Limites do conhecimento humano
Acabo de assistir a quase três horas de uma aula do professor Olavo de Carvalho sobre vários temas, entre eles epistemologia, consciência, confissão e os limites do conhecimento humano. Este texto não pretende resolver os problemas tratados na aula, muito menos fazer justiça a todo o seu conteúdo. Funciona mais como um bloco de notas comentado, escrito enquanto as ideias ainda estavam frescas.
E, considerando a quantidade de assuntos abordados em três horas, “resumir” talvez seja uma palavra otimista. É quase como tentar guardar uma biblioteca dentro de uma sacola de supermercado e depois reclamar quando o fundo rasga.
Uma das ideias centrais da aula era a necessidade de compreender a realidade com sinceridade, confiabilidade e respeito pelos fatos, evitando substituí-la por construções abstratas que se tornam mais importantes do que aquilo que deveriam explicar.
Em determinado momento, aparece a seguinte observação:
“Existe o narrador que é o autor da confissão, que é o homem que está se confessando, e acima dele existe o observador onisciente. Não tem nenhum ‘eu transcendental’ funcionando como intermediário, não há um ‘eu’ acima do ‘eu’; o único ‘eu’ que há acima do ‘eu’ é o ‘Eu’ de Deus mesmo.”
A passagem pretende distinguir o indivíduo concreto, histórico, biográfico e situado no tempo, de uma concepção abstrata de consciência pura.
Quando pensamos sobre nós mesmos, pode surgir a impressão de que existe dentro de nós um observador neutro, permanente e completamente lúcido, capaz de contemplar nossa vida de fora. Porém, esse observador também possui história, interesses, limitações e lapsos de memória. A consciência que temos de nossa própria consciência não é total nem constante.
Outro trecho da aula desenvolve esse ponto:
“Eu digo: ‘Olha! Bela porcaria a consciência que o indivíduo tem da sua consciência.’ Primeiro porque ela não é permanente, ela se dissolve, ela se apaga cinco minutos depois; segundo, quando o indivíduo acredita que ela é uma coisa permanente é porque ele está confundindo o seu ‘eu’ verdadeiro, o seu ‘eu’ histórico — que é o ‘eu’ da narrativa — com a definição abstrata do ‘eu’ consciente, o ‘ego filosófico’, isto é, o ‘eu’ do qual se fala nos tratados de teoria do conhecimento. Este ‘eu’ como puro conhecedor, de fato, não existe, ele é apenas um papel que o ‘eu’ histórico, concreto e biográfico do sujeito representa por momentos. E se tal indivíduo acreditar que este ‘eu’ observador tem uma existência por si mesmo, ele está se enganando.”
A formulação é agressiva. O professor não desperdiçava uma oportunidade de chamar alguma coisa de porcaria. Mas ele mentiu? O indivíduo que observa a própria consciência não deixa, por isso, de ser o mesmo indivíduo confuso, cansado, parcial e situado que está tentando observar. Lembro quando eu estava no ensino médio, todo engrandecido por aprender a frase de Descartes, "Penso, logo existo." Nunca imaginei que a epistemologia é bem mais complexa que isso.
Nossa introspecção pode revelar muito, mas também pode criar ilusões. Uma pessoa pode acreditar que se conhece profundamente porque repetiu durante anos a mesma narrativa sobre si. Mas não significa que conceitos abstratos sobre consciência sejam inúteis. Descartes e Kant, por exemplo, tentaram responder a problemas legítimos sobre certeza, experiência e unidade do conhecimento. É possível considerar algumas de suas soluções insuficientes ou excessivamente abstratas, mas seria injusto tratá-los apenas como homens que decidiram fugir da realidade por esporte.
Uma crítica séria precisa distinguir o conceito real de sua caricatura. É fácil derrotar um filósofo depois de reconstruí-lo como um espantalho. O problema é que espantalhos raramente escrevem obras difíceis, e Kant certamente cometeu muitos pecados contra a paciência humana, mas simplicidade excessiva não foi um deles.
Outro ponto da aula trata da expectativa de que a humanidade caminhe em direção a um conhecimento universal, completo e perfeito:
“Essa visão é totalmente alienada, porque a limitação do conhecimento humano é inerente à limitação da vida humana. De que serviria um conhecimento infinito para um ser que tem uma duração finita? Não faz sentido. Outra coisa: quando as pessoas apostam no progresso do conhecimento, no progresso da ciência, e descrevem a estrutura da evolução cultural como se fosse uma caminhada em direção ao conhecimento universal e perfeito, elas esquecem o seguinte: elas vão morrer. Então, quem é esse ‘nós’ que vai ter o conhecimento universal e perfeito? A humanidade não conhece nada, só quem conhece são os indivíduos humanos.”
A crítica contém uma verdade importante: “a humanidade” não é uma consciência única. Apenas indivíduos concretos conhecem, e cada indivíduo possui tempo, atenção e capacidade limitados.
Nenhuma pessoa poderá dominar todo o conhecimento produzido por nossa espécie. Mesmo dentro de uma única disciplina, a especialização pode alcançar um nível em que pesquisadores competentes trabalham durante décadas em assuntos incompreensíveis para quase todos os demais.
Entretanto, isso não significa que o conhecimento coletivo seja uma ilusão completa. Sociedades preservam informações em livros, instituições, laboratórios, universidades, arquivos e tradições técnicas. Nenhum indivíduo sabe construir sozinho um computador moderno desde a extração dos minerais até a programação final, mas uma rede de indivíduos e instituições consegue fazê-lo.
A humanidade não conhece como um único sujeito, mas consegue armazenar e transmitir conhecimentos que ultrapassam qualquer mente individual. O problema começa quando essa capacidade coletiva é confundida com uma marcha inevitável em direção à onisciência.
O progresso do conhecimento existe, mas não é linear, garantido nem completo. Teorias são corrigidas, registros se perdem, civilizações entram em decadência e instituições capazes de preservar saber também podem destruí-lo. A biblioteca humana cresce, mas alguém sempre perde um volume, traduz outro de maneira duvidosa e deixa café sobre o manuscrito mais importante.
Reconhecer a finitude não exige abandonar a busca por compreensão. Seria contraditório assistir a três horas de epistemologia para concluir que tentar compreender é um erro.
A conclusão mais razoável é outra:
Devemos buscar compreender a realidade sem imaginar que podemos esgotá-la.
Nosso conhecimento pode ser verdadeiro sem ser total. Uma pessoa pode conhecer algo de maneira limitada, aproximada e revisável. A alternativa à onisciência não é ignorância absoluta.
A aula também relaciona essa limitação ao método de confissão, entendido de maneira mais ampla como disposição para reconhecer a realidade concreta da própria vida:
“A confissão é falar a realidade, é aceitar a condição humana na sua plenitude, em que tudo é precioso, inclusive os detalhes mais irrisórios — os pecados, misérias etc. Tudo isso é precioso, porque é realidade.”
A palavra “precioso” não significa que pecado, miséria ou sofrimento sejam bons. Significa que, por pertencerem à realidade, não podem ser apagados apenas porque ferem a imagem que gostaríamos de possuir.
O indivíduo começa a compreender-se quando abandona a necessidade de editar a própria história como quem administra uma conta de rede social: mantém as fotos bonitas, remove os fracassos e publica uma legenda sobre autenticidade.
A realidade inclui aquilo que nos orgulha e aquilo que preferiríamos esconder. Uma filosofia que nunca alcança a própria biografia corre o risco de transformar-se em decoração mental.
Na aula, aparece também a história de uma aluna que desejava ser reconhecida por sua inteligência, e não apenas por sua beleza:
“Uma vez, uma aluna minha, que era muito bonita, chegou e disse: ‘Olha, estou cansada de ser admirada pela minha beleza, eu quero ser admirada pela minha inteligência, pelos meus conhecimentos etc. etc.’. Eu disse: ‘Minha filha, isto é vaidade sua. Porque todas estas porcarias que você pensa é você [mesma] que está inventando, ao passo que a sua beleza foi feita por Deus. Se eles admiram você pela sua beleza, estão admirando uma obra divina. Agora, você quer concorrer com Deus, falar que o que Deus fez não presta, “o bom é o que eu inventei”. Então você pare com isso. Quando você olhar no espelho de manhã, peça a Deus que lhe dê uma personalidade pelo menos digna desta beleza. É ao contrário: a beleza que tem que servir de guia, porque ela é um dado da realidade, ela não é um pensamento seu.’”
A anedota contém uma boa crítica à ingratidão pelos dons recebidos. Contudo, também precisa ser interpretada com cuidado. Olavo é mestre em cometer alguns abusos. Por ser uma autoridade filosófica, é até difícil refutá-lo. Tanto é que, de fato, não consigo.
Essa disposição para começar pela realidade concreta aproxima-se do princípio atribuído a Santo Agostinho de “cavar onde se está”. Em vez de fugir para enigmas abstratos, o indivíduo começa por aquilo que efetivamente vive, percebe e faz. Cavar onde se está não significa permanecer intelectualmente preso à experiência imediata. Significa reconhecer que toda investigação começa em algum lugar. Não pensamos a partir de ponto nenhum. Pensamos a partir de um corpo, uma história, uma linguagem e um conjunto de circunstâncias.
O texto da aula aplica essa preocupação ao debate entre determinismo e livre-arbítrio:
“Então, o determinismo e o livre-arbítrio, das duas, uma: se você tem de escolher um deles é porque você os está tomando como absolutos, ou seja, é o livre-arbítrio total ou o determinismo total.”
Em seguida, argumenta que liberdade absoluta e determinação absoluta não parecem corresponder à condição humana. Se alguém fosse absolutamente livre, nada poderia limitá-lo. Se fosse absolutamente determinado, até sua reflexão sobre alternativas estaria previamente fixada.
Essa crítica aos extremos é útil. Somos influenciados por corpo, cultura, história, hábitos, circunstâncias e outras pessoas, mas também experimentamos algum grau de escolha, deliberação e responsabilidade.
Entretanto, mostrar que liberdade absoluta e determinismo absoluto produzem dificuldades não encerra todo o debate. Existem posições intermediárias e definições mais sofisticadas. A pergunta não é necessariamente uma “pegadinha” inventada para fugir da realidade. Ela aparece justamente porque nossa experiência apresenta simultaneamente condicionamento e decisão.
Talvez o problema não seja formular grandes questões filosóficas, mas permitir que elas se tornem jogos verbais desconectados da vida. Uma discussão sobre liberdade deveria ajudar-nos a compreender responsabilidade, hábito, culpa, coerção e mudança. Quando o debate passa a existir apenas para alimentar o prazer de manipular conceitos, a filosofia começa a praticar cosplay de profundidade.
Outro tema abordado foi a tentativa de preservar crianças ou adultos de qualquer contato com conteúdos ruins, vulgaridade ou corrupção:
“Ninguém pode dar o que não tem. Nós não podemos nos retirar para o plano da suprema beatitude do entendimento, então não podemos — em hipótese alguma! — evitar a contaminação no besteirol contemporâneo, na decadência contemporânea, na sujeira contemporânea.”
Há uma boa intuição aqui. Não podemos viver em uma redoma de pureza. O mundo contém mentira, vulgaridade, manipulação e maldade. Impedir qualquer contato com isso pode tornar alguém menos preparado para reconhecê-lo. Me faz lembrar das princesinhas da Disney.
Uma criança que nunca encontrou propaganda enganosa não se torna automaticamente imune à manipulação. Pode tornar-se apenas a vítima perfeita no primeiro dia em que descobrir a internet.
Isso não significa que toda exposição seja educativa ou que pais não devam estabelecer limites. Há diferença entre ensinar alguém a enfrentar o mal e empurrá-lo desnecessariamente para dentro dele.
Proteção deve ser gradual e formativa. O objetivo não é fingir que o mal não existe, mas desenvolver critérios para reconhecê-lo, resistência para não se deixar dominar e humildade para admitir quando fomos afetados.
Nesse contexto, a aula cita Mateus 5:39:
“Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso.”
A passagem não deve ser entendida como obrigação de aceitar passivamente abuso, violência ou injustiça. O ensinamento cristão contra a vingança não elimina o direito de estabelecer limites, buscar proteção ou impedir que alguém continue prejudicando outras pessoas. Não retribuir o mal com o mal é diferente de oferecer ao agressor acesso ilimitado à própria vida. Perdoar é uma coisa. Esquecer é outra.
O trecho final compara a vida moral à necessidade de tomar banho:
“Diariamente você se suja e toma banho. Na esfera psíquica, é a mesma coisa. Diariamente, fazemos um monte de porcarias, contaminamo-nos com o mal do mundo e daí vamos para dentro de nós mesmos, repensamos tudo aquilo e confessamos para Deus. Pronto! Ficamos limpos! A sinceridade é a base de tudo isso.”
Reconhecer os próprios erros é essencial, mas confissão sem mudança pode tornar-se apenas um ritual de alívio. Não basta admitir que ferimos alguém e depois repetir o comportamento com uma consistência quase litúrgica. A sinceridade precisa conduzir a correção, reparação e transformação de hábitos. Caso contrário, a pessoa não está limpando a sujeira; está apenas escrevendo um excelente relatório sobre ela.
Um dos motivos de eu estar afastado da Igreja é isso. Não consigo enxergar como um "confessei e pronto, tudo certo."
A principal lição que retiro dessa aula é que a limitação do conhecimento humano não deve ser tratada como humilhação, mas como condição de toda investigação.
Não vemos a realidade de fora. Não possuímos uma perspectiva absoluta. Nossas interpretações podem ser verdadeiras, mas permanecem parciais. Precisamos de experiência, lógica, testemunho, tradição, crítica e correção mútua.
A humildade intelectual não consiste em desistir de todas as perguntas difíceis com um simples “não dá para saber, então pronto”. Algumas questões não possuem solução definitiva, mas ainda podem ser investigadas melhor ou pior.
Há uma diferença entre reconhecer limites e usar os limites como desculpa para a preguiça.
Admitir os limites do conhecimento humano não nos torna menos inteligentes. Torna-nos mais cautelosos, mais abertos à correção e menos propensos a transformar teorias provisórias em verdades absolutas. Nem a doutrina da Igreja Católica está totalmente pronta. Até hoje não existe consenso sobre o que acontece com crianças que morreram no ventre.
O objetivo não é compreender a realidade inteira. Tentar "entender a realidade inteira" vai fazer com que você perceba que não vai entender. Existe um limite intransponível, e esse limite não é algo a ser vencido, mas a ser aceito, como dito pelo próprio Olavo. Conhecer toda a verdade simplesmente não é possível (ainda). Talvez no Juízo Final sim, mas não hoje.
A frase de Sócrates "Só sei que nada sei" nunca fez tão sentido, né?
Admitir os limites do conhecimento humano não o torna burro, mas o torna humilde. E a grande sacada para evitar se torturar com grandes problemas filosóficos é justamente esse: admitir que não sabe (e que não tem como saber) e pronto. Simples.
Admitir os limites do conhecimento humano não o torna burro, mas o torna humilde. E a grande sacada para evitar se torturar com grandes problemas filosóficos é justamente esse: admitir que não sabe (e que não tem como saber) e pronto. Simples.
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