Me revoltei com a música mainstream
"Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão." - Artur da Távola.
A música sempre foi uma das minhas maiores paixões. Ela acompanha reflexão, lazer, tristeza, treino, festa e aqueles momentos em que precisamos olhar pela janela como se estivéssemos num videoclipe financiado pela própria melancolia.
Rap, MPB, rock nacional e hard rock podem alimentar a mente. Pop, música eletrônica e remixes podem movimentar o corpo. Os bons estilos fazem as duas coisas e ainda deixam alguma coisa para a alma, essa entidade que o mercado musical aparentemente considera um acessório descontinuado.
Em determinado período, percebi que quase havia parado de ouvir música. Isso me afetou mais do que eu esperava. Quando abandonamos por muito tempo o contato com a arte, corremos o risco de reduzir a vida a trabalho, obrigações e vídeos curtos assistidos no banheiro.
Esse afastamento veio, em parte, de uma frustração com a música popular que chegava até mim. Eu continuava ouvindo minhas bandas e artistas, mas já quase não conversava sobre música com ninguém. Enquanto isso, os grandes sucessos pareciam variar entre putaria industrializada, sofrimento amoroso produzido em escala e ruído apresentado como prova de superioridade intelectual.
Sim, serei o chato (como sempre).
Hoje virou moda declarar: “Sou eclético, escuto de tudo.” Em geral, “tudo” significa quarenta músicas quase idênticas, duas faixas de rock salvas por engano e uma canção de MPB usada para demonstrar profundidade em reuniões sociais.
Música também depende de contexto. Uma faixa criada para dançar pode cumprir muito bem sua função numa festa. Isso não a torna automaticamente profunda, genial ou artisticamente equivalente a qualquer outra obra. Uma colher é excelente para tomar sopa. Ainda assim, ninguém a inscreve numa competição de esgrima.
O problema começa quando a preferência pessoal é usada para impedir qualquer julgamento de qualidade. “Eu gosto” responde apenas a uma pergunta biográfica. Informa algo sobre você. Não encerra a discussão sobre a obra.
É possível avaliar uma música pela composição, interpretação, produção, originalidade, coerência interna, força expressiva e adequação ao propósito. Esses critérios não funcionam como uma calculadora infalível, mas também não desaparecem porque alguém balançou a bunda com entusiasmo.
Isso vale para todos os gêneros. Existe funk criativo e funk preguiçoso. Existe rap inteligente e rap que transforma criminalidade em fantasia promocional. Existe sertanejo bem composto e sertanejo fabricado para acompanhar cerveja, recaída e mensagem enviada à ex às duas da manhã. Existe heavy metal sofisticado e heavy metal que parece uma oficina mecânica sendo exorcizada.
O gênero não absolve a obra. Também não a condena previamente (embora sejamos francos, não teve um único funk ou sertanejo decente que explodiu nos últimos anos).
Minha crítica principal recai sobre músicas que banalizam violência, humilhação e objetificação enquanto se escondem atrás da batida. Dizer “gosto do ritmo” não neutraliza a letra. Ritmo e conteúdo pertencem à mesma faixa, ainda que o ouvinte tente contratar uma separação judicial entre eles.
O caso de “Só Surubinha de Leve” mostrou isso de maneira quase didática. A música alcançou o topo da lista viral brasileira do Spotify e chegou à nona posição no ranking viral mundial antes de ser retirada de plataformas após acusações de fazer apologia à violência sexual. Portanto, não era apenas uma canção esquecida num canto obscuro da internet. Era um produto cultural amplamente consumido e eu tive o desprazer de ouvir esse lixo musical na rodinha da escola.
A resposta “se não gosta, não ouça” continua sendo intelectualmente miserável. Posso evitar uma música e ainda criticá-la. Posso evitar um filme e discutir o que ele representa. A existência do botão “pular faixa” ainda não revogou a crítica cultural. O pior, todas as vezes que eu ouvi esse chorume foi CONTRA MINHA VONTADE. Vocês funkeiros não conheceram o fone de ouvido ainda.
Também existe o extremo oposto: a pessoa percebe a mediocridade do mercado popular e vira um missionário do metal. Passa a vestir preto, desprezar qualquer refrão acessível e tratar quinze minutos de bateria dupla como sinal clínico de genialidade. Fugiu do efeito manada e fundou outra manada, agora com camiseta de caveira. Tive um amigo muito próximo e íntimo que infelizmente se comportou assim, e demorou pra mudar o comportamento.
Há quem ouça um artista por sua história de superação. Isso é compreensível. Uma trajetória pessoal pode tornar uma obra mais comovente, mas não altera magicamente sua qualidade musical. Biografia não é instrumento de percussão. Michael Jackson tem uma biografia foda, mas eu curtia as músicas quando era criancinha sem nem saber o rosto do cara.
Foi nesse contexto que assisti a um vídeo de Spartakus sobre “música de qualidade”. Ele distinguia valor técnico de valor artístico e usava “Envolvimento”, de MC Loma, como exemplo. Escrevi outro artigo falando com mais detalhe sobre esse tema. Ouso dizer que o fenômeno MC Loma, de alguma forma, autoriza concluir que toda pessoa que ouve esse tipo de chorume musical tem pelo menos algum tipo de dificuldade de abstração. O gosto revela alguma coisa sobre hábitos, ambientes e sensibilidades e pequenas partes da inteligência.
Podemos julgar obras com dureza sem reduzir o ouvinte inteiro à sua playlist. Sejamos justos. Mas cara... é sério. Não consigo esperar muito intelectualmente de um sujeito que ouça esse tipo de chorume.
Música serve à mente, ao corpo e à alma. Nem toda faixa precisa satisfazer os três aspectos. Uma música dançante pode ter valor justamente por fazer o corpo se mover; uma canção simples pode carregar uma memória afetiva legítima. O mínimo exigível é que cumpra bem alguma função sem pedir imunidade crítica.
Continuo concordando com a máxima popularizada por Jorge Vercillo: “Gosto não se discute, lamenta-se.” A frase é ótima como provocação, embora seja incompleta. Gosto se discute, sim. Só não se resolve aos gritos, nem com a carteirada intelectual.
No fim, meu incômodo não é que existam músicas ruins. Elas sempre existiram e continuarão existindo, assim como reuniões desnecessárias e pessoas que batem palmas quando o avião pousa (nessa última parte, é autocrítica).
O incômodo está em perdermos a coragem de chamá-las de ruins. Doa a quem doer, brother.
Às vezes dói admitir que seu K-pop não é tão bom assim. Talvez você tenha sido só condicionado a amar os integrantes da banda e tenha tomado isso como parte da sua identidade. A alienação acontece sem você perceber e, às vezes, ser alienado te faz um anestesiado feliz.
Só cuidado para não deixar tudo virar gosto pessoal, expressão legítima, fenômeno cultural e experiência exótica. A crítica foi expulsa da festa para não constranger o refrão.A música merece coisa melhor. Nossos ouvidos também.
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