O sabor da derrota
Há momentos da vida em que somos derrotados.
Existem vários tipos de conceituar derrota. No fim, mesmo continuando de pé, trabalhando, pagando as contas, tentando, podemos perceber que o poder de escolha diminuiu. É perceber que se tem menos força do que o adversário. Nada acabou por completo, porém quase todas as alternativas parecem piores do que aquilo que já existe. É uma derrota sem encerramento.
Talvez seja esse tipo de derrota que eu esteja começando a conhecer.
Durante anos construí uma carreira em Recursos Humanos no Brasil. Foram mais de cinco anos de carreira, inclusive dentro de uma multinacional. Trabalhei com processos de RH, sistemas, admissões, desligamentos, recrutamento, relações com funcionários, performance e rotinas corporativas pesadíssimas. Estudei, acumulei experiência e, com o tempo, comecei naturalmente a enxergar aquilo como parte de minha identidade profissional.
Então vim para Malta e hoje trabalho como Administration Clerk.
Não há nada de indigno nesse trabalho. O problema não é o cargo em si; é a distância entre aquilo que construí e aquilo que consigo converter em oportunidade no mercado atual. É saber que existe dentro de mim uma trajetória profissional muito maior do que aquilo que meu cargo atual expressa e, ao mesmo tempo, perceber que essa trajetória aparentemente perdeu parte de seu peso depois que atravessei uma fronteira. E o pior é perceber que, quanto mais o tempo passa, pior.
Já enviei centenas de candidaturas para vagas na minha área de formação. Centenas literalmente, não como figura de linguagem. De todo esse volume, recebi apenas três convites para entrevistas. E existe algo particularmente frustrante nisso porque, quando consigo chegar à entrevista, geralmente consigo causar uma boa impressão. Consigo explicar minha experiência, responder perguntas muito bem e mostrar que sei do que estou falando. Já cheguei perto de ser contratado.
O problema é conseguir chegar àquela mesa.
Na maioria das vezes, meu currículo desaparece antes que exista qualquer conversa.
Sou TCN. Isso significa burocracia, autorização, risco administrativo e menor flexibilidade para o empregador. Minha experiência continua existindo, mas compete com candidatos que talvez tenham menos experiência e, ainda assim, sejam muito mais simples de contratar.
Posso saber racionalmente que meu valor profissional não desapareceu, mas o mercado possui uma capacidade de fazer alguém questionar aquilo que sabe sobre si mesmo.
Foi aí que comecei a perceber uma distinção dolorosa: existe diferença entre ter valor e possuir poder de barganha.
Eu posso ser competente e, mesmo assim, ter pouco poder.
Posso ter cinco anos de experiência e, ainda assim, precisar aceitar um cargo inferior porque meu visto depende de trabalho.
Posso ter elementos pra comprovar que mereço salário maior e, ainda assim, saber que pressionar demais meu empregador pode ser uma decisão arriscada e com consequências catastróficas caso dê errado.
É fácil repetir frases como “conheça seu valor”, “não aceite menos do que merece” ou “se imponha”. Essas frases funcionam muito bem quando o preço da imposição é baixo.
Para alguém numa situação migratória como a minha, uma negociação profissional não envolve apenas salário. Se eu perder meu emprego sem ter outro pronto, posso comprometer minha residência em Malta, entrar numa corrida contra o tempo para encontrar outro empregador e, no limite, ter de abandonar o país.
A relação de forças é desigual mesmo, e não tem o que fazer.
Às vezes eu gostaria de negociar mais. Gostaria de dizer que meu histórico profissional justifica outra posição, outro salário, outra responsabilidade. Gostaria de poder colocar uma proposta sobre a mesa e simplesmente ir embora se ela fosse recusada. Mas eu não possuo essa liberdade.
Sobrou só trabalhar calado. Sobrou continuar tentando. Continuar insistindo. Gastando horas aplicando pra vagas, e aquela esperança de esperar alguma coisa surgir. No fim, sobrou engolir.
A mesma sensação aparece dentro de casa.
Meu landlord já voltou atrás nas condições de aluguel que discutimos. Já teve a cara de pau de apresentar termos diferentes daqueles que combinamos anteriormente. É um cara ruim de cumprir palavra.
Há momentos em que minha primeira reação é simples: confrontar. Mostrar as mensagens, os combinados, e demonstrar que precisamos de coerência nos acordos que fazemos.
E, em tese, posso fazer isso. Também posso decidir ir embora.
Mas então entra novamente aquilo que dizem os discursos sobre “se impor” e o custo por trás dessa decisão.
Meu aluguel continua sendo economicamente vantajoso. Se transformar cada quebra de acordo em guerra aberta, o landlord pode simplesmente decidir não facilitar mais nada, pode tentar propor condições ainda piores no futuro, pode tornar nossa relação ainda mais desgastante ou simplesmente não querer continuar a relação quando tiver oportunidade. Se eu sair, terei de procurar outro imóvel num mercado caro, possivelmente pagar comissão de agente, desembolsar novo depósito, reorganizar documentos imigratórios, alterar endereço e ainda lidar com possíveis consequências administrativas relacionadas à residência.
Eu até tenho liberdade para brigar. Só não tenho liberdade para ignorar as consequências da briga.
Esse talvez seja um dos aprendizados mais desagradáveis da vida adulta: uma pessoa pode estar certa e ainda assim não possuir força suficiente para transformar essa razão em resultado positivo.
A mesma sensação apareceu agora na política.
Eu acreditava genuinamente que veríamos o começo de uma reorganização. Imaginava que uma terceira via conseguiria furar a polarização. Estava realmente crente de que propostas, reformas e alguma tentativa de construir um discurso diferente finalmente encontrariam espaço.
Apoiei o Partido Missão em 2026. No entanto, o partido terminou sua estreia elegendo apenas Kim Kataguiri para deputado federal e Rafael Minato para deputado estadual. Flávio Bolsonaro, por sua vez, estourou, superando a performance do próprio pai e contrariando minhas previsões e as previsões de muita gente que considero inteligente.
Não houve debate. O que houve foi voto útil, personalismo, medo da esquerda de um lado e medo da direita de outro.
A derrota política possui exatamente a mesma crueldade das outras: posso acreditar profundamente numa ideia e, ainda assim, descobrir que simplesmente não existem pessoas suficientes dispostas a transformá-la em poder.
Uma minoria pode ter excelentes argumentos e continuar sendo uma minoria.
Em democracia, quantidade também é realidade política. Se um campo possui dezenas ou centenas de parlamentares enquanto outro possui dois representantes, não existe frase inspiradora capaz de apagar essa assimetria.
Foi pensando nisso que me lembrei de dois episódios históricos que parecem contraditórios, mas talvez ajudem justamente porque mostram que coragem não possui uma única forma.
Em abril de 1945, nos últimos dias da campanha italiana da Segunda Guerra Mundial, três soldados da Força Expedicionária Brasileira estavam retornando de uma patrulha na região de Montese quando encontraram forças alemãs. Seus nomes eram Geraldo Baêta da Cruz, Geraldo Rodrigues de Souza e Arlindo Lúcio da Silva. Segundo o memorial dedicado aos três e registrado pelo Imperial War Museums, foram intimados a se render. Recusaram. Continuaram lutando até que sua munição acabou. Então fixaram as baionetas em seus fuzis e avançaram contra o inimigo. Os três morreram. A tradição em torno do episódio registra inclusive que os alemães reconheceram sua coragem após a morte.
Eles perderam aquele combate.
Não existe motivo para distorcer a palavra.
Morreram.
A vitória ali não foi militar.
Mas existe uma circunstância em que continuar lutando possui sentido mesmo quando a derrota é quase certa: quando aquilo que está em jogo vale mais do que a própria sobrevivência e quando não existe mais uma retirada que preserve algo essencial. Para aqueles três soldados, naquele momento, a escolha teria sido se render ou lutar.
Eles escolheram lutar.
É justamente por isso que quase oitenta anos depois ainda existem monumentos com seus nomes.
Mas a lição não pode ser transformada na caricatura de que toda pessoa deve avançar contra qualquer inimigo apenas porque recuar parece pouco heroico.
A história de Leônidas deixa isso ainda mais evidente.
Em 480 a.C., o Império Persa de Xerxes avançava sobre a Grécia com uma força imensamente superior àquela que as cidades gregas conseguiam concentrar naquele momento. O passo das Termópilas possuía importância estratégica precisamente porque sua geografia estreita reduzia a vantagem numérica persa. Leônidas, rei de Esparta, comandava não apenas os famosos trezentos espartanos, mas um contingente grego maior que incluía guerreiros de outras cidades.
Durante alguns dias, os gregos conseguiram bloquear o avanço persa.
Então veio a traição de Efialtes, que revelou aos persas uma passagem capaz de contornar a posição defensiva grega.
Nesse instante, a batalha estava essencialmente perdida.
Leônidas compreendeu isso.
Grande parte das forças gregas foi dispensada. Ele permaneceu com os trezentos espartanos e com outros combatentes que ficaram para trás, entre eles téspios que também lutaram até o fim.
Eles sabiam o que aconteceria.
Não estavam atacando porque acreditavam ingenuamente que conseguiriam destruir o exército persa. Permaneceram porque sua resistência compraria tempo, atrasaria o avanço inimigo e permitiria que outras forças gregas se reorganizassem.
Termópilas foi uma derrota.
Os persas atravessaram o passo.
Leônidas morreu.
Seus homens morreram.
A posição foi perdida.
A Grécia não ganhou a guerra naquele dia.
Mas existe uma razão pela qual dois milênios e meio depois o episódio continua sendo lembrado: eles compreenderam que algumas derrotas possuem valor porque aquilo que se preserva através delas é maior do que aquilo que se perde.
Isso é muito diferente de morrer simplesmente porque alguém tem vergonha de recuar.
E talvez seja essa a distinção que mais importa para mim hoje.
Ser rejeitado por empresas não é uma batalha em que minha honra exige que eu ataque até acabar a munição.
Às vezes nosso ego transforma problemas comuns em batalhas épicas porque é emocionalmente mais confortável imaginar que estamos demonstrando coragem do que admitir algo muito mais simples e muito mais humilhante: não temos força suficiente naquele momento.
E reconhecer isso dói.
Existe uma cultura quase religiosa em torno da persistência. “Nunca desista.” “Lute pelos seus direitos.” “Quem quer consegue.” “Continue tentando até vencer.”
Essas frases contêm alguma verdade, mas também podem produzir estupidez.
Às vezes continuar atacando não é perseverança. É apenas continuar perdendo.
Existe uma diferença enorme entre covardia e recuo estratégico.
O covarde abandona algo que deveria defender porque teme o preço.
Quem recua estrategicamente compreende que uma batalha específica possui custo maior do que qualquer benefício possível e decide preservar forças para outra oportunidade.
Existe dignidade em saber esperar.
Essa conclusão é amarga porque ameaça uma crença muito confortável: a de que sempre há alguma coisa a fazer.
Talvez agir seja pior. É possível recusar-se a reconhecer que perdeu e, por orgulho, transformar uma derrota limitada numa destruição completa.
A vida exige discernimento suficiente para saber quando estamos diante de Termópilas e quando estamos simplesmente diante de uma negociação ruim.
Eu não quero ser covarde.
Mas também não quero cometer a estupidez de destruir aquilo que ainda tenho apenas porque meu orgulho exige uma demonstração de força.
Se hoje não tenho poder suficiente para vencer determinadas batalhas, então essa é a realidade.
E talvez esse seja, afinal, o verdadeiro sabor da derrota: não apenas perder aquilo que queríamos, mas descobrir que em certos momentos não existe nada inteligente a fazer além de aceitar o resultado, preservar o que ainda temos e continuar vivendo.
É amargo.
Profundamente amargo.
Mas é melhor sentir o gosto da derrota do que embriagar-se com a fantasia de uma coragem que, no fim, apenas faria tudo ficar pior.
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