dignos de respeito e manutenção do diálogo que Kirk buscava.
O problema é que um setor militante e barulhento da esquerda considerou perfeitamente aceitável transformar a morte do adversário em piada.
Há anos existe uma linguagem política baseada em retirar primeiro a legitimidade moral do adversário para depois concluir que conversar com ele seria quase uma forma de cumplicidade.
Chamar alguém de fascista é um jeito disso.
É como apontar que a própria existência política de alguém representa uma ameaça.
Quando você constrói o adversário dessa maneira, uma consequência perigosa aparece. Se ele não é mais alguém errado, mas alguém essencialmente maligno, por que eu deveria respeitar seus direitos? Por que deveria ouvi-lo? Por que lamentaria sua morte? Se um merda desse morrer, é lucro, né?
Essa lógica não pertence exclusivamente à esquerda. A direita já produziu sua própria coleção de desumanização, delírio conspiratório e prazer diante do sofrimento adversário.
Lula, por mais que seja uma figura abjeta da política brasileira, infelizmente enfrentou um câncer na laringe, diagnosticado em outubro de 2011, uma patologia grave que exigiu sessões de quimioterapia e radioterapia, da qual os médicos declararam remissão completa nos anos seguintes. Mais recentemente, em abril de 2026, ele foi diagnosticado com um carcinoma basocelular no couro cabeludo, um tipo mais comum e menos agressivo de câncer de pele. A lesão foi removida cirurgicamente no Hospital Sírio-Libanês e, após passar por 15 sessões preventivas de radioterapia, o presidente declarou-se oficialmente curado em junho de 2026.
Sinceramente, desejo que Lula se cure e viva por vários anos. É o anseio legítimo para que ele tenha tempo de se confessar, se redimir e pagar integralmente por seus crimes na cadeia, cumprindo a justiça terrena antes da divina.
Essa mesma postura moral deve ser aplicada a Jair Bolsonaro. Alvo do mesmo sadismo político por parte da esquerda após o atentado à faca sofrido em 2018, Bolsonaro lida até hoje com crises intestinais severas e aderências decorrentes da violência sofrida.
Não quero ser puritano aqui. Quem já assistiu Death Note sabe muito bem que algumas figuras, quando deixam de existir, param de espalhar o mal. Mas permita-me ser idealista: num mundo ideal, as pessoas deveriam ter freios morais mais robustos. É tentador dizer que Lula deve morrer, pois sabemos o que ele fez com o Brasil, e é igualmente tentador desejar o mesmo a Bolsonaro, que traiu tudo o que prometeu, mas ceder a esse instinto destrutivo apenas adoece a mente de quem aponta o dedo.
Voltando ao tema focal, existe algo que setores importantes da esquerda dominaram culturalmente durante muito tempo. O poder de estabelecer antecipadamente quem precisava entrar numa discussão pedindo desculpas por existir.
O conservador precisava provar que não era fascista. O liberal precisava provar que não odiava pobre. O cristão precisava provar que não era fundamentalista.
Lembro-me bem de quando começaram as discussões idiotas sobre identitarismo e eu, ao questionar (visto que temos tantos problemas muito mais urgentes no Brasil), fui taxado de intolerante.
A morte de Charlie Kirk parece ter produzido, entre parte da direita, uma ruptura psicológica com esse jogo.
A resposta deixou de ser apenas "não sou aquilo que você está dizendo".
Passou a ser "você também será responsabilizado pelo que diz".
Foi aí que apareceram movimentos controversos de exposição e cobrança profissional de pessoas que celebravam o assassinato. Nos Estados Unidos, listas começaram a compilar publicações públicas e identificar os empregadores de seus autores. Empresas demitiram funcionários. A CNN relatou que dezenas de milhares de publicações foram reunidas por iniciativas dessa natureza.
No Brasil, Tallis Gomes, fundador da G4 Educação, levou essa lógica para dentro da própria empresa. Segundo a Folha, determinou que o RH analisasse as redes sociais de cerca de 400 funcionários e afirmou que qualquer colaborador encontrado comemorando o assassinato deveria ser demitido. Também incentivou uma campanha para denunciar publicações extremistas, dizendo que pessoas que celebrassem a morte de inocentes deveriam sofrer consequências.
Kim Kataguiri, Nikolas Ferreira e outros políticos também passaram a compartilhar publicações e cobrar empresas pelos comentários de seus funcionários. Raphael Lima, do Ideias Radicais, esteve entre as vozes da direita que amplificaram essa reação nas redes, numa lógica que alguns passaram a chamar informalmente de uma espécie de "Sleeping Giants da direita".
Existe uma diferença entre responsabilizar publicamente alguém que celebra assassinato e transformar qualquer opinião inconveniente em motivo para destruir sua vida profissional. Quando a esquerda era muito dominante, artistas precisavam ceder a essa "lacração" pra não terem suas vidas profissionais destruídas.
Durante anos, setores da direita reclamaram da cultura do cancelamento enquanto continuavam participando de um jogo no qual apenas um dos lados tinha medo de perder emprego, contrato, reputação ou espaço público.
Depois de Kirk, muita gente decidiu que não queria mais apenas denunciar a regra, mas jogar com ela.
O foda é quando um bando de adolescente quer virar juiz da moral alheia, montando tribunais na internet para linchar os outros. A própria comunidade de K-pop exemplifica ao ter fãs que se organizam em manada para cancelar artistas e fazer doxxing (vazamento criminoso de dados pessoais) de qualquer um que discorde deles.
Essa cultura do cancelamento é cruel e documentada, acontece em vários nichos.
Casos reais mostram que esses linchamentos virtuais não poupam ninguém, gerando ondas massivas de assédio psicológico por motivos banais. No fim das contas, essa suposta busca pela virtude é só um pretexto sádico para esses jovens exercerem poder sobre os outros, provando que esse moralismo de internet adoece tanto quem é atacado quanto quem aponta o dedo.
E talvez eu compreenda por que esse ódio encontrou terreno tão fértil na minha geração.
Nasci em 1999.
Passei boa parte da vida sob a gestão do PT. Lula assumiu a Presidência em 2003. O ciclo petista foi interrompido em 2016, seguido pelos governos Temer e Bolsonaro, e o PT voltou ao Planalto em 2023 e com sérios riscos de continuar. Renan Santos, claramente o melhor candidato, com as melhores propostas (tais como Lei de Responsabilidade Gerencial), infelizmente não pontua bem nas pesquisas e é esmagado pela turma do voto útil (que quer tirar Lula votando no Flávio, ao mesmo tempo, os que não querem Flávio então escolhem manter Lula).
Minha geração cresceu ouvindo falar de Mensalão. E não estamos falando apenas de uma fofoca partidária. O Supremo condenou integrantes de um esquema envolvendo pagamento e sustentação política no Congresso, num caso tão sério que anos depois o próprio STF precisou analisar alegações de que votos de parlamentares envolvidos poderiam ter contaminado a aprovação da Reforma da Previdência de 2003.
Depois veio o Petrolão e a Lava Jato. Só a Petrobras reconheceu bilhões em perdas relacionadas à corrupção, enquanto investigações revelavam um sistema de propinas envolvendo diretores, empreiteiras, políticos e partidos.
Em 2025 veio o escândalo dos descontos indevidos do INSS, com Polícia Federal e Controladoria-Geral da União investigando um esquema bilionário envolvendo aposentados e pensionistas. O presidente do INSS acabou demitido depois da operação.
E hoje temos o Banco Master.
Talvez seja o melhor exemplo de por que já não consigo nem encaixar todos os problemas brasileiros numa narrativa simples de PT contra direita.
O colapso do Master expôs uma teia que atravessa Brasília. Investigações alcançaram Banco Central, figuras próximas a diferentes governos, políticos de variados partidos e até ministros do Supremo. O Fundo Garantidor de Créditos absorveu dezenas de bilhões de reais em consequência do colapso. Há suspeitas graves de fraude, corrupção e influência política, ainda sob investigação. O caso parece muito mais brasileiro do que partidário, já que tanto a turminha da esquerda quanto a turminha da direita estão envolvidas.
Enquanto isso, facções criminosas penetram mercados legais, combustíveis, mineração, sistema financeiro e territórios inteiros. Em 2026, levantamentos apontavam dezenas de organizações criminosas atuando somente no Nordeste.
Talvez o dado mais deprimente seja quando comparamos o crescimento do Brasil com de outros países. Estamos falando de nações que saíram da miséria absoluta para o topo do mundo.
Há apenas 60 anos, Singapura era uma ilha pobre, expulsa da Malásia e sem recursos naturais básicos, nem mesmo água potável. A Coreia do Sul foi um país completamente devastado por uma guerra civil sangrenta na década de 1950, com a população passando fome. Ambos provaram que uma transformação institucional rápida e radical é perfeitamente possível através da educação de excelência e do choque de gestão.
Enquanto esses territórios arrasados se tornavam potências globais tecnologicamente avançadas, o Brasil passou o último meio século demonstrando o oposto. Mostrou como é perfeitamente possível possuir um território continental, recursos naturais abundantes, uma população enorme, agricultura altamente competitiva, indústrias e universidades... e, ainda assim, permanecer preso no tempo, discutindo exatamente os mesmos problemas fundamentais de cinquenta anos atrás.
Então apareceu Bolsonaro.
Para alguém cansado da hegemonia petista, ele parecia representar uma ruptura.
Também cresci vendo essa esperança morrer.
Bolsonaro foi eleito prometendo uma "nova política". Seu programa de governo falava explicitamente em um governo "sem toma lá, dá cá". O cara falava isso em vídeo.
Depois, aproximou-se do Centrão.
Em 2020 já admitia conversas com seus partidos, enquanto o governo distribuía cargos de segundo escalão para construir uma base parlamentar. Em 2021, Bolsonaro apoiou Arthur Lira e Rodrigo Pacheco para o comando das duas Casas do Congresso, consolidando sua aliança com o bloco que durante anos havia apresentado aos eleitores como símbolo da velha política.
O Bolsonarismo conseguiu capturar a insatisfação de milhões de brasileiros com um sistema político e convencer essas pessoas de que finalmente existiria uma oposição disposta a romper com ele, apenas para depois reproduzir grande parte das práticas que prometia dar fim.
O sujeito que se decepcionou com o PT recebeu Bolsonaro.
Depois se decepcionou com Bolsonaro e ouviu que sua única alternativa era voltar para o PT porque qualquer coisa diferente representaria ameaça à democracia.
É uma máquina perfeita de produzir cinismo.
Nasci num país cuja elite política passou décadas dizendo que tudo fazia em nome do povo, da pátria, da democracia e do futuro.
Minha geração viu corrupção, promessas quebradas, facções crescendo, educação estagnada e duas grandes forças políticas transformando o fracasso da outra no principal argumento para sua própria existência.
Depois de tanto cantar o hino nacional na escolinha, só passei a apelidar meu país de "Bostil".
E, um ano depois da morte de Charlie Kirk, talvez esse seja o aspecto que mais me incomoda.
A bala matou um homem.
A comemoração posterior matou mais um pedaço da disposição de conversar.
E quando um país inteiro começa a concluir que o outro lado não merece sequer ser ouvido, já não importa muito quem iniciou a guerra cultural.
Importa apenas quem sobrou para encerrá-la.
Para mim, a morte de Kirk marcou alguma coisa.
Talvez tenha sido o momento em que uma parcela das pessoas cansadas de ser chamada de fascista, nazista, extremista, retrógrada ou inimiga da democracia simplesmente desistiu de tentar convencer seus acusadores de que não era o diabo na terra.
Isso não produziu reconciliação, mas a consolidação do "nós contra eles."
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