A Crise de 1929 e a mão invisível pedindo socorro

Recentemente, assisti a alguns vídeos do Rafael Lima sobre a Crise de 1929. Entre os questionamentos apresentados, um permaneceu martelando na minha cabeça:

O que levou tantos empresários, investidores e bancos a tomarem decisões parecidas quase ao mesmo tempo, contribuindo para uma falência em cadeia?

A pergunta é válida. A Crise de 1929 não teve uma causa única, ao que parece. Ela resultou de uma combinação particularmente desastrosa de especulação financeira, expansão de crédito, endividamento, fragilidade bancária, desigualdade de renda, queda da demanda, deflação, funcionamento do padrão-ouro e erros graves de política monetária. A quebra da Bolsa foi uma parte importante da história, mas não explica sozinha a profundidade e a duração da Grande Depressão.

Quando estudamos o assunto por materiais mais simplificados, encontramos respostas como: “A crise é natural do capitalismo.” ou “Tudo aconteceu por causa da superprodução.”

São explicações confortáveis porque cabem numa prova escolar e dispensam o pequeno inconveniente de pensar. O problema é que a economia real raramente respeita a elegância dos resumos didáticos.

A chamada superprodução não significa que a humanidade de 1929 finalmente tivesse comprado tudo de que precisava e anunciado: “Obrigado, senhores empresários, já temos comida, roupas e automóveis suficientes para o resto da eternidade”.

Significa que a capacidade de produção cresceu mais rapidamente do que a capacidade efetiva de compra de parte da população. Uma pessoa pode precisar de um produto e, mesmo assim, não possuir renda ou crédito para comprá-lo. Necessidade humana e demanda econômica não são exatamente a mesma coisa, por mais que essa distinção seja um pouco inconveniente para quem deseja resumir tudo em duas frases e ir embora para o intervalo.

Também não houve uma reunião secreta na qual os empresários decidiram cometer suicídio econômico coletivamente. Cada agente estava reagindo aos preços, aos lucros esperados, à disponibilidade de crédito e ao comportamento dos demais. Enquanto os preços dos ativos subiam, continuar investindo parecia racional. Quando a confiança desapareceu, vender rapidamente também pareceu racional.

O resultado foi uma situação em que decisões individualmente compreensíveis produziram uma catástrofe coletiva.

Quem já simulou investimentos sabe, ainda que numa escala muito menor, como isso funciona. Você olha o histórico de um ativo, vê quedas sucessivas e sente um medo da porra de perder dinheiro. No meu caso, é ainda mais doloroso (sou pobre). A mão começa a coçar para apertar o botão de venda. Agora multiplique essa reação por milhões de investidores, bancos restringindo crédito, empresas demitindo trabalhadores e consumidores adiando compras.

Parabéns, acabamos de descobrir que seres humanos não se transformam em calculadoras perfeitamente racionais só porque entraram no mercado financeiro.

Quando todos acreditam que o preço continuará subindo, forma-se uma euforia. Quando todos passam a acreditar que o preço cairá, surge uma corrida para vender. O mercado transmite informações por meio dos preços, mas esses preços também refletem medo, expectativas equivocadas, comportamento de manada e falta de informações. A mão invisível continua existindo, mas às vezes parece estar tremendo de ansiedade.

Além disso, a Crise de 1929 transformou-se numa depressão muito mais profunda depois das sucessivas falências bancárias iniciadas em 1930. Pessoas e empresas perderam depósitos, bancos passaram a guardar reservas, o crédito desapareceu e a oferta de moeda caiu drasticamente. A deflação aumentou o peso real das dívidas, reduziu o consumo e empurrou mais empresas e famílias para a falência.

O Federal Reserve também cometeu erros monumentais. Elevou juros antes da crise para conter a especulação e, posteriormente, não atuou com força suficiente como emprestador de última instância durante as corridas bancárias. Entre 1930 e 1933, a oferta monetária americana caiu cerca de 30%. Em vez de jogar uma boia para o sistema financeiro, as autoridades ficaram discutindo se a vítima realmente merecia aprender a nadar.

Isso nos leva a uma conclusão desconfortável tanto para estatistas entusiasmados quanto para libertários em modo cruzada: o mercado não se autorregula de maneira perfeita, mas o Estado também não é um administrador infalível. Na verdade, o próprio banco central ajudou a agravar a crise. Portanto, dizer apenas que “a falta de Estado causou tudo” seria tão simplista quanto afirmar que “o mercado teria resolvido sozinho se os burocratas não tivessem atrapalhado”.

Ainda assim, a experiência demonstrou que, diante de um colapso bancário generalizado, esperar passivamente pela autorregulação pode ser uma maneira elegante de assistir à economia pegar fogo enquanto se debate a pureza ideológica do extintor.

A intervenção pública foi necessária para interromper as corridas bancárias, reorganizar instituições insolventes, restaurar a confiança, garantir depósitos e impedir que a contração monetária continuasse indefinidamente. Medidas como o feriado bancário, as reformas de 1933 e a criação do seguro federal de depósitos ajudaram a estabilizar o sistema. Isso não significa que toda medida do New Deal tenha sido eficiente, nem que exista consenso sobre quanto cada política contribuiu para a recuperação. Significa apenas que deixar bancos quebrarem em cadeia não se revelou exatamente o ápice da sabedoria econômica.

Foi nesse ponto que minha própria conclusão mudou: a mão do Estado dando um empurrão foi necessária.

Não para determinar o preço de cada parafuso, escolher quais empresas devem fabricar sapatos ou transformar ministros em administradores universais da produção. O empurrão necessário era institucional: conter o pânico, garantir que bancos solventes não fossem destruídos por corridas, preservar o funcionamento dos pagamentos e impedir uma espiral de falências, desemprego e deflação.

Mercados precisam de regras, confiança, contratos executáveis, moeda funcional e instituições capazes de reagir a riscos sistêmicos. Eles não existem num vazio metafísico, flutuando majestosamente acima da sociedade. Até o sujeito que grita “deixem o mercado funcionar” normalmente deseja que alguém proteja sua propriedade, puna fraudes, execute contratos e garanta que o banco não desapareça com suas economias na madrugada.

Também é inadequado perguntar por que o mesmo não aconteceu com Japão, China e outras economias que produziram em massa depois da Segunda Guerra Mundial como se estivéssemos comparando experiências idênticas. Esses países operaram em períodos diferentes, sob instituições diferentes, com políticas industriais, sistemas bancários, mercados externos, regimes cambiais e graus de participação estatal bastante distintos. Japão e China, aliás, dificilmente são exemplos de industrialização realizada por mercados abandonados à própria sorte. O Estado participou intensamente do direcionamento de crédito, da infraestrutura, da proteção de setores e da política comercial.

Produzir muito, por si só, não causa automaticamente uma depressão. O problema aparece quando expansão produtiva, crédito, endividamento, distribuição de renda, demanda e estabilidade financeira deixam de caminhar minimamente juntos. Hoje produzimos muito mais do que em 1929, mas também temos seguro de depósitos, bancos centrais mais preparados para fornecer liquidez, sistemas de assistência social, estabilizadores automáticos e uma compreensão um pouco menos primitiva das crises financeiras. Às vezes aprendemos alguma coisa depois de destruir a economia. Nem sempre, mas acontece.

A nossa capacidade de ignorar alertas óbvios até que o teto desabe na nossa cabeça não é exclusividade dos economistas de 1929. Hoje, assistimos a um espetáculo idêntico no debate sobre o aquecimento global, onde a discussão pública parece um hospício ideológico dividido entre duas seitas igualmente ruidosas.

De um lado, temos o alarmismo apocalíptico da burocracia internacional, que descobriu no pânico climático a desculpa perfeita para tentar salvar o planeta criando mais três dezenas de impostos verdes e regulamentações sufocantes. Do outro lado da trincheira, habita o ceticismo de internet e o negacionismo de YouTube, que operam na base do "se está nevando em Nova York, o IPCC está mentindo". Esse grupo ignora voluntariamente um consenso científico de mais de 97% dos climatologistas e montanhas de dados de sensores físicos sob o pretexto confortável de que tudo não passa de uma grande conspiração globalista para proibir o churrasco de fim de semana.

O assunto é sério, mas a polarização o transformou em uma guerra de torcidas.

Ouvir um argumento inteligente não nos obriga a comprar o pacote completo. É possível concordar com uma crítica à explicação tradicional da Crise de 1929 e, depois de analisar os fatos, chegar a uma conclusão diferente daquela defendida pelo próprio autor.

Foi o que aconteceu comigo.

A crise não foi simplesmente causada por empresários produzindo demais nem por consumidores acordando coletivamente sem vontade de comprar. Também não foi uma demonstração pura de que o capitalismo inevitavelmente entra em colapso ou de que o Estado consegue consertar qualquer coisa.

Ela mostrou algo menos confortável e muito mais interessante:

Mercados são mecanismos poderosos de coordenação, mas não são oráculos.

Empresários e investidores respondem a incentivos, mas também sentem medo, seguem multidões e cometem erros.

Governos podem estabilizar crises, mas também podem provocá-las ou agravá-las.

E, quando o sistema inteiro entra numa espiral de pânico, a mão invisível às vezes precisa que a mão visível do Estado lhe dê um empurrão.

De preferência sem aproveitar a ocasião para agarrar a economia pelo pescoço.

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