Um debate é só show?

Coloque um intelectual e um ativista performático no mesmo debate.

O primeiro quer descobrir qual tese é verdadeira. O segundo quer vencer. O intelectual distingue conceitos, admite objeções sérias e aceita corrigir parte do próprio argumento. O ativista responde rápido, escolhe a frase mais humilhante e ganha no corte.

St Tomás de Aquino representa o melhor do primeiro tipo. Sua quaestio disputata começava pelas objeções. Antes de responder, ele apresentava as razões contrárias à própria conclusão, muitas vezes com mais força e clareza do que seus adversários seriam capazes de apresentar. Costumo dizer que St Tomás apresentava argumentos ateus até melhores do que os próprios ateuzinhos de internet.

A estrutura de uma quaestio disputata (questão disputada) organiza-se em cinco partes principais: a formulação da questão, a apresentação das objeções, o argumento central (sed contra), a resposta do mestre (responsio) e a refutação das objeções iniciais.

Isso exige uma virtude intelectual hoje quase exótica: não ter medo de deixar o argumento contrário parecer convincente.

St Tomás não tratava o debate como uma competição de reflexos. A verdade precisava ser escavada. Era necessário definir os termos, separar sentidos diferentes e responder precisamente ao que havia sido levantado.

Só que a internet, meu amigo... a internet não perdoa. Esse método é pouco recompensado nos cortes de Instagram.

Imagine St Tomás em um podcast. O apresentador pergunta se Deus existe. St Tomás começa apresentando os argumentos favorecendo a inexistência de Deus (pra só depois refutar). Imagine quantos cortes maliciosos poderiam surgir de St Tomás brilhantemente argumentando contra Deus?

Mesmo que ele chegue à resposta, o público mais emburrecido pode não acompanhar o raciocínio.

Então entra Arthur Schopenhauer.

Schopenhauer compreendia que o debate não é feito apenas de argumentos. Há vaidade, reputação, raiva, distração e plateia. Seus estratagemas mostram como alguém pode vencer uma discussão sem demonstrar a própria tese.

Mudar discretamente de assunto, exagerar a posição rival, provocar irritação, explorar uma formulação infeliz, falar com segurança sobre algo que não foi provado.

É difícil não admirar a inteligência do catálogo. Schopenhauer conhecia bem o animal humano.

O erro começa quando o manual de golpes passa a ser confundido com filosofia. St Tomás pergunta qual argumento sobrevive às objeções. Arthur pergunta qual golpe derruba o adversário. Um trabalha na estrutura da tese, com o interesse de cavar a verdade, tal como o nome do blog. O outro trabalha na percepção do público, no "show", com ou sem dialética.

Ambos são úteis, mas para fins diferentes.

St Tomás ensina como procurar a verdade. Schopenhauer ensina como alguém pode vencer um debate sem ter razão.

O debate contemporâneo preferiu o segundo método. Não temos falta de pessoas com opinião. Temos excesso de porta-vozes, militantes, comentaristas e especialistas instantâneos cuja principal habilidade é transformar frases de efeito em provas da própria tese.

Muitas vezes, um debatedor pode estar com a razão e ser inabilidoso. Por isso, enfraqueceu uma tese verdadeira.

A pessoa que diz “preciso pensar” parece fraca. A que responde na lata parece mais preparada e estudada. Aquela que admite uma objeção parece derrotada. A que nunca concede nada parece firme.

No fim, o vencedor lógico pode sair parecendo inseguro, enquanto o vencedor performático sai com quinze cortes, três frases de efeito e uma multidão repetindo que ele destruiu o adversário, MOEU ele nos debates e portanto, está com a razão.

St Tomás terminaria o debate depois de definir os termos, responder às objeções e mostrar por que sua conclusão permanece de pé. Arthur mudaria o enquadramento, faria uma analogia ofensiva e arrancaria risadas do povão.

Nos comentários, alguém escreveria:
“Esse Tomás até que é inteligente, mas o Arthur amassou.”
"Slc, Arthur atropelou! Passou o trator!"

Pois fica a lição. Antes de debater em público, saiba se seu debatedor tem interesse em chegar a alguma verdade ou em apenas performar bem em cima de você.

Mesmo na internet, onde o debate pode ser escrito, você pode tomar um belíssimo "kkkkk tá brincando? sério que você acha isso?" de resposta e ainda vai ter quem diga que você foi amassado.

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