Vantagens de ser Solteiro

Quem permanece solteiro por algum tempo inevitavelmente começa a receber perguntinhas daquela sua tia chata.

“E as namoradas?”

“Quando vai casar?”

“Não encontrou ninguém ainda?”

Como se relacionamento fosse um checklist obrigatório da vida e a família estivesse preocupada porque você perdeu o prazo de dar o tick.

Existe uma espécie de cronograma imaginário da vida adulta: faculdade, emprego, namoro, casamento, filhos e financiamento imobiliário até que a morte separe (ou o banco... ou quem sabe um vagabundo a mão armada). Quem sai alguns metros dessa estrada imediatamente desperta preocupação nos fiscais da vida alheia.

A pressão é curiosa porque muitas pessoas que fazem essas perguntas vivem relações das quais reclamam diariamente. Ainda assim, tratam a vida de solteiro como uma enfermidade provisória, curável mediante namoro. Vai ver esqueci de ir ao médico.

É sempre curioso receber conselhos matrimoniais de alguém que passa o almoço de domingo descrevendo o próprio casamento como um desastre total. A pessoa reclama do marido, da esposa, dos filhos, da sogra, do cachorro e das férias em família; cinco minutos depois olha para o solteiro e pergunta quando ele pretende “encontrar alguém pra sossegar”.

Ser solteiro parece carregar mais sossego do que estar em um relacionamento. É igual a procurar emprego: o mero ato de procurar já é estressante. Um simples date pode ser um presságio para o bom e velho debate do “quem paga a conta?”.

Claro, pode ser uma excelente fase para um homem. Não porque mulheres sejam o problema, casamento seja uma fraude ou o amor tenha sido inventado por empresas de alianças. Mas porque nenhum homem deveria entrar em um relacionamento apenas para fugir da própria companhia (coisa que, pra quem já leu outros artigos, sabe que eu critico essa postura com veemência).

Quem namora por medo de ficar sozinho normalmente não escolhe uma parceira, mas um alvo. Alguém pra você despejar sua carência emocional.

O ser humano é social. Precisa de amizade, vínculo, intimidade e pertencimento. Entretanto, existe uma diferença entre desejar companhia e precisar desesperadamente que outra pessoa confirme seu valor.

A solitude ensina essa diferença.

Solitude não significa desaparecer do mundo, cultivar ressentimento e passar a chamar amargura de iluminação filosófica. Também não significa repetir que “não preciso de ninguém” enquanto verifica compulsivamente quem visualizou seus stories (autocrítica).

Também não consiste em virar um monge digital que assiste seis horas de vídeos sobre “a verdadeira natureza feminina” e depois conclui, com extraordinário rigor científico, que compreendeu quatro bilhões de mulheres porque levou um fora da Evelyn em 2019 (dessa vez não é autocrítica, embora eu já tenha caído no papinho redpill em alguma medida).

A boa solitude é a capacidade de estar sozinho sem sentir que sua vida está suspensa. É desenvolver interesses, disciplina, finanças, amizades, saúde e objetivos que não dependam da chegada de uma parceira.

A distinção parece pequena, mas muda tudo. “Quero você na minha vida” é muito diferente de “Preciso de você na minha vida”.

Uma vez li uma revistinha sobre "A Parte Que Falta" e a sacada foi genial.

A obsessão por encontrar a “metade” talvez seja uma das metáforas românticas mais bonitas e psicologicamente suspeitas já inventadas. Duas metades produzem uma unidade; duas pessoas inteiras produzem uma relação. Parece menos poético, mas provavelmente dá menos trabalho para o terapeuta depois.

O homem que não suporta a própria companhia aceita qualquer porcaria que o mundo joga. A mentalidade de escassez, o desespero por transar e o pavor da solidão formam o ácido perfeito para corroer o caráter masculino. Sejamos francos, muitos de nós, homens, já caímos nessa (outra autocrítica).

A vida solteira oferece vantagens objetivas. Há mais autonomia sobre tempo, dinheiro, rotina e decisões. É possível mudar de emprego, viajar, estudar, reorganizar a vida ou passar uma noite inteira jogando sem convocar uma reunião diplomática.

Você pode jantar às onze da noite, decidir aprender origamis numa terça-feira, ir sozinho para uma zona movimentada, ou só assistir a um documentário sobre como Alexandre O Grande foi implacável. A melhor parte? Não precisa pedir bênção pra ninguém. Só faz.

Não é uma liberdade absoluta. Pessoas solteiras continuam tendo família, trabalho, obrigações, boletos pra quitar e muito imposto pra pagar.

Mas existe maior flexibilidade.

Isso permite ao homem construir uma base pessoal antes de compartilhar a vida com alguém. Aprender a administrar dinheiro, cuidar da casa, regular emoções e tomar decisões sem esperar que uma namorada assuma o papel combinado de mãe, terapeuta, secretária e plateia.

Um homem deveria saber conduzir a própria vida antes de convidar alguém para participar dela. Também é intelectualmente desonesto fingir que relacionamentos não envolvem riscos.

Eles custam tempo, energia, dinheiro e vulnerabilidade. Podem terminar. Podem deixar marcas. Uma pessoa pode investir anos e ouvir, ao final, que o sentimento mudou.

E essa talvez seja uma das partes mais desagradáveis da vida adulta: esforço não garante permanência. Não tem garantia nenhuma numa relação. Conviver com o risco é a parte mais difícil, pelo menos na minha humilde opinião.

Você pode agir corretamente, pedir desculpas pelo que não acha que está errado, tentar dialogar, amadurecer, cumprir promessas e ainda assim descobrir que o outro não deseja continuar. Relações humanas não possuem cláusula de ROI, famoso retorno sobre investimento.

O jeito mais seguro é fazer igual a como fazemos com nossos Bitcoins. Não bota todas as economias de uma vez. Vai colocando aos pouquinhos.

Nenhum sucesso profissional, beleza ou inteligência oferece imunidade. O amor soa mais como uma aposta feita com informação incompleta, porque seres humanos não vêm com um label na testa.

Aceite o mais cedo possível que você vai ter que lidar com o risco de perder seu tempo com alguém imprestável, ou até mesmo o risco de que alguém "que preste" pode escolher ir embora.

Tem alternativa? Tem. Nunca se entregar a ninguém. Ser um Charlie Harper da vida. É mais seguro, certamente. Mas todos sabemos que o Charlie não era verdadeiramente feliz.

Evitar todo vínculo para impedir sofrimento funciona. O problema é que também impede algumas das maiores formas de alegria, intimidade e crescimento.

Beleza, tenha seus critérios. Só cuidado com as muralhas. Sem critérios, qualquer madame de baixo valor bate na sua porta. Com muralha, talvez uma possível pretendente nem saiba que exista um homem compatível do outro lado.

Tudo é discernimento.

Tem muita madame por aí que quer ser bancada no primeiro encontro e acha que é um dever masculino pagar a conta, e se você questionar esse padrão, você é só mais um "liso" que tem que trabalhar ao invés de procurar mulher. Existe por aí uma parcela que aceitaria tomar um sorvetinho no primeiro date, rir das suas piadas e não rir da sua cara porque você chegou na sorveteria a pé e não de carro quitado.

Se der o azar de cair com o primeiro tipo, talvez você vire assunto no grupo das amiguinhas do WhatsApp por dois dias. Vida que segue. Se der a sorte de encontrar o segundo, talvez tenha encontrado alguém com quem valha a pena construir alguma coisa de verdade.

Aliás, primeiros encontros deveriam servir justamente para isso: observar. Viu que a mina quer um pai ao invés de um parceiro? Só partir pra próxima. Não precisa militar discurso do Don Sandro não.

Da mesma forma, o homem que acredita que pagar uma sobremesa lhe concede direitos não escritos, como um beijo, uma foda ou gratidão eterna também está confundindo encontro com transação comercial. Melhor só procurar uma do job e deixar as mulheres boas pra quem tá interessado.

O debate sobre quem paga a conta sempre foi muito irritante, pois ambos os lados só querem levar vantagem, terceirizar responsabilidades, criar expectativas irreais... até que o propósito real de um date não se cumpre. O que deveria ser um "vamos sair pra nos conhecer melhor" vira um "olha só, ele me deixou pagar minha metade depois de eu mesma dizer que aceito pagar minha metade, que absurdo!"

O mercado amoroso moderno possui distorções reais. Redes sociais amplificam comparação, oferta aparente, busca por validação e sensação de descartabilidade. Homens e mulheres podem tratar pessoas como produtos substituíveis.

Nunca tivemos acesso visual a tantas pessoas e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão fácil imaginar que sempre existe alguém melhor a três deslizadas de distância. Isso é fatal para seu cérebro.

Alguns homens distribuem atenção compulsivamente para qualquer mulher que apareça na tela. Algumas mulheres se acostumam a receber validação sem oferecer reciprocidade. Aplicativos incentivam julgamentos instantâneos baseados em fotografias e frases que parecem escritas por departamentos de marketing emocionalmente debilitados.

Aplicativos também criaram uma espécie peculiar de inflação de atenção. Algumas pessoas recebem atenção demais de gente em quem não possuem interesse; outras recebem atenção de menos justamente de quem gostariam. O resultado é um ecossistema onde uma parte se sente descartável e outra se sente cercada de opções que não significam necessariamente boas opções.

Homens também mentem, traem, desaparecem, objetificam e evitam compromisso. Mulheres também sofrem rejeição, abuso, insegurança e solidão. A dinâmica pode assumir formas diferentes, mas mediocridade moral nunca foi monopólio de um sexo.

É intelectualmente confortável transformar experiências pessoais ruins em teoria universal. Se três mulheres foram ruins comigo, “mulher é assim”. Se três homens foram ruins com alguém, “homem não presta”. O cérebro adora economizar energia através de generalizações; maturidade é obrigá-lo ocasionalmente a trabalhar, né?

A questão relevante não é quem venceu uma suposta guerra entre homens e mulheres. É se duas pessoas concretas possuem caráter, reciprocidade e maturidade suficientes para construir algo juntas.

Porque você não namora “uma modernete”, “um redpill”, “um hétero top” ou qualquer outra abstração conveniente usada nos memes ridículos de hoje em dia. Você namora uma pessoa específica, com nome, vontades, sonhos, etc.

Pessoas específicas precisam ser julgadas pelo comportamento específico delas.

Casamentos terminam. Isso é evidente. Mas afirmar que o casamento está falido porque existem divórcios seria como afirmar que a medicina fracassou porque pessoas ainda adoecem.

O divórcio demonstra que algumas uniões falharam, não que toda união seja inútil.

Muitos casamentos começam por pressão, paixão superficial, medo da solidão ou completa incompatibilidade disfarçada por entusiasmo sexual. Depois, as pessoas ficam chocadas ao descobrir que química não administra orçamento, não cria filhos e não resolve treta familiar.

Duas pessoas que discordam sobre religião, filhos, dinheiro, fidelidade, família, carreira e estilo de vida não podem ficar juntas só porque o beijo encaixa.

Relacionamentos duradouros exigem mais do que amor espontâneo. Exigem amizade, atração, valores compatíveis, compromisso, capacidade de reparar danos e disposição para permanecer quando a relação deixa de parecer um videoclipe.

Isso é raro. Mas raro não significa impossível.

Sabemos que é melhor permanecer solteiro enquanto se está incapaz de oferecer compromisso, fidelidade, estabilidade ou honestidade. Algumas pessoas querem os benefícios da intimidade sem assumir qualquer responsabilidade. "É só um ficante", dizem.

O objetivo da solitude não deveria ser tornar o homem incapaz de amar. Deveria torná-lo capaz de amar sem se destruir.

Quem está bem sozinho pode entrar em um relacionamento por escolha, não por desespero.

Pode amar sem transformar a parceira em fonte exclusiva de felicidade. Pode ser vulnerável sem abandonar a dignidade. Pode sair de uma relação ruim sem acreditar que a vida terminou.

Ser solteiro pode ser muito bom para um homem. Mas não porque o amor seja uma armadilha. É bom porque oferece a oportunidade de construir alguém que não precise ser resgatado de si mesmo.

Você pode gastar dez anos dizendo que está “aproveitando a vida” enquanto na prática apenas alterna pornografia, videogame, trabalho, bebida, academia e relações vazias. Ou vai insistir que Charlie Harper era feliz?

Leia. Treine. Poupe dinheiro. Desenvolva competência. Aprenda a cozinhar alguma coisa além de ovo. Faça amigos que não desapareçam assim que arrumam namorada. Viaje quando puder. Passe tempo com seus pais enquanto ainda estão aqui. Construa alguma coisa. Torne-se útil.

Não para aumentar seu “valor de mercado” e finalmente conquistar a aprovação feminina, mas porque uma vida competente é melhor do que uma vida incompetente independentemente de quem esteja observando.

Depois disso, caso apareça uma mulher compatível, recíproca e disposta a construir uma vida real (e não apenas consumir emoções agradáveis enquanto elas durarem), vale a pena correr o risco.

E compatível não significa perfeita. Procure reciprocidade mais do que performance. A pessoa que demonstra interesse quando ninguém está olhando vale mais do que aquela que sabe encenar romance para fotografia. Observe como ela trata trabalhadores de lugares que você frequenta, familiares, amigos. Caráter costuma aparecer aí.

Faça o mesmo consigo. Porque é fácil elaborar uma lista detalhada das características que você deseja numa mulher e esquecer de perguntar que tipo de homem seria adequado para uma mulher com essas características. Toma lá, dá cá, meu amigo.

Caso a tal prometida não apareça, segue o baile. Sem ressentimento, sem humilhação e sem a necessidade de escrever um tratado culpando metade da humanidade. Só manda sua tia parar de enxer o saco e siga firme nos objetivos.

Isso é solitude.

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