Debater pela internet é canseira...
Quem já participou de debates em grupos de WhatsApp ou Facebook conhece o ritual. Você organiza uma linha de raciocínio, explica as premissas, apresenta a conclusão e, no fim, a outra pessoa responde a uma versão completamente deformada do que você disse.
Depois ainda comemora.
É o famoso xadrez com pombo: derruba as peças, suja o tabuleiro e sai andando como se tivesse vencido um torneio internacional.
O problema começa porque muita gente entra numa discussão com a opinião pronta e a mente fechada para reforma. O debate, para ela, não serve para examinar ideias. Serve apenas para defender a própria identidade até o último emoji.
Mesmo quando o argumento desmorona, a pessoa não recua. Troca de assunto, distorce uma frase ou inventa uma intenção secreta para o adversário. Qualquer coisa parece preferível à humilhação insuportável de admitir: “Talvez eu esteja errado.”
O debate sobre o aborto é um bom exemplo. Existem posições diferentes, argumentos filosóficos, jurídicos, biológicos e religiosos. Ainda assim, grande parte das discussões na internet reduz tudo a slogans. Quem é contrário ao aborto vira inimigo das mulheres; quem é favorável vira assassino. A investigação racional morre antes mesmo da conversa começar, provavelmente por falta de autorização legal.
Não pretendo apresentar aqui todos os argumentos sobre o tema. O ponto é outro: quantas pessoas realmente mudam de posição depois de uma discussão virtual?
Se você convenceu uma, parabéns. Estatisticamente, talvez tenha presenciado um milagre.
Muitos debates fracassam por quatro motivos recorrentes: teimosia, sofisma, desinteresse e hipocrisia.
A teimosia impede a revisão da própria posição. O sofisma substitui argumento por truque. O desinteresse transforma a conversa em desperdício de tempo. A hipocrisia permite exigir do outro uma coerência que a própria pessoa jamais teve a intenção de praticar.
O desinteresse aparece muito em quem publica algo polêmico e depois se recusa a discutir o conteúdo. A pessoa joga gasolina na sala, acende um fósforo e, quando alguém pergunta o motivo, responde que não está com disposição para falar sobre incêndios.
Ninguém é obrigado a debater tudo o que publica. Porém, quem lança uma afirmação pública deveria ao menos aceitar que ela será questionada. Compartilhar uma ideia e tratar qualquer crítica como agressão pessoal é querer palco sem plateia, discurso sem resposta e aplauso sem risco.
A hipocrisia torna tudo pior. Ela aparece quando alguém condena no adversário exatamente o comportamento que pratica. Exige fontes, mas nunca apresenta nenhuma. Cobra respeito, mas responde com insultos. Pede abertura ao diálogo enquanto mantém a própria opinião guardada num cofre.
Descobrir uma contradição não prova automaticamente malícia. Pessoas são incoerentes por distração, ignorância e fraqueza. A má-fé começa quando a contradição é demonstrada e, mesmo assim, a pessoa prefere distorcer o debate a corrigi-la.
Quando teimosia, sofisma, desinteresse e hipocrisia aparecem juntos, já não existe conversa.
Existe apenas uma competição para descobrir quem consegue perder a razão com mais confiança.
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