"Não gosto de política."

Quando observamos a realidade brasileira por tempo suficiente, acabamos nos lembrando por que desconfiamos tanto de mudanças revolucionárias, soluções milagrosas e discursos sobre a “bondade natural do povo”.

O Brasil não sofre apenas com crises econômicas, corrupção ou incompetência administrativa. Existe um problema anterior: uma crise moral e intelectual tão profunda que qualquer tentativa de transformação parece exigir não apenas novas instituições, mas quase a fabricação de um novo cidadão.

E aí está o inconveniente.

Leis podem ser alteradas. Governos podem cair. Constituições podem ser reescritas. Mas não existe decreto capaz de obrigar uma população a pensar.

Uma das maiores razões para o pessimismo em relação ao Brasil é a resistência quase militante ao conhecimento. Não se trata de incapacidade intelectual. O brasileiro não é incapaz de aprender; frequentemente apenas considera o aprendizado uma inconveniência desnecessária.

Estudar pode revelar que algumas de nossas opiniões favoritas são apenas preconceitos com boa autoestima. É muito mais confortável continuar ignorante e chamar isso de “opinião pessoal”.

A preguiça intelectual aparece cedo. Está na criança que cresce sem qualquer disciplina, cercada por adultos que tratam educação como responsabilidade exclusiva da escola. Aparece também nos idosos que decretam a própria morte intelectual antes da morte biológica. Agem como se envelhecer concedesse o direito de abandonar a curiosidade (deixo aqui a crítica aos meus pais, que praticamente desistiram). “Na minha idade não preciso mais aprender”, dizem, como se a ignorância acumulada durante décadas tivesse finalmente se transformado em sabedoria.

E aparece, talvez de maneira ainda mais irritante, nos jovens que não estudaram história, economia, filosofia, religião ou política, mas falam com a segurança de quem recebeu a verdade diretamente do universo.

Não leram um livro sobre o assunto. Não conhecem os argumentos contrários. Não sabem definir os termos que utilizam. No máximo falam grosso pra defender o que acreditam.

Há também aqueles que escolheram uma estratégia ainda mais cômoda: a omissão (esses eu odeio pra valer). Não querem discutir. Não querem tomar posição, nem pesquisar.

Apresentam essa covardia intelectual como se fosse equilíbrio, maturidade ou superioridade moral.

“Eu não gosto de política”, dizem com orgulho, como se política fosse uma série de televisão que pudesse ser simplesmente retirada da programação.

A pessoa pode não gostar de política. A política, contudo, não demonstrará a mesma indiferença por ela. Os impostos chegarão. As leis serão aplicadas. Os preços mudarão. Os direitos serão ampliados ou reduzidos. As instituições funcionarão ou fracassarão. Tudo isso acontecerá independentemente de o cidadão considerar o assunto “chato”.

É especialmente revoltante observar pessoas que expulsam qualquer discussão política do círculo social e tratam quem aborda o tema como “o chato do rolê”. Evidentemente, o ideal de amizade contemporânea parece exigir que ninguém mencione qualquer assunto capaz de produzir reflexão, desacordo ou desconforto. Mas beleza, aceito a crítica. Se eu falasse mais de futebol, talvez eu fosse mais aproximável.

Vejo que o assunto que pega é celebridades, festas, relacionamentos alheios e banalidades digitais. Audácia minha querer mencionar decisões que determinam a vida de milhões. Baita quebra de clima, né?

Nada simboliza melhor a decadência intelectual de uma sociedade do que considerar a política excessivamente séria para uma conversa, enquanto se dedica entusiasmo quase religioso a assuntos que serão esquecidos na semana seguinte.

Isso não significa que todos devam transformar encontros sociais em sessões parlamentares improvisadas. O dever mínimo de um cidadão não é falar constantemente de política. É possuir alguma compreensão da sociedade em que vive, estudar antes de afirmar e reconhecer que a omissão também produz consequências.

Recusar-se a escolher não elimina a escolha. Apenas entrega a decisão aos outros.

É possível permanecer em silêncio durante todas as discussões políticas e continuar sendo afetado por cada resultado. É possível desprezar eleições, ideologias e instituições, mas não escapar das decisões tomadas por quem não demonstrou o mesmo desprezo.

O apolítico imagina estar acima da disputa. Na realidade, costuma estar apenas abaixo do nível necessário para compreendê-la.

O problema brasileiro não é a ausência de opiniões. Opiniões existem em abundância. São produzidas em escala industrial, geralmente sem matéria-prima intelectual.

O problema é a ausência de estudo, responsabilidade e disposição para revisar crenças. Queremos os direitos da cidadania sem o trabalho da cidadania. O voto é obrigatório no Brasil. Sendo assim, o que custa dar uma pesquisada antes de meter o 13 ou 00?

É tipo votar sem conhecer, condenar sem investigar e opinar sem pensar.

Depois, quando as consequências aparecem, procuramos culpados como se não tivéssemos participado do desastre, seja pela ação ou omissão.

Há uma frase frequentemente atribuída a Platão que resume bem o problema:
“Aqueles que não gostam de política serão governados por aqueles que gostam.”

Enfim, vai lá assistir seu Big Brother. Deixa política pra gente grande de verdade.

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