A Sociedade do Futuro
Durante muito tempo, escritores tentaram imaginar como seria a sociedade do futuro. Alguns apostaram em carros voadores, colônias espaciais e robôs domésticos. Outros foram menos otimistas e perceberam que o futuro talvez não fosse dominado por máquinas extraordinárias, mas por seres humanos perfeitamente satisfeitos em desperdiçar a própria inteligência.
Neil Postman explorou essa questão em Amusing Ourselves to Death, publicado em 1985. Ao comparar George Orwell e Aldous Huxley, ele apresentou duas visões diferentes de uma sociedade degradada.
Orwell temia um mundo no qual o poder proibiria os livros. Huxley temia algo talvez mais eficiente: um mundo no qual ninguém precisaria proibi-los, porque quase ninguém teria interesse ou foco suficiente para lê-los.
Orwell imaginou que seríamos privados de informação. Huxley imaginou que receberíamos tanta informação que perderíamos a capacidade de distinguir o essencial do irrelevante.
Orwell temia que a verdade fosse ocultada. Huxley temia que ela fosse lançada em um oceano de fofocas, entretenimento, publicidade, escândalos e estímulos até se tornar apenas mais um conteúdo disputando quinze segundos de atenção.
Orwell descreveu uma sociedade controlada pela dor. Huxley descreveu uma sociedade controlada pelo prazer.
O primeiro imaginou o Estado obrigando as pessoas a obedecer. O segundo percebeu algo mais elegante: talvez as pessoas pudessem ser conduzidas sem chicotes, desde que recebessem distrações suficientes.
Uma população permanentemente entretida não precisa necessariamente ser silenciada. Ela pode falar o dia inteiro sem dizer absolutamente nada. Essa é uma das razões pelas quais Huxley parece tão atual.
Hoje, o problema não é apenas a falta de acesso à informação. Temos acesso imediato a praticamente tudo: filosofia, história, ciência, política, religião, literatura e cursos completos produzidos por algumas das maiores universidades do mundo. Dou um Google e viro o novo Einstein.
Naturalmente, usamos essa infraestrutura extraordinária para assistir a pessoas desconhecidas discutindo por causa de relacionamentos falsos, acompanhar a rotina de celebridades irrelevantes e descobrir qual personagem de desenho animado corresponde ao nosso signo.
Nunca foi tão fácil aprender. Nunca houve tanta concorrência para impedir que alguém realmente aprendesse alguma coisa.
A censura ainda existe, evidentemente. Governos, empresas e instituições continuam tentando controlar informações. Orwell não se tornou obsoleto. Basta observar vigilância digital, manipulação de linguagem, perseguição política e o desejo constante de transformar discordância em ameaça pública.
Entretanto, a repressão aberta é cara, desagradável e cria mártires. A distração é mais eficiente, eu diria.
Em vez de proibir uma ideia, basta enterrá-la sob milhares de conteúdos mais atraentes. Em vez de impedir alguém de pensar, basta mantê-lo irritado, excitado, ansioso ou entretido.
O cidadão não precisa ser preso. Basta que permaneça cansado demais para refletir e estimulado demais para perceber o próprio cansaço.
É claro que entretenimento não é um mal em si. Futebol, música, séries, festas e jogos podem oferecer descanso, beleza, sociabilidade e prazer legítimo.
O problema começa quando o descanso deixa de ser intervalo e se transforma em modo permanente de existência.
Uma sociedade não se torna decadente porque seus membros assistem a partidas de futebol. Torna-se decadente quando conhece detalhadamente a escalação de um time, mas não compreende minimamente as instituições que governam sua vida. Pergunte ao seu vizinho em quem ele votou pra deputado e veja a mágica acontecer.
Perceba que um povo só se torna decadente quando perde a capacidade de apreciar qualquer coisa que exija silêncio, esforço ou paciência. Não se torna decadente porque consome entretenimento (até eu consumo, e muito), mas todo pensamento precisa ser convertido em espetáculo para ser tolerado.
A economia contemporânea aprendeu a transformar atenção em mercadoria, do jeitinho que os comunistas acertadamente fazem em criticar o capitalismo. Plataformas digitais não competem apenas pelo nosso dinheiro; competem pelo nosso tempo, pelos nossos impulsos e pela nossa capacidade de permanecer concentrados.
O produto oferecido pode ser gratuito porque, frequentemente, o produto somos nós.
Cada notificação interrompe uma linha de raciocínio. Cada escândalo produz uma pequena descarga emocional. Cada polêmica exige uma opinião instantânea de pessoas que descobriram o assunto há aproximadamente quarenta segundos.
Pensar exige demora. A internet recompensa velocidade. Pensar exige dúvida, silêncio.
Por isso, talvez não vivamos exclusivamente no mundo de Orwell ou no de Huxley. Vivemos em uma combinação dos dois.
Há vigilância e distração. Há censura e saturação. Há medo e prazer.
Orwell temia que seríamos destruídos pelo que odiamos.
Huxley temia que seríamos destruídos pelo que amamos.
A pergunta “quem acertou mais?” talvez tenha uma resposta pouco reconfortante: os dois acertaram.
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