O homem é mau por natureza ou é apenas corruptível?
A discussão costuma ser apresentada como um duelo entre Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau.
De um lado, Hobbes seria o pessimista que olha para a humanidade e conclui que, sem polícia, contrato e medo da punição, todos nós rapidamente nos transformaríamos em animais armados disputando comida, território e prestígio.
Do outro, Rousseau seria o otimista que contempla o ser humano em seu estado original como uma criatura quase inocente, posteriormente deformada pela sociedade, pela desigualdade e pelas instituições. Cheguei a compactuar mais com essa forma de enxergar o mundo no passado.
A versão escolar do debate costuma terminar aí, porque cinquenta minutos de aula não permitem muita coisa além de transformar filósofos complexos em figurinhas opostas. O ensino público brasileiro que o diga.
Hobbes não dizia simplesmente que cada ser humano nasce perverso, esfregando as mãos diante da primeira oportunidade de prejudicar alguém. Sua ideia central era que, sem uma autoridade comum, seres humanos movidos por autopreservação, medo, desejo e competição tenderiam ao conflito.
Rousseau, por sua vez, não afirmava necessariamente que o homem natural possuía todas as virtudes de um santo canonizado. Seu argumento era que muitos vícios humanos como vaidade, comparação, dominação e obsessão por reconhecimento, se desenvolvem dentro das relações sociais (como se fossem defeitos aprendidos).
Ambos perceberam algo verdadeiro. Pra minha mente jovem, fazia sentido.
Hobbes compreendeu que existe no ser humano uma inclinação real para a violência, a competição e a autopreservação. Rousseau percebeu que a sociedade não apenas contém nossas tendências ruins; ela também pode cultivá-las, refiná-las e transformá-las em sistemas respeitáveis, com cargos, uniformes e departamentos de recursos humanos.
Mas nenhum dos dois, isoladamente, resolve completamente a questão.
Se a maldade pertence necessariamente à essência humana, surge um problema metafísico: como uma natureza essencialmente má poderia proceder de um Criador perfeitamente bom?
Se o ser humano nasce plenamente puro e a sociedade é a única responsável por corrompê-lo, aparece outro problema igualmente incômodo: quem corrompeu a primeira sociedade?
É fácil culpar “o sistema”. Difícil é explicar quem construiu o sistema, quem o mantém e por que tantos se adaptam a ele com uma eficiência quase comovente.
A tradição cristã oferece uma resposta mais completa: o ser humano foi criado bom, mas não foi criado incapaz de escolher o mal.
Dizer que o homem foi criado bom não significa afirmar que ele foi criado absolutamente perfeito, imutável ou incapaz de falhar. Somente Deus é o Bem absoluto por essência. As criaturas são boas porque recebem existência, natureza, inteligência e finalidade. Contudo, por serem criaturas, são limitadas. Quando possuem vontade livre, podem dirigir suas ações de modo adequado ou inadequado ao bem para o qual foram criadas.
A liberdade não existe porque o mal seja tão valioso quanto o bem. Ela existe porque o amor, a obediência e a virtude não podem ser reduzidos a movimentos mecânicos. Pela lógica, uma criatura incapaz de agir de qualquer maneira diferente do bem não escolhe moralmente o bem. Ela simplesmente funciona do jeito que foi feita pra funcionar.
Deus, portanto, não criou criaturas más. Criou criaturas boas e livres.
A possibilidade do pecado não constitui um defeito moral no Criador. É uma consequência possível da liberdade concedida à criatura. Isso não significa que Deus deseje o mal. Significa apenas que Ele permite que criaturas livres possam agir contra a ordem que deveriam seguir.
Segundo a doutrina cristã, a humanidade não permanece no estado de integridade original.
A desobediência primordial não transformou a natureza humana em algo absolutamente mau. Se isso tivesse ocorrido, nenhum ato genuinamente bom seria possível, e a própria responsabilidade moral perderia parte de seu sentido.
O pecado original produziu uma natureza ferida (me falta termos melhores), não destruída.
A inteligência humana continua capaz de conhecer a verdade, mas pode se perverter. A vontade continua orientada ao bem, mas frequentemente busca bens inferiores de maneira desordenada. Os desejos corporais continuam pertencendo à natureza humana, mas podem escapar ao governo da razão.
O homem não deseja o mal enquanto mal. Mesmo quando age perversamente, costuma procurar algum bem aparente: prazer, segurança, vingança, poder, reconhecimento, alívio ou vantagem. Perceba que o problema é que frequentemente amamos coisas boas na medida errada, na ordem errada ou pelos meios errados.
Dinheiro pode representar segurança. Torna-se avareza quando ocupa o lugar de tudo o mais. O descanso é necessário. Torna-se preguiça quando abandona responsabilidades legítimas. A indignação diante da injustiça pode ser correta. Torna-se ira quando deixa de obedecer à razão e passa a desejar destruição. Até mesmo o orgulho normalmente nasce de algo que não é inteiramente absurdo: a percepção de alguma qualidade real. A perversão começa quando a pessoa transforma essa qualidade em justificativa para se colocar acima da verdade, dos outros ou de Deus.
O pecado não cria novos bens. Ele parasita bens existentes.
Mas a maior sacada vem de Santo Agostinho, que formulou uma das respostas mais importantes da tradição cristã: o mal não possui existência própria como uma substância independente. O mal é uma falta do bem.
Isso pode soar abstrato, mas o conceito é relativamente simples. A cegueira não é um órgão adicional colocado no corpo. É a ausência da visão que deveria existir. A podridão não é uma nova natureza acrescentada à fruta. É a deterioração de uma estrutura anteriormente boa.
Portanto, o mal não é um princípio equivalente ao bem, como se Deus e o diabo fossem dois executivos concorrentes disputando participação no mercado cósmico.
O diabo não criou uma substância chamada mal. Ele abusou de bens recebidos: inteligência, vontade, poder e liberdade.
O mal só consegue operar porque existe algo bom que pode ser corrompido. Ele é metafisicamente dependente. Deformando e parasitando o bem, que este último sim tem finalidade própria, enquanto o mal desvia uma finalidade legítima originária do bem.
Agora, sobre "escolher" o mal, é a parte que choca com outras correntes de pensamento. Nenhuma criatura racional escolhe o mal apenas porque reconheceu o mal em sua forma pura e decidiu: “É isso. Quero exatamente a ausência de bem. Hurr durr!”
A vontade busca alguma forma de bem, ainda que aparente, parcial ou desordenada.
Uma pessoa pode mentir para preservar sua reputação. Pode trair para obter prazer. Pode humilhar para sentir superioridade. Pode matar por vingança, poder, medo.
Por isso, a corrupção humana não precisa ser entendida como a introdução de uma essência maligna dentro da pessoa. Ela pode ser compreendida como a desorganização de seus amores.
Santo Agostinho percebeu que a questão moral não é apenas o que amamos, mas em que ordem amamos.
Amar a si mesmo não é necessariamente errado. Amar o prazer não é automaticamente errado. Amar reconhecimento, segurança ou sucesso também não.
O problema começa quando esses bens relativos são tratados como absolutos, ou seu novo Deus. Já lascou o primeiro mandamento nessa brincadeira.
Nesse sentido, o homem mau não é necessariamente aquele que deixou de amar. Muitas vezes é aquele que ama de maneira desordenada, possessiva ou idólatra.
A questão dos anjos torna o problema ainda mais complexo. Como uma inteligência superior poderia rebelar-se contra Deus?
A tradição cristã ensina que os anjos foram criados bons e submetidos a uma prova de liberdade. Sua decisão não ocorreu depois da visão beatífica plena, porque a visão direta de Deus como Bem absoluto torna o afastamento voluntário incompatível com a perfeita compreensão desse bem.
Antes de sua confirmação definitiva, porém, os anjos podiam ordenar-se a Deus ou preferir algum bem criado fora da ordem estabelecida pelo Criador. A rebelião angélica pode ser compreendida como uma forma extrema de orgulho: a criatura desejando sua própria grandeza sem submissão à fonte dessa grandeza.
Há certa ironia nisso. A criatura recebe inteligência, beleza e poder e conclui que tais dons demonstram que ela não precisa daquele que os concedeu.
É um raciocínio espiritualmente desastroso, embora bastante familiar. O ser humano repete uma versão reduzida dele sempre que transforma um talento recebido, uma posição social ou meia dúzia de livros lidos em certificado de autossuficiência metafísica.
A inteligência não impede o pecado. Em alguns casos, apenas fornece vocabulário mais rebuscadinho para justificá-lo.
Pois voltemos: o ser humano não é essencialmente mau, mas nasce com uma natureza ferida, inclinada à desordem e capaz de corrupção.
Ele conserva uma orientação fundamental ao bem porque sua natureza foi criada por Deus.
Ao mesmo tempo, carrega uma inclinação que torna a virtude difícil, o egoísmo atraente e a autodecepção surpreendentemente eficiente.
A sociedade pode corrompê-lo, como percebeu Rousseau, mas só consegue fazê-lo porque encontra nele desejos, fragilidades e desordens preexistentes.
A autoridade pode conter sua violência, como percebeu Hobbes, mas nenhuma legislação é capaz de purificar completamente a vontade.
Leis podem impedir que alguém roube por medo da prisão. Não podem, por si mesmas, transformar um vagabundo em homem justo.
O problema humano não está apenas fora de nós, na sociedade, no Estado ou na cultura. Também não está apenas dentro de nós, como uma essência demoníaca.
Ele surge da relação entre uma natureza boa, porém ferida; uma liberdade real com causalidade própria; desejos desordenados; influências externas; hábitos adquiridos; estruturas sociais e escolhas pessoais.
O homem é corruptível porque é livre. Torna-se corrupto quando transforma escolhas desordenadas em hábitos, hábitos em caráter e caráter em justificativa. E ainda assim não perde completamente a possibilidade de retorno.
Se o mal fosse uma essência, a conversão seria impossível (achismo meu aqui). Mas, sendo uma privação e uma desordem, aquilo que foi deformado pode, pela graça, pela razão, pelo arrependimento e pela formação da virtude, ser reordenado.
Essa talvez seja a diferença mais importante entre a visão cristã e o puro pessimismo. O cristianismo não afirma que o homem é inocente demais para precisar de salvação. Também não afirma que ele é perverso demais para ser salvo.
Afirma que o ser humano foi criado para o bem, possui liberdade suficiente para afastar-se dele e responsabilidade suficiente para não poder culpar eternamente a sociedade, a biologia, a infância, o governo, o diabo ou a falta de sorte.
Também não somos vítimas inocentes de todas as nossas escolhas. Somos criaturas boas, feridas, livres e perigosamente habilidosas em explicar por que nossos próprios vícios constituem exceções perfeitamente razoáveis.
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