O que eu acho do feminismo

Tenho dificuldade para me relacionar com pessoas que enxergam homens e mulheres como blocos políticos permanentemente adversários. Relacionamento já exige paciência sem que alguém transforme o café da manhã numa reunião extraordinária do tribunal dos sexos.

Reconheço a importância histórica do sufragismo, o voto feminino conquistado depois de muita luta, a educação, a autonomia civil e a proteção das mulheres. Minha crítica se dirige ao feminismo militante atual, especialmente à sua versão de internet, em que igualdade significa frequentemente exigir um padrão para os homens e outro, muito mais confortável, para as mulheres.

No Brasil, o Censo de 2022 registrou cerca de 98,5 milhões de homens. No fim daquele mesmo ano, a população prisional masculina era de aproximadamente 617 mil pessoas, menos de 1% do total de homens do país. Isso não prova que os outros 99% sejam santos canonizados, mas mostra como é intelectualmente preguiçoso tratar “os homens” como uma entidade coletiva culpada pelos crimes cometidos por uma minoria. Violência contra mulheres é real, grave e deve ser combatida com seriedade, porém combater criminosos não exige transformar metade da humanidade em ré por associação.

Parte do discurso feminista popular abandona essa distinção e converte problemas concretos em uma espécie de pecado original masculino: alguns homens cometem atrocidades, logo todos devem entrar na sala já pedindo desculpas por existir.

A discussão então deixa de buscar justiça e vira um placar olímpico de sofrimento, no qual cada grupo tenta provar que sua dor vale mais e qualquer dificuldade masculina é recebida com um elegante “mas as mulheres sofrem mais”. Só que sofrimento não é campeonato, madames.

Reconhecer injustiças contra mulheres não obriga ninguém a vilanizar homens comuns, que trabalham, sustentam famílias, protegem pessoas e tentam viver decentemente sem terem solicitado participação nesse tribunal coletivo. Reclamam dos homens, mas vivem num mundo construído por homens.

As feministas e sua toxicidade se complementam. Elas são bem unidas. Se ajudam bastante. Fica até mais escancarado o duplo padrão. Um exemplo resume boa parte do problema: piadas sobre corpos.

Quando um homem ridiculariza o peso de uma mulher, a atitude é corretamente condenada. Quando uma mulher ridiculariza a altura de um homem, tem menos impacto social.

A régua moral muda de acordo com quem está segurando a fita métrica. Não pretendo liberar uma olimpíada de humilhação corporal. Considero ambas as atitudes desprezíveis.

O problema está justamente em condenar uma delas como violência simbólica e tratar a outra como entretenimento de qualidade duvidosa. Depois o homem incomodado é acusado de ter o “ego frágil”. Curioso.

A autoestima feminina deve receber acolhimento, campanhas e iluminação adequada. A masculina aparentemente deve resistir a pedradas para provar que é adulta.

Homens também impõem padrões absurdos às mulheres. Isso existe, é vulgar e merece crítica. O que me irrita é a fantasia de que exigências superficiais funcionam em apenas uma direção.

Quando um homem prefere determinado tipo físico, surgem análises sobre pornografia, objetificação e construção social. Quando uma mulher exige altura, corpo, iniciativa, estabilidade financeira e o corte de cabelo oficialmente aprovado pelo Instagram, alguém invoca a biologia e pronto.

Também existe uma assimetria evidente nas relações digitais. Muitas mulheres recebem mais abordagens e, portanto, possuem maior poder de seleção e barganha no mercado sexual.

Quem recebe atenção abundante pode responder com “kk”, desaparecer e reaparecer três semanas depois normalmente e continuar sendo bem engajado em responder "hum" e outras abreviações. Quem precisa iniciar a conversa (maioria dos casos, o homem) precisa aprender a desenvolver assunto, desenvolver tolerância à rejeição e uma discreta disciplina em mandar o pau sossegar.

A liberdade de escolha é legítima. Manter pessoas como reservas emocionais, enquanto se posa de defensora da responsabilidade afetiva é foda. A coerência entrou no chat, viu o ambiente e saiu silenciosamente.

O mesmo vale para homens que exigem uma modelo enquanto oferecem personalidade do Luva de Pedreiro. Minha crítica não pretende substituir uma guerra contra mulheres por uma confraternização de machos ressentidos. Ressentimento masculino continua sendo ressentimento, mesmo quando usa “hipergamia” a cada três frases.

Mas o fato é que as feministas simplesmente não buscam igualdade. Os homens também possuem problemas, e a maioria das feministas são do tipo "vocês que lutem para resolver o de vocês", e fica por isso mesmo.

O debate público fala com razão sobre violência doméstica, assédio e discriminação sofridos por mulheres. Esses problemas são reais e graves. Usá-los como justificativa para ignorar dificuldades masculinas é uma escolha política, não uma conclusão lógica.

Homens também enfrentam solidão, suicídio, fracasso escolar, violência física e enorme dificuldade para procurar ajuda. A resposta cultural costuma ser bastante sofisticada: “vire homem”.

Pronto. Séculos de sofrimento psicológico solucionados por duas palavras e uma fotografia do Rambo.

Reconhecer problemas masculinos não diminui os femininos. Sofrimento não é campeonato, caralho. Infelizmente, boa parte da militância parece trabalhar com um orçamento limitado de compaixão: qualquer atenção oferecida aos homens seria desviada da conta das mulheres como um soma-zero.

A Constituição brasileira estabelece igualdade de direitos e obrigações entre homens e mulheres. Existem leis e políticas diferenciadas porque os sexos enfrentam condições sociais e riscos diferentes. Algumas diferenças podem ser justificáveis; outras podem e devem ser discutidas.

Já sabemos que mulheres se aposentam mais cedo. Um marido não reclamaria da sua esposa parando de trabalhar antes dele, mas disso a feminista do suvaco cabeludo não fala.

Outro ponto irritante aparece quando “lugar de fala” é utilizado para dispensar argumentos de acordo com o sexo de quem fala.

Experiências pessoais oferecem conhecimento relevante. Uma mulher pode compreender dimensões da vida feminina que um homem não vivenciou. Daí não decorre que todo argumento feminino esteja correto ou que homens devam assistir ao debate em modo silencioso.

Caso apenas integrantes de um grupo pudessem examiná-lo, nenhuma feminista poderia explicar masculinidade, comportamento masculino ou aquilo que os homens “precisam desconstruir”. Seria necessário aplicar o glorioso princípio “sem rola, sem opinião”.

Seria absurdo. Precisamente por isso, a versão inversa também é.

Argumentos devem ser avaliados por sua coerência, evidência e capacidade explicativa. Genitália ainda não funciona como certificado automático de competência filosófica. Talvez numa próxima atualização. Reclama com Deus.

Mas, na real, a minha maior objeção ao feminismo militante está no ambiente de hostilidade que ele frequentemente ajuda a produzir.

Homens passam a enxergar mulheres como aproveitadoras em potencial (mecanismo de defesa). Mulheres passam a enxergar homens como agressores em potencial (mecanismo de defesa). Depois ambos entram num aplicativo de relacionamento, publicam que procuram “conexão verdadeira” e tratam cada conversa como interrogatório policial.

DJ Guuga pode fornecer a trilha sonora. A civilização, contudo, não deveria buscar nele sua antropologia filosófica.

Esse clima destrói confiança. Um caso de abuso masculino vira prova sobre todos os homens. Uma mulher manipuladora vira prova sobre todas as mulheres. Cada lado escolhe seus piores exemplares e os apresenta como embaixadores oficiais do sexo oposto.

Excelente estratégia para quem deseja permanecer solteiro e moralmente indignado. Eu me afundei nessa mentalidade por um tempo até perceber o chorume que é ficar se remoendo por uma baranga que te deu trabalho, quando já tive excelentes experiências com mulheres de altíssimo nível que infelizmente tiveram sua glória turvada porque eu senti a dor forte do dano causado pela baranga.

Mulheres feministas podem ser inteligentes, honestas, afetuosas e coerentes. Mulheres não feministas também podem ser insuportáveis. O rótulo não substitui a análise da pessoa (aqui temos que falar o óbvio). Ainda assim, militância intensa costuma indicar incompatibilidade comigo. E aqui sou eu falando de mim, não posso responder pelos outros homens. Talvez uns gostem de ser dominados por mulheres raivosas. Não é muito meu estilo.

O individualismo que defendo começa pela pessoa concreta. Sexo importa em determinados aspectos biológicos e sociais, mas não esgota caráter, inteligência ou valor moral. Pessoas devem ser julgadas por suas escolhas, não absolvidas ou condenadas por pertencerem a uma categoria.

Meu problema com o feminismo contemporâneo surge quando ele abandona esse princípio, aplica responsabilidades coletivas aos homens e oferece absolvições coletivas às mulheres.

Igualdade com cláusula de exceção continua sendo desigualdade. No fim, não menti. A única igualdade que o feminismo busca é deixar as mulheres igualmente prisioneiras desse espectro.

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