Por que ser solteiro é tão bom para um homem?
Quem permanece solteiro por algum tempo inevitavelmente começa a receber perguntinhas daquela sua tia chata.
“E as namoradas?”
“Quando vai casar?”
“Não encontrou ninguém ainda?”
Como se relacionamento fosse concurso público e a família estivesse preocupada porque você perdeu novamente o prazo de inscrição.
A pressão é curiosa porque muitas pessoas que fazem essas perguntas vivem relações das quais reclamam diariamente. Ainda assim, tratam a vida de solteiro como uma enfermidade provisória, curável mediante namoro. Vai ver esqueci de ir no médico.
Ser solteiro, porém, pode ser uma excelente fase para um homem.
Não porque mulheres sejam o problema, casamento seja uma fraude ou o amor tenha sido inventado por empresas de alianças. Mas porque nenhum homem deveria entrar em um relacionamento apenas para fugir da própria companhia.
O ser humano é social. Precisa de amizade, vínculo, intimidade e pertencimento. Entretanto, existe uma diferença entre desejar companhia e precisar desesperadamente que outra pessoa confirme seu valor.
A solitude ensina essa diferença.
Solitude não significa desaparecer do mundo, cultivar ressentimento e passar a chamar amargura de iluminação filosófica. Também não significa repetir que “não preciso de ninguém” enquanto verifica compulsivamente quem visualizou seus stories (autocritica).
A boa solitude é a capacidade de estar sozinho sem sentir que sua vida está suspensa.
É desenvolver interesses, disciplina, finanças, amizades, saúde e objetivos que não dependam da chegada de uma parceira. Um relacionamento deve acrescentar uma dimensão à vida, não funcionar como respirador artificial de uma identidade incompleta.
Uma vez li uma revistinha sobre "A Parte Que Falta" e a sacada foi genial.
O homem que não suporta a própria companhia aceita qualquer porcaria que o mundo joga. A mentalidade de escassez, o desespero por transar e o pavor da solidão formam o ácido perfeito para corroer o caráter masculino. Sejamos francos, muitos de nós homens já caímos nessa.
A vida solteira oferece vantagens objetivas. Há mais autonomia sobre tempo, dinheiro, rotina e decisões. É possível mudar de emprego, viajar, estudar, reorganizar a vida ou passar uma noite inteira jogando sem convocar uma reunião diplomática.
Não é uma liberdade absoluta. Pessoas solteiras continuam tendo família, trabalho, obrigações, boletos pra quitar e imposto pra pagar.
Mas existe maior flexibilidade.
Isso permite ao homem construir uma base pessoal antes de compartilhar a vida com alguém. Aprender a administrar dinheiro, cuidar da casa, regular emoções e tomar decisões sem esperar que uma namorada assuma o papel combinado de mãe, terapeuta, secretária e plateia.
Um homem deveria saber conduzir a própria vida antes de convidar alguém para participar dela. Também é intelectualmente desonesto fingir que relacionamentos não envolvem riscos.
Eles custam tempo, energia, dinheiro e vulnerabilidade. Podem terminar. Podem deixar marcas. Uma pessoa pode investir anos e ouvir, ao final, que o sentimento mudou.
Nenhum sucesso profissional, beleza ou inteligência oferece imunidade.
O amor não é contrato de estabilidade. É uma aposta feita com informação incompleta, porque seres humanos não vêm com garantia estendida.
Relacionar-se significa aceitar que alguém importante pode escolher ir embora.
A alternativa é nunca se entregar a ninguém. É mais seguro, certamente. Cemitérios também são lugares bastante seguros e silenciosos.
Evitar todo vínculo para impedir sofrimento funciona. O problema é que também impede algumas das maiores formas de alegria, intimidade e crescimento.
O mercado amoroso moderno possui distorções reais. Redes sociais amplificam comparação, oferta aparente, busca por validação e sensação de descartabilidade. Homens e mulheres podem tratar pessoas como produtos substituíveis.
Alguns homens distribuem atenção compulsivamente para qualquer mulher que apareça na tela. Algumas mulheres se acostumam a receber validação sem oferecer reciprocidade. Aplicativos incentivam julgamentos instantâneos baseados em fotografias e frases que parecem escritas por departamentos de marketing emocionalmente debilitados.
Homens também mentem, traem, desaparecem, objetificam e evitam compromisso. Mulheres também sofrem rejeição, abuso, insegurança e solidão. A dinâmica pode assumir formas diferentes, mas mediocridade moral nunca foi monopólio de um sexo.
A questão relevante não é quem venceu uma suposta guerra entre homens e mulheres. É se duas pessoas concretas possuem caráter, reciprocidade e maturidade suficientes para construir algo juntas.
Casamentos terminam. Isso é evidente. Mas afirmar que o casamento está falido porque existem divórcios seria como afirmar que a medicina fracassou porque pessoas ainda morrem.
O divórcio demonstra que algumas uniões falharam, não que toda união seja inútil.
Muitos casamentos começam por pressão, paixão superficial, medo da solidão ou completa incompatibilidade disfarçada por entusiasmo sexual. Depois, as pessoas ficam chocadas ao descobrir que química não administra orçamento, não cria filhos e não resolve conflito.
Relacionamentos duradouros exigem mais do que amor espontâneo. Exigem amizade, atração, valores compatíveis, compromisso, capacidade de reparar danos e disposição para permanecer quando a relação deixa de parecer um videoclipe.
Isso é raro. Mas raro não significa impossível.
Sabemos que é melhor permanecer solteiro enquanto se está incapaz de oferecer compromisso, fidelidade, estabilidade ou honestidade. Algumas pessoas querem os benefícios da intimidade sem assumir qualquer responsabilidade. Depois chamam isso de “não colocar rótulos”, porque covardia soa mais sofisticada em linguagem moderna.
O objetivo da solitude não deveria ser tornar o homem incapaz de amar. Deveria torná-lo capaz de amar sem se destruir.
Quem está bem sozinho pode entrar em um relacionamento por escolha, não por desespero.
Pode amar sem transformar a parceira em fonte exclusiva de felicidade. Pode ser vulnerável sem abandonar a dignidade. Pode sair de uma relação ruim sem acreditar que a vida terminou.
Ser solteiro pode ser muito bom para um homem. Mas não porque o amor seja uma armadilha. É bom porque oferece a oportunidade de construir alguém que não precise ser resgatado de si mesmo.
Depois disso, caso apareça uma mulher compatível, recíproca e disposta a construir uma vida real (e não apenas consumir emoções agradáveis enquanto elas durarem), vale a pena correr o risco.
Caso não apareça, segue o baile. Sem ressentimento, sem humilhação e sem a necessidade de escrever um tratado culpando metade da humanidade. Só manda sua tia parar de enxer o saco e siga firme nos objetivos.
Isso é solitude.
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