Toda escolha fecha uma porta
Vivemos numa época abundante.
Mais produtos, mais carreiras, mais parceiros possíveis, mais entretenimento, mais estilos de vida, mais caminhos. Em teoria, isso produz indivíduos mais livres. Também produz indivíduos mais ansiosos, indecisos e desconfiados da própria escolha.
Esse é o núcleo do chamado Paradoxo da Escolha. A liberdade aumenta quando deixamos de ser obrigados a aceitar uma única possibilidade, mas existe um ponto em que a abundância deixa de libertar e começa a paralisar. Quando há duas ou três alternativas, escolhemos. Quando há cinquenta, começamos a administrar arrependimentos imaginários antes mesmo de tomar qualquer decisão.
O problema não está apenas na dificuldade de comparar opções. Está naquilo que acontece depois da escolha. Quanto maior o número de alternativas rejeitadas, maior a quantidade de vidas possíveis que imaginamos.
O emprego que talvez pagasse mais. A pessoa que talvez fosse mais compatível. A cidade que talvez fosse melhor. O produto que talvez estivesse mais barato em outro site. Tudo vira um "e se?" até a dúvida se transforma em culpa.
A ironia é evidente. O sujeito moderno possui uma variedade de escolhas que seus antepassados sequer poderiam imaginar, mas parece cada vez menos capaz de descansar dentro daquilo que escolheu.
Isso também altera nossa relação com a responsabilidade. Quando quase nada podia ser escolhido, era fácil atribuir parte da própria condição às circunstâncias. Quando tudo parece estar disponível, cada fracasso começa a parecer exclusivamente pessoal. Se existem centenas de caminhos e você continua insatisfeito, a conclusão mais cruel parece inevitável: você escolheu errado.
Escolher uma coisa significa abandonar outras. Uma cultura que trata toda renúncia como perda inevitavelmente transforma decisões normais em pequenas crises existenciais.
O curioso é que esse problema parece bem moderno, mas suas raízes filosóficas são antigas.
Cada vez mais me surpreende perceber quantas inquietações da sociedade atual já aparecem, de alguma maneira, em Sócrates e Platão.
Atenas não tinha Netflix, Amazon ou Facebook. Mesmo assim, os filósofos gregos já refletiam sobre o que acontece quando os desejos deixam de ser governados pela razão e começam a governar o indivíduo. Na tese de Platão, a desordem da alma surge justamente quando os apetites deixam de ocupar seu devido lugar. O homem já não pergunta se aquilo que deseja é realmente bom. Passa simplesmente a concluir que deve ser bom porque deseja.
Dois milênios depois, nossa economia aprendeu a explorar essa confusão com eficiência industrial. As mercadorias deixaram de ser apenas objetos úteis e passaram a carregar status, identidade e significado social. Isso foi observado por Karl Marx, que acertou na crítica e errou na solução proposta.
Fato é que toda decisão fecha portas.
Uma vida na qual nenhuma porta é fechada parece cheia de possibilidades, mas corre o risco de se tornar uma vida na qual nenhuma porta é realmente atravessada.
Vale a pena aceitar a ideia de que fiquei ‘de fora’ e buscar paz no caminho que escolhi. Quando olho para minha própria vida, sei que poderia ter feito escolhas diferentes. Algumas talvez fossem melhores. Outras provavelmente seriam desastrosas. Nunca saberei. E NÃO TEM COMO SABER.
Só sei que sou grato pelo que vivi. Pelas felicidades, pelas pessoas, pelas experiências e até pelos erros que acabaram produzindo alguma coisa útil.
Também sei que não conseguirei guardar tudo na memória. Alguns momentos desaparecerão, alguns rostos ficarão menos nítidos e anos inteiros acabarão reduzidos a pequenas cenas.
Ainda assim, não preciso lembrar de tudo para saber que fui transformado por aquilo que vivi.
Cheguei até aqui carregando as consequências dessas experiências. Ao meu ver, já é uma evidência razoável de que vivi minimamente bem.
Talvez a ansiedade não seja exatamente “o mal do século”, mas eu diria que certamente merece uma posição confortável no top 10. É uma batalha em que não se entra pra ganhar. Para cada vida que escolhemos, a imaginação é capaz de fabricar inúmeras vidas que poderíamos ter vivido, e sua mente é brilhante em te sabotar nisso. É impossível lutar contra o infinito.
Encontrei vitória em admitir derrota.
Aceite.
Seja grato.
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