A biologia pode explicar tudo?
Recentemente assisti a um vídeo do Nerdologia, narrado por Átila, sobre traição e sobre a tendência de seres humanos e outros animais a manter múltiplos parceiros.
O vídeo apresentou boas explicações biológicas. O problema apareceu no encerramento, que deixou no ar uma conclusão bastante conveniente: se a infidelidade possui raízes naturais, então talvez devamos aceitá-la com a serenidade de quem observa um documentário sobre acasalamento de babuínos.
Calma lá.
A biologia pode explicar por que determinado impulso existe. Ela não decide se devemos obedecer a ele. Sentir vontade não produz autorização moral. Caso contrário, bastaria chamar qualquer canalhice de “estratégia evolutiva” e seguir o dia com a consciência devidamente higienizada.
A monogamia é uma construção humana. Fidelidade, contratos e promessas também são. Isso não reduz seu valor. Civilização é justamente o esforço de criar regras capazes de disciplinar impulsos naturais que, abandonados à própria elegância, transformariam a vida social num zoológico com boletos.
O erro está em usar “é natural” como argumento conclusivo.
A agressividade também é natural. Nem por isso resolvemos divergências no trabalho mordendo o pescoço do colega mais fraco. A natureza explica a tendência; a razão julga a conduta.
Traição envolve mais do que reprodução e seleção sexual. Envolve promessa, confiança, lealdade e responsabilidade. O problema moral não está apenas em desejar outra pessoa. Está em quebrar um compromisso enquanto se continua desfrutando das vantagens dele.
O instinto pede variedade. O caráter responde pelo acordo firmado.
Reduzir relacionamentos à reprodução também empobrece a experiência humana. Amor, companheirismo e cuidado não são detalhes decorativos acrescentados por poetas desempregados. São dimensões reais da vida social, ainda que não caibam facilmente num gráfico sobre vantagem reprodutiva.
As Ciências Biológicas explicam como determinados impulsos surgiram. As Ciências Humanas e a filosofia investigam o significado desses impulsos, seus limites e as normas necessárias para convivermos sem transformar cada desejo numa ordem executiva.
Não existe conflito obrigatório entre essas áreas. O conflito surge quando alguém pede à biologia que forneça uma sentença moral, tarefa para a qual ela não foi contratada.
Átila pode explicar por que somos propensos à infidelidade. Excelente. Ponto para a biologia.
A pergunta decisiva vem depois: o que faremos com essa propensão? Dizer que “é natural” não encerra a discussão. Apenas informa que o problema veio de fábrica (cristãos analfabetos dizendo que tô criticando Deus vindo aí).
Nós, humanos, somos tão inteligentes que padrões tiveram que ser criados para manter uma sociedade "comportada".
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