Por que não sou Existencialista

O existencialismo costuma começar com uma constatação correta: o ser humano é lançado em uma existência marcada por sofrimento, incerteza, responsabilidade e morte.

O problema começa quando alguns existencialistas concluem que, por não encontrarmos um sentido evidente no mundo, devemos fabricar um por conta própria.

É uma solução sedutora.

Primeiro se declara que o universo não possui finalidade objetiva. Depois, pede-se que cada indivíduo invente uma finalidade subjetiva e a trate com seriedade suficiente para continuar vivendo. É como descobrir que o navio não possui destino e resolver o problema desenhando um mapa do oceano.

Isso não significa que todo existencialismo seja idêntico. Há existencialistas cristãos, e autores como Kierkegaard compreenderam profundamente a angústia, o desespero e a necessidade da fé.

Minha divergência está principalmente com o existencialismo ateu de Jean-Paul Sartre. Tive um professor de ensino médio que pagava um pau pra esse cara.

Sartre afirma que “a existência precede a essência”. Em outras palavras, o homem primeiro existe e somente depois define aquilo que será. Não haveria uma natureza humana previamente estabelecida, uma finalidade objetiva ou um modelo transcendente ao qual a pessoa devesse corresponder.

O homem seria aquilo que fizesse de si mesmo.

Há algo verdadeiro nisso: nossas escolhas realmente formam nosso caráter. Ninguém se torna virtuoso apenas por possuir boas intenções, e ninguém pode terceirizar completamente a responsabilidade pela própria vida.

Mas disso não se segue que o ser humano não possua natureza ou finalidade.

Uma coisa é dizer que o homem constrói seu caráter por meio das escolhas. Outra é dizer que ele cria a própria essência a partir do nada.

A primeira afirmação reconhece liberdade e responsabilidade. A segunda transforma o indivíduo em uma espécie de divindade artesanal, encarregada de inventar o significado do universo durante o intervalo entre o nascimento e a morte.

Na visão cristã, a existência humana não é um acidente esperando receber uma legenda.

O homem possui uma natureza criada, uma inteligência orientada à verdade, uma vontade orientada ao bem e um desejo de felicidade que nenhum bem limitado consegue satisfazer plenamente.

Isso não elimina a liberdade. Dá à liberdade uma direção.

Liberdade sem finalidade não é libertação completa. Muitas vezes é apenas desorientação com boa publicidade.

Para Sartre, se Deus não existe, não há uma essência humana concebida anteriormente por uma inteligência divina. O homem não encontra uma definição pronta: precisa produzi-la. Mas a conclusão depende da premissa.

Se Deus existe, então a natureza humana não é uma invenção arbitrária. Ela possui origem, estrutura e finalidade.

O homem não precisa criar o sentido da existência. Precisa descobri-lo, aceitá-lo e ordenar sua liberdade a ele.

Isso é mais exigente do que o existencialismo ateu, porque retira de nós o confortável direito de chamar qualquer desejo de “autenticidade”. Nem toda escolha livre aperfeiçoa quem escolhe. Uma pessoa pode escolher livremente aquilo que a degrada. Pode construir uma identidade inteira baseada em ressentimento, prazer, orgulho ou autodestruição. O fato de essa identidade ter sido escolhida pessoalmente não a torna verdadeira, boa ou digna.

A tradição cristã também reconhece a angústia existencial. Ela apenas se recusa a tratá-la como revelação final sobre a realidade.

O sofrimento existe. A morte existe. Mas o vazio não demonstra necessariamente que a existência não possui sentido. Talvez demonstre que estamos tentando preencher um desejo ilimitado com objetos limitados.

C. S. Lewis argumentava que um desejo que nenhuma experiência deste mundo consegue satisfazer pode indicar que fomos feitos para algo além dele.

Isso não exige desprezar os bens terrenos. Exige apenas não confundi-los com o Bem absoluto.

Comida, amor, sexo, conhecimento, reconhecimento e beleza podem produzir alegria real. Porém, todos terminam, mudam ou se mostram insuficientes. O erro não está em apreciá-los. Está em exigir deles aquilo que nenhuma criatura pode oferecer.

É por isso que não sou existencialista no sentido sartreano.

Não acredito que o homem seja uma existência vazia encarregada de inventar a própria essência.

Acredito que ele foi criado com uma natureza, uma finalidade e uma vocação, embora possa rejeitar todas as três.

Não acredito que a liberdade seja o poder de definir arbitrariamente o bem. Acredito que seja a capacidade de escolher o bem que existe independentemente de nossas preferências.

A felicidade plena não foi prometida neste mundo porque este mundo não é o fim último do homem. Nossa insatisfação não é necessariamente uma falha de fabricação. Pode ser uma marca de origem.

Creio que a felicidade, por mais que não seja possível encontrá-la em Terra, me é prometida numa realidade celeste, muito além dessa. Não sou existencialista porque sou herdeiro do céu.

Romanos 8,17. Se somos filhos, então, também somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se realmente participamos dos seus sofrimentos para que, da mesma maneira, participemos da sua glória.

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