A ética libertária e seus furos

Não pretendo desmontar todo o libertarianismo aqui. A ideia é apenas sugerir que o leitor procure também autores minarquistas antes de tratar Rothbard como profeta recebido diretamente do mercado.

O libertarianismo costuma colocar o consentimento no centro da legitimidade moral. O problema é simples: consentimento, sozinho, não transforma qualquer ação em ética. Se alguém concorda em levar um tiro entre as pernas, houve consentimento. Parabéns. A discussão moral continua exatamente onde estava.

Também existe a aversão quase religiosa à coerção. Só que toda ordem jurídica depende, em algum nível, da possibilidade de obrigar alguém a cumprir uma regra. Lei sem força SIMPLESMENTE NÃO IMPLACA.

Sem uma autoridade pra mandar em você, qualquer lei (por mais que seja bonita, inspiradora) pode ser ignorada total.

Há ainda problemas mais técnicos: o jusnaturalismo de Rothbard enfrenta a velha dificuldade de derivar o dever-ser a partir do ser, enquanto Hoppe tenta contornar parte disso com sua ética argumentativa. A solução, porém, traz outras complicações, especialmente na autopropriedade e na relação entre mente e corpo. O buraco recebe carpete, iluminação e passa a ser chamado de sistema.

No fim, sobra o dilema clássico: quem garante as regras? Um grupo privado com poder de coerção? Excelente, você reinventou o Estado com outro nome. Vários grupos concorrentes? Então a norma vale até aparecer alguém com mais dinheiro, mais armas ou menos paciência. Lei do mais forte, basicamente.

O libertarianismo faz críticas úteis ao abuso estatal, mas tá longe de ser uma ética funcional. Mesmo sabendo que o Estado é o Leviathan, julgo o Estado como inevitável.

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