Liberdade, felicidade e certeza da salvação

Uma dúvida comum entre católicos é esta: posso ter certeza de que serei salvo?

A resposta católica exige mais cuidado do que um simples “sim” ou “não”, inconveniência típica de uma religião que acumulou dois mil anos de teologia e se recusa a caber num panfleto.

O católico não pode afirmar com certeza infalível que morrerá em amizade com Deus e alcançará a salvação, salvo por uma revelação especial. Afinal, ainda possui liberdade, pode pecar gravemente e pode abandonar a fé. A vida cristã não vem com garantia vitalícia impressa no verso da certidão de batismo.

Isso não significa viver em pânico, examinando a alma a cada quinze minutos como quem consulta o saldo bancário.

A postura católica é a esperança. Confiamos nas promessas de Cristo, na misericórdia de Deus e na graça do Espírito Santo, sem presumir que nossa liberdade foi aposentada. A esperança cristã se apoia na fidelidade de Deus, não numa autoconfiança espiritual produzida por entusiasmo religioso.

Mas como saber se estou no caminho certo?

Há sinais razoáveis de uma vida orientada para Deus: rejeitar o pecado mortal, receber os sacramentos, rezar, praticar a caridade e desejar sinceramente a conversão.

São sinais, não laudos emitidos pelo cartório celestial.

O Catecismo ensina que a graça pertence à ordem sobrenatural e não pode ser diretamente observada como temperatura corporal. Não devemos concluir, apenas por sentimentos agradáveis ou por nossas próprias obras, que estamos justificados e salvos. Podemos, contudo, reconhecer frutos da graça em nossa vida e crescer numa confiança humilde.

Santa Joana d’Arc respondeu de maneira exemplar quando lhe perguntaram se sabia estar na graça de Deus: caso não estivesse, que Deus a colocasse nela; caso estivesse, que Deus a conservasse. Muito melhor do que declarar a própria canonização antecipadamente e começar a distribuir autógrafos.

Mas e o estado de graça?

Estar em estado de graça significa não ter consciência de pecado mortal não absolvido e viver na amizade com Deus. A confissão sacramental, recebida com arrependimento verdadeiro, restaura essa amizade quando ela foi perdida.

Isso oferece uma segurança espiritual séria, mas não uma licença para decretar: “Missão cumprida, agora posso estacionar a alma.”

A perseverança continua necessária. A graça pode ser rejeitada, a fé precisa ser alimentada e a caridade deve permanecer viva. São Paulo adverte quem pensa estar firme para que cuide de não cair, e Cristo fala da perseverança até o fim.

A fotografia pode estar ótima. Ainda falta terminar a viagem.

Agora, pra saber por que a Igreja rejeita a presunção, basta perceber que se trata de dois erros opostos.

O desespero afirma que nem Deus consegue perdoar determinado pecado. A presunção considera o perdão garantido sem conversão, perseverança ou arrependimento. Um desconfia da misericórdia divina; o outro tenta transformá-la em serviço automático de atendimento ao cliente.

A doutrina católica preserva simultaneamente a graça de Deus e a liberdade humana. Deus oferece os meios da salvação, sustenta o fiel e deseja conduzi-lo até o fim. O ser humano continua capaz de cooperar com essa graça ou resistir a ela.

Agora, onde entra a felicidade?

A felicidade definitiva do ser humano está na comunhão com Deus. A virtude da esperança orienta esse desejo para a vida eterna, mas também sustenta o cristão no presente, inclusive durante o sofrimento. A esperança não elimina a cruz; impede que a cruz tenha a última palavra.

A liberdade cristã também não consiste em fazer qualquer coisa que surja na cabeça. Isso seria apenas impulsividade com propaganda. Somos verdadeiramente livres quando conseguimos escolher o bem, amar a Deus e ordenar nossos desejos ao fim para o qual fomos criados.

O pecado promete autonomia e entrega escravidão. A virtude parece exigente, mas devolve o governo da própria vida.

Podemos esperar a salvação? Sim.

O Catecismo ensina que os filhos da Igreja esperam justamente a graça da perseverança final e a recompensa prometida por Deus às obras realizadas com sua graça e em comunhão com Cristo. A esperança é firme porque Deus é fiel; permanece humilde porque ainda estamos a caminho.

Portanto, o católico não vive dizendo: “Certamente estou condenado”, nem anunciando: “Meu lugar no céu já está reservado.”

Ele confia, reza, recebe os sacramentos, combate o pecado e pede a graça de perseverar.

Menos desespero. Mais esperança. Relaxa a ansiedade aí.

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