A quem devemos dar esmola?

Jesus recomenda três práticas clássicas da vida cristã: oração, jejum e esmola.

A oração ordena nossa relação com Deus; o jejum, conosco mesmos; a esmola, com o próximo. Um programa espiritual completo, para desgosto de quem pretendia resolver a santidade apenas compartilhando frases de santos.

Comecemos por uma distinção. Toda esmola autêntica é uma obra de caridade, mas nem toda caridade é esmola. Além disso, esmola não significa apenas dinheiro. Pode ser alimento, roupa, abrigo, medicamento ou outra ajuda material oferecida a quem necessita. Caridade é uma virtude; esmola é uma de suas manifestações.

Suponhamos que uma pessoa em situação de rua peça cinco reais e diga abertamente que comprará cachaça. Sou obrigado a entregar o dinheiro?

Não, né, cacete.

A caridade não exige financiar aquilo que certamente prejudicará o próprio necessitado. Nesse caso, posso oferecer comida, água, uma passagem ou encaminhamento a algum serviço de assistência. Recusar dinheiro não equivale automaticamente a recusar a esmola que Jesus disse pra dar. Às vezes, significa apenas não colaborar com o problema e chamar isso de misericórdia para dormir melhor, ou contar pontinhos no RPG game das indulgências.

Também não convém concluir que toda pessoa pobre gastará mal qualquer valor recebido (sou pobre mas tenho algum discernimento). Isso seria trocar a ingenuidade pelo preconceito, operação que não melhora muito o resultado.

St Tomás de Aquino ensina que dar esmola é matéria de preceito quando existe necessidade grave e possuímos recursos excedentes para socorrer o próximo. Fora dessas situações, continua sendo uma obra aconselhável, mas cabe à prudência decidir quanto, como e a quem ajudar. Ele não propõe que distribuamos dinheiro aleatoriamente até a falência.

Portanto, posso considerar mais prudente doar vinte reais a uma instituição confiável do que entregar cinco reais para a compra declarada de Velho Barreiro. Posso também ajudar aquela mesma pessoa oferecendo algo que atenda sua necessidade sem alimentar o vício. O objetivo da esmola é procurar o bem do necessitado, não completar uma transação e fugir com a consciência carimbada.

Jesus disse: “Dai antes em esmola o que está dentro, e tudo ficará puro para vós.” A passagem de Lucas 11,41 não apresenta a esmola como lavanderia automática de pecados. Cristo critica uma religiosidade preocupada com limpeza exterior e esquecida da justiça e da caridade interior. Deus não é uma repartição celestial na qual depositamos moedas para receber uma certidão negativa de culpa.

São Roberto Belarmino exalta a esmola como obra de misericórdia, exercício de penitência, crescimento no mérito e ocasião para que os pobres rezem por seus benfeitores. Isso pressupõe uma ação realizada por amor a Deus e ao próximo. Perdão e graça continuam vindo de Deus; não estão à venda numa promoção espiritual do tipo “doe dez e abata três pecados”.

E o beneficiado rezará por nós? Talvez sim, talvez não. Sua gratidão não é a condição que torna a esmola boa.

Ainda assim, ajudar sem discernimento pode acabar servindo mais ao alívio emocional do doador do que ao bem do necessitado.

A pessoa entrega a nota, sente-se protagonista do Evangelho por quinze segundos e vai embora sem perguntar se realmente ajudou. Jesus mandou praticar a misericórdia. Tenha prudência também.

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