A importância de ter senso crítico

Há algum tempo, ouvi numa discussão a seguinte pérola: “Você problematiza demais as coisas.”

A conversa era sobre uma música que banalizava violência sexual. O argumento parecia simples: a letra não faz o estupro deixar de existir. Verdade. Também criticar corrupção não faz o dinheiro reaparecer por encanto. Ainda assim, ninguém sério conclui que devemos bater palmas e seguir o baile.

O problema está em confundir crítica com poder mágico. Criticar algo ruim não significa acreditar que uma frase indignada resolverá o mundo. Significa reconhecer que certas ideias, comportamentos e produtos culturais merecem reprovação.

Senso crítico é justamente essa capacidade de distinguir. Nem tudo é equivalente. Nem toda manifestação cultural é saudável. Nem toda opinião é respeitável. Nem todo conteúdo merece ser tratado como preferência inocente, ao lado de “gosto de cebola” ou “prefiro a cor azul”.

Quando uma obra banaliza violência, humilhação ou abuso, a discussão ultrapassa o gosto pessoal. O conteúdo pode não obrigar ninguém a agir, mas participa do ambiente cultural em que determinadas condutas passam a parecer engraçadas, normais ou pouco graves.

Uma música não cria sozinha um criminoso. Essa seria uma explicação preguiçosa. Mas ideias repetidas influenciam sensibilidades, reduzem repulsas e ajudam a formar aquilo que uma sociedade tolera. A cultura não controla seres humanos como marionetes, mas também não é papel de parede.

É nessa hora que aparece a frase defensiva: “Cada um tem sua opinião.”

Sim. E cada opinião pode ser analisada, contestada e, em alguns casos, jogada intelectualmente pela janela.

Pessoas merecem dignidade. Ideias merecem julgamento. Uma opinião fundada em ignorância, crueldade ou falsidade não ganha valor porque alguém a pronunciou com muita segurança e pouca reflexão.

Também não basta dizer “se não gosta, não ouça”. Esse conselho funciona quando o assunto é sabor de sorvete. Diante de um conteúdo que banaliza violência, ele vira uma forma preguiçosa de fugir da discussão. O fato de alguém poder evitar uma obra não elimina o direito de criticá-la nem os efeitos de sua circulação.

Ter senso crítico não é reclamar de tudo. Também não é transformar qualquer incômodo pessoal em crise civilizacional. É compreender o objeto, avaliar seus efeitos e explicar por que ele merece aprovação ou reprovação.

A indignação sem argumento vira chilique. A tolerância sem critério vira covardia com aparência de maturidade. Criticar o que é ruim não resolve tudo. Mas deixar de criticar ajuda bastante quem deseja que o ruim pareça normal.

Se você fica ofendidinho porque falei mal do seu funkeiro que exalta sexo, drogas e ostentação, acho que o seu telhado de vidro é mais vulnerável que o meu. Prefiro ser o chato do que o defensor do indefensável.

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