Eu existo? Você existe?
Há algum tempo comecei a ter dúvidas de epistemologia, provavelmente porque viver tranquilamente parecia simples demais. Como validamos aquilo que chamamos de conhecimento? O que significa dizer que algo existe? Nossos sentidos percebem a realidade ou apenas entregam uma versão editada, censurada e adaptada ao limitado equipamento humano?
No ensino médio, recebemos Descartes quase como quem recebe uma senha pronta: cogito, ergo sum. Penso, logo existo. Excelente. Ao menos uma coisa no universo foi confirmada: existe alguém pensando, ainda que esteja pensando merda.
O problema começa logo depois. O cogito garante a existência do sujeito pensante, mas não resolve sozinho a existência do mundo externo. Minha mente existe. Ótimo. A cadeira diante de mim talvez exista; talvez seja uma alucinação muito comprometida com a decoração.
Descartes tenta sair desse buraco demonstrando a existência de Deus e usando a veracidade divina como garantia de que nossas percepções claras e distintas não são uma fraude cósmica. Costuma-se misturar isso ao argumento ontológico, embora sejam momentos diferentes da argumentação cartesiana. Deus entra em cena para impedir que a realidade inteira seja uma pegadinha metafísica de péssimo gosto.
A escola normalmente encerra o assunto por aí, porque apresentar mais de uma resposta poderia gerar o perigoso hábito de pensar. Pra mim que estudei em escola pública, seria revolucionário.
Agostinho de Hipona já havia formulado o si fallor, sum: se me engano, existo. Afinal, até para estar errado é necessário existir. A semelhança com Descartes é evidente, mas chamar Agostinho de racionalista no mesmo sentido moderno seria forçar uma etiqueta histórica alguns séculos antes de sua fabricação.
Como sou autodidata, ler sozinho não resolveu tudo. Procurei respostas com diferentes pessoas, entre elas o Alexandre Porto do Youtube. Ouvi posições variadas, algumas esclarecedoras, outras criativas no sentido em que acidentes ferroviários também podem ser criativos. A resposta que realmente mudou o rumo da investigação veio de Haslley Queiroz, que me conduziu a Kant.
Na Crítica da Razão Pura, Kant examina como razão e sensibilidade participam do conhecimento. A experiência fornece o material; nossas faculdades cognitivas organizam esse material segundo formas e categorias próprias. Assim, conhecemos os fenômenos, isto é, as coisas como aparecem sob as condições da experiência humana. A coisa em si permanece fora do nosso acesso direto.
O idealismo transcendental, portanto, sustenta que o objeto conhecido não chega à mente completamente nu, puro e intocado, como se o intelecto fosse uma câmera celestial sem lente. Tudo o que experimentamos já aparece submetido às estruturas pelas quais conseguimos experimentar qualquer coisa.
Voltemos à cadeira, para evitar transformar o texto num depósito de exemplos. Eu não conheço a cadeira como coisa em si. Conheço a cadeira tal como ela aparece no espaço, no tempo e sob as categorias do entendimento. Isso não significa necessariamente que a cadeira seja uma invenção arbitrária da minha mente. Significa que meu acesso a ela possui condições. Parece modesto, até percebermos que Kant passou centenas de páginas explicando essa modéstia.
Encontrei também uma possível aproximação com Tomás de Aquino, para quem a verdade consiste na adequação do intelecto à coisa. A semelhança me parece estar na relação entre mente e realidade, embora Kant e Tomás entendam essa relação de maneiras bastante diferentes. Posso estar exagerando a proximidade. Haslley provavelmente terá o prazer de corrigir meu entusiasmo.
Depois surgiu uma dificuldade mais incômoda. Ao ler Kant, estou conhecendo a ideia de Kant ou apenas uma representação dessa ideia construída pelas minhas próprias faculdades cognitivas? Caso toda experiência seja mediada, a própria filosofia kantiana chega até mim mediada. Kant entrega o livro e minha mente recebe a versão compatível com o sistema operacional humano.
No momento, ainda me inclino à posição de que as coisas se apresentam como realmente são, embora nossa compreensão possa ser imperfeita. Também considero válido o ponto de partida segundo o qual existimos porque pensamos e aceito a garantia divina contra um engano absoluto da razão e dos sentidos.
O fato de Agostinho e Descartes privilegiarem a razão não torna seus argumentos falsos. Torna apenas insuficiente tratá-los como resposta automática para qualquer problema epistemológico. Filosofia não é prova de múltipla escolha, apesar dos esforços ocasionais do sistema educacional.
Para São Tomás, o intelecto não fabrica a realidade conhecida. Ele abstrai a forma inteligível das coisas sensíveis. Quando conhece corretamente, há adequação entre intelecto e coisa: adaequatio intellectus et rei. Não significa que conhecemos tudo sobre o objeto, mas que podemos conhecer algo dele como ele realmente é. A cadeira continua sendo cadeira mesmo quando ninguém está oferecendo a ela a gentileza transcendental de percebê-la.
Comparada a Kant, a visão tomista pode ser considerada superior por ser mais coerente com o próprio ato de conhecer. O mundo existe independentemente da mente, os sentidos fornecem contato real com as coisas e o intelecto abstrai delas conteúdos inteligíveis.
Os teólogos católicos conseguem ser mais filósofos do que muitos filósofos dedicados. Escolhi bem meu santo de devoção.
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