Fanatismo e sociedade idólatra

Há tempos escrevo sobre a quantidade de ídolos que nossa sociedade fabrica. Jogadores, cantores, políticos, influenciadores, apresentadores: sempre existe alguém disposto a entregar tempo, dinheiro e dignidade em troca de dois segundos de atenção de uma pessoa que nem sabe que ele existe.

Admirar alguém é normal. Transformar essa pessoa em centro emocional da própria vida já é outro esporte.

Sem querer ser machista, vejo um padrão em meninas endeusando seus artistinhas abaitolados. Há fãs que conhecem toda a discografia, os relacionamentos, as brigas, as roupas, os tweets e provavelmente o tipo sanguíneo do artista. Sabem tudo sobre a vida de um desconhecido e quase nada sobre a própria.

O problema não está no artista. Ele produz, vende e lucra. Trabalho concluído. A criatura que gasta as economias, discute com estranhos e trata qualquer crítica como blasfêmia é que decidiu transformar entretenimento em religião particular.

Esse mecanismo também aparece na política. O sujeito deixa de analisar propostas e passa a defender personalidade. Qualquer erro do líder recebe uma justificativa, qualquer crítica vira perseguição e qualquer absurdo pode ser perdoado, desde que tenha sido cometido pelo mascote ideológico correto.

Fanatismo é a terceirização do pensamento.

A pessoa entrega o próprio juízo a alguém mais famoso, mais carismático ou com uma equipe de marketing melhor. Depois chama isso de lealdade, consciência política ou amor. O nome bonito ajuda a esconder a coleira.

Isso não significa que todo apego seja ruim. Há pessoas que atravessam períodos difíceis graças a uma música, um livro, um exemplo de vida ou uma figura religiosa. Esse vínculo pode ser legítimo e até transformador. O problema começa quando o carinho exige submissão intelectual.

Dentro de casa falta afeto, mas na internet sobra dedicação para defender celebridade. Falta amor próprio, mas sobra energia para implorar curtida, resposta ou reconhecimento. É uma distribuição de prioridades digna de estudo clínico.

Na religião, a distinção precisa ser ainda mais séria. A adoração a Deus parte da fé em uma realidade transcendente, enquanto a veneração dos santos reconhece exemplos de santidade, não pequenas divindades colecionáveis. Quando alguém troca a fé por culto à personalidade, pastores, padres, líderes e pregadores passam a receber uma autoridade que jamais deveriam ter.

A devoção sadia conduz à virtude. O fanatismo conduz à obediência cega, ao medo e à defesa automática de qualquer canalha que saiba citar Deus com voz de pastor de igreja evangélica.

A ignorância alimenta esse processo porque impede o indivíduo de julgar aquilo que admira. Sem reflexão, o ídolo sempre tem razão. Quando erra, foi mal interpretado. Quando mente, tinha um propósito maior. Quando enriquece explorando seguidores, recebeu uma bênção especialmente rentável.

Uma sociedade fanática é fácil de manipular. Basta descobrir qual símbolo desperta sua emoção e apertar o botão correto. Pode ser um cantor, um partido, uma marca ou um líder religioso.

Admirar alguém é reconhecer qualidades. Idolatrar é suspender o julgamento.

Ame, respeite, aprenda e agradeça. Depois preserve a própria cabeça. Ela foi feita para pensar, não para funcionar como estacionamento de celebridade.

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