O que é a dor?

Schopenhauer descreve a existência humana como um movimento constante entre desejo, sofrimento e tédio:

“É necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual consequentemente o homem está destinado originariamente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assaltam-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, seu ser e sua existência mesma se lhe tornam um fardo insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio.”
— Arthur Schopenhauer, O mundo como vontade e como representação, § 57.

Nessa concepção, a dor está profundamente ligada ao desejo. Enquanto queremos algo que ainda não possuímos, sentimos carência. Quando alcançamos o objeto desejado, a satisfação costuma ser temporária. Logo surge outro desejo ou, na ausência dele, o tédio.

A imagem do pêndulo expressa uma visão pessimista da existência: o ser humano oscilaria entre sofrer por desejar e sofrer por já não encontrar algo que deseje.

Considero essa análise muito fora da curva, especialmente como descrição de parte da experiência humana. Entretanto, não concordo inteiramente com a conclusão metafísica de Schopenhauer. A ideia de que a existência carece de finalidade última e de que não há repouso verdadeiro parece-me insuficiente.

A filosofia tomista oferece uma resposta diferente. Nessa perspectiva, o desejo humano não é apenas uma condenação ao sofrimento. Ele também revela uma orientação para o bem. Desejamos porque percebemos algo como bom, ainda que frequentemente confundamos bens passageiros com aquilo que poderia realmente satisfazer nossa natureza.

O problema talvez não seja simplesmente desejar, mas esperar de bens limitados uma satisfação ilimitada.

Dinheiro, reconhecimento, prazer, poder, relacionamentos e conquistas podem possuir valor real. Contudo, quando tratados como fins absolutos, tornam-se incapazes de sustentar plenamente aquilo que esperamos deles. A frustração não surge apenas porque desejamos, mas também porque dirigimos desejos infinitos a objetos finitos.

Todos conhecem alguma forma de dor.

Existe a dor física, a dor da perda, a solidão, a rejeição, o fracasso e o vazio existencial. Cada uma exige uma resposta diferente. Não devemos tratar todo sofrimento como se tivesse a mesma origem ou pudesse ser superado pelo mesmo método.

Conhecer a dor pode ajudar a enfrentá-la. Dar nome ao que sentimos, compreender suas causas e reconhecer seus efeitos reduz parte da confusão. Entretanto, compreensão intelectual não resolve tudo. Algumas dores precisam de tempo, presença, cuidado, mudança prática ou ajuda profissional. Em dado momento, passei a enxergar a dor também como uma descarga química.

Ainda assim, filosofia e arte podem desempenhar um papel importante.

A arte permite que experiências difíceis recebam forma. Uma música, uma pintura, um poema ou uma narrativa podem expressar aquilo que não conseguimos explicar diretamente. Ao contemplarmos a dor representada, percebemos que ela não pertence apenas a nós. Ela se torna comunicável e, em certa medida, compartilhável.

Schopenhauer via na contemplação estética uma suspensão temporária da vontade. Durante esse momento, deixamos de olhar o mundo apenas pelo que desejamos obter dele e passamos a contemplá-lo com algum distanciamento.

A filosofia também pode ajudar. Ela não elimina a dor, mas oferece perguntas e distinções. "O que exatamente estou sentindo?", "Há algo que posso mudar?", "Há algo que preciso aceitar?" e principalmente "Estou sofrendo pelo fato presente ou por interpretações que construí sobre ele?"

Somos mestres absolutos em nos autossabotar através das nossas próprias narrativas mentais. Ouvi de uma música uma frase, "me apaixonei pelo que inventei de você", e entendi que essa frase ilustra perfeitamente essa dinâmica e pode ser transportada para praticamente todas as esferas da nossa existência. Quando Schopenhauer afirma que o mundo é nossa representação, ele nos lembra que raramente enxergamos as coisas como elas são; nós as enxergamos como nós somos.

No amor, na carreira ou nos bens materiais, nós frequentemente desenhamos uma caricatura idealizada da realidade (seja bostificada ou romantizada) e, depois, sofremos quando o objeto real é incapaz de corresponder ao fantasma que criamos na nossa imaginação. Essa invenção é, no fundo, a nossa tentativa desesperada de encontrar a perfeição absoluta em molduras imperfeitas.

Projetamos nos outros e nas conquistas mundanas uma promessa de salvação e de repouso que eles simplesmente não possuem estrutura para carregar. A dor do tédio e da frustração que Schopenhauer descreve nasce justamente desse divórcio entre o fato e a expectativa: o sofrimento não é causado pelo mundo em si, mas pela quebra da promessa fictícia que nós mesmos inventamos. Compreender isso nos aproxima da resposta tomista e nos dá uma chave de libertação.

Ao darmos nome às nossas projeções e reconhecermos o limite das coisas criadas, paramos de exigir das pessoas e das circunstâncias uma perfeição que elas não podem oferecer. Romper a ilusão do que "inventamos" sobre a realidade pode ser doloroso no primeiro momento, mas é o único caminho honesto para deixar de oscilar como um pêndulo e, finalmente, começar a viver no mundo real.

No entanto, é preciso coragem para encarar essa realidade sem muletas, inclusive dentro da própria espiritualidade. Afinal, a resposta para o dilema da dor não consiste em negá-la. É assustador notar como parte da nossa cultura religiosa adoeceu nesse ponto: basta abrir as redes sociais para ver uma enxurrada de vovós postando comentários piedosos em fotos de crianças doentes, tratando a tragédia com um otimismo mágico, como se a prece fosse um botão que fizesse a dor sumir instantaneamente. O paradoxo cruel é que essas mesmas pessoas, na vida real, frequentemente fecham os olhos para o sofrimento psicológico ao seu redor, reduzindo a depressão alheia a uma suposta "falta de Deus". Ouvi muito isso quando estava precisando de ajuda e o isolamento foi um dos jeitos de encontrei de lidar com a dor.

Essa postura das vovós de Facebook não é fé. É a tentativa de esticar a nossa "invenção" para o campo do sagrado, exigindo de Deus uma anestesia que Ele nunca prometeu. No fim, comportamentos assim afastam mais de Deus do que aproximam e QUASE foi meu caso.

A fé autêntica e amadurecida não transforma o sofrimento em algo agradável, nem exige que o indivíduo finja uma paz artificial. Ela não elimina a quimioterapia (ainda no exemplo do câncer), o luto (no caso de uma perda) ou o tratamento psiquiátrico (pra alguém perdido). O que a verdadeira tradição espiritual oferece não é a promessa mágica de que não haverá dor, mas sim uma estrutura de sentido profunda o suficiente para nos garantir que a dor, por mais brutal que seja, jamais representará a última palavra sobre a existência.

O repouso espiritual não é simples ausência de dificuldades. É a possibilidade de reconhecer um bem maior que não depende inteiramente das circunstâncias imediatas.

Já cheguei a concordar com a frase: “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”

A frase contém uma verdade "mais ou menos", como se lhe faltasse mais. Demorei muito pra elaborar. Nem toda forma de sofrimento pode ser desligada por decisão. Trauma, doença, luto e depressão não são escolhas. É romantizar muito a habilidade de fazer como Damon Salvatore faz em The Vampire Diaries e desliga sua humanidade.

Seria mais lógico afirmar: "A dor nem sempre pode ser evitada, mas nossa relação com ela pode ser melhorada." É uma lógica que o estoicismo me mostrou muito bem e até hoje carrego comigo.

Podemos aprender a não acrescentar continuamente novas camadas de sofrimento à dor original. Podemos abandonar interpretações falsas, buscar ajuda, aceitar limites e agir sobre aquilo que está ao nosso alcance.

Também se diz que o sofrimento produz aprendizado. Isso não acontece automaticamente. A dor pode amadurecer uma pessoa, mas também pode torná-la amargurada (autocrítica aqui), assustada ou cruel (observei em outros). Você acha que Schopenhauer batia bem da cabeça?

O sofrimento só se transforma em aprendizado quando é elaborado. Para isso, são necessários reflexão, apoio, honestidade e disposição para não permitir que a ferida determine inteiramente aquilo que nos tornaremos.

Por isso, devemos permitir-nos sentir a dor sem romantizá-la. Negá-la pode fazê-la crescer silenciosamente; transformá-la em identidade pode impedir qualquer movimento de recuperação.

Enfrentar a dor exige mais do que força. Exige humildade para reconhecer limites, coragem para pedir ajuda e sabedoria para distinguir aquilo que pode ser mudado daquilo que precisa ser atravessado.

A dor faz parte da existência humana. Aceitar dói menos (sim, tive que fazer o trocadilho).

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