Vamos divagar sobre a história do Brasil Colônia

Acabo de assistir a mais de quatro horas de A Última Cruzada, série documental do Brasil Paralelo. Como esperado, encontrei interpretações que desafiam a narrativa simplificada que muitas vezes recebemos na escola. Decidi registrar algumas observações para não depender exclusivamente da memória, essa funcionária pública do cérebro que vive perdendo documentos.

A série acerta ao rejeitar a imagem infantil de que os povos indígenas formavam uma comunidade pacífica, ecológica e perfeitamente harmoniosa até a chegada dos portugueses. Existiam centenas de povos, com línguas, costumes e interesses distintos. Alguns guerreavam entre si, e certos grupos praticavam antropofagia ritual. O “índio” genérico dos livros didáticos jamais existiu. Era uma categoria europeia que colocava sociedades muito diferentes dentro da mesma gaveta.

Leandro Narloch explora bastante esse ponto no Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. A provocação é válida: reconhecer a agência indígena significa abandonar a ideia de que os nativos eram figurantes inocentes esperando o próximo acontecimento europeu. Eles negociavam, guerreavam, formavam alianças e perseguiam objetivos próprios.

O problema aparece quando essa correção é usada para adoçar a colonização. Guerras entre povos indígenas não anulam a escravização, a tomada de territórios, as epidemias e o trabalho compulsório impostos durante a conquista portuguesa. Dizer que já havia violência antes dos europeus seria como inocentar um assaltante porque o bairro já era perigoso. A historiografia registra que a expansão colonial envolveu conflitos violentos, escravidão indígena e enorme desorganização demográfica e cultural.

Nos primeiros contatos, portugueses e indígenas realmente realizaram escambo. A extração do pau-brasil dependia do trabalho nativo, trocado por objetos europeus. Isso demonstra cooperação e interesse mútuo em determinados momentos, mas não estabelece uma amizade eterna entre civilizações. Quando os interesses mudaram, o agradável comércio de bugigangas evoluiu para guerra, escravidão e ocupação territorial. A reunião comercial perdeu um pouco o espírito colaborativo.

Também seria incorreto afirmar que os portugueses ensinaram os indígenas a domesticar cães. Cães já existiam entre populações americanas antes da chegada europeia. Espelhos e ferramentas metálicas eram novidades; o conceito de animal doméstico, não.

A colonização portuguesa também não pretendia apenas “preservar riquezas”. A Coroa desejava ocupar o território, afastar rivais europeus, explorar recursos e desenvolver atividades econômicas voltadas à exportação. O sistema de capitanias hereditárias transferia custos e responsabilidades para donatários, que deveriam povoar, defender e explorar economicamente as terras. Portugal não atravessou o Atlântico para abrir uma ONG de conservação do pau-brasil.

As alianças indígenas foram essenciais para o sucesso português. Os europeus eram poucos e dependiam de povos aliados para guerrear, produzir alimentos, explorar o território e enfrentar outros indígenas e concorrentes estrangeiros. Isso torna a história mais complexa, mas não necessariamente mais inocente. Cooperação, resistência e coerção podiam existir simultaneamente.

Os jesuítas, por sua vez, exerceram papel missionário, educacional e político. Defenderam muitos indígenas contra a escravização promovida por colonos, criaram escolas, aldeamentos, hospitais e boticas. Também buscaram converter os nativos, eliminar costumes considerados incompatíveis com o cristianismo e reorganizar profundamente suas comunidades. Houve proteção real, catequese sincera e imposição cultural. A história, com sua falta habitual de educação, recusou-se a fornecer apenas santos ou vilões.

Dizer apenas que os indígenas foram “educados” esconde metade do processo. Os aldeamentos jesuíticos ofereciam alguma proteção contra colonos interessados em mão de obra escravizada, mas também fixavam populações, alteravam costumes e submetiam a vida indígena a um projeto cristão e colonial. Educação acompanhada de conversão obrigatória merece algumas notas de rodapé.

Outro argumento problemático afirma que as terras não poderiam pertencer aos indígenas porque eles desconheciam a propriedade privada no modelo europeu. Povos diferentes podem organizar território, posse e uso coletivo de maneiras distintas. A ausência de escritura registrada em cartório português não significa ausência de vínculo territorial. É uma coincidência extraordinária que o invasor sempre considere inválido o sistema jurídico de quem já estava no lugar.

Também não convém dizer que os indígenas “não tinham moralidade”. Toda sociedade possui normas, deveres, proibições e critérios próprios de conduta. Podemos julgar moralmente práticas como a antropofagia sem concluir que seus praticantes viviam num vácuo ético, correndo pela floresta sem qualquer regra até um jesuíta aparecer com uma apostila.

A etimologia de “colônia” também não resolve a discussão. A palavra deriva do latim e se relaciona a cultivo e povoamento. Isso explica a origem do termo, não absolve automaticamente os processos históricos associados a ele. Etimologia informa o nascimento da palavra; não funciona como tribunal moral.

Quem nascia na América portuguesa podia ser súdito da Coroa, mas isso não significa que todos desfrutassem da mesma posição social e jurídica de alguém nascido em Lisboa. A sociedade colonial possuía hierarquias baseadas em origem, condição jurídica, riqueza, religião e cor. Todos portugueses, desde que ninguém perguntasse quais direitos vinham no pacote.

O episódio 2, “A Vila Rica”, apresenta interpretações interessantes e merece ser assistido. Ainda assim, tanto o Brasil Paralelo quanto Leandro Narloch devem ser tratados como pontos de partida para investigação, não como substitutos da historiografia acadêmica. O próprio Narloch descreve seu livro como uma provocação, e diversos historiadores criticam seu uso seletivo das pesquisas e sua tendência a trocar uma narrativa simplificada por outra, apenas mudando quem recebe a fantasia de mocinho.

A Última Cruzada tem mérito ao lembrar que a história brasileira é mais complexa do que a versão escolar de portugueses perversos contra indígenas angelicais. O cuidado necessário é não substituir essa caricatura pela imagem de uma colonização cordial, produtiva e quase beneficente.

Os indígenas não eram santos ecológicos. Os portugueses também não eram consultores de desenvolvimento enviados por Deus.

Finalmente encontramos alguma simetria histórica.

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