"Cada um tem seu gosto..."
Vez ou outra aparece alguém suficientemente habilidoso para embrulhar uma ideia ruim em algumas verdades, colocar um laço de sensibilidade social e vendê-la como grande demonstração de lucidez.
Recentemente assisti a um vídeo do youtuber Spartakus sobre a ideia de “música de qualidade”. Gostei de vários pontos. Ele distingue valor técnico de valor artístico e critica o esnobismo de quem usa gosto musical como certificado automático de inteligência. Até aí, excelente. O problema começa quando a crítica ao elitismo vira salvo-conduto para qualquer porcaria sonora.
O exemplo central do vídeo é “Envolvimento”, de MC Loma. Segundo Spartakus, a música adquiriu valor artístico para muitas pessoas e, por isso, seus ouvintes não deveriam ser julgados intelectualmente pelo que consomem.
A primeira parte é verdadeira. A segunda foi bostejo.
Uma obra pode possuir valor afetivo, social ou simbólico e continuar sendo tecnicamente pobre. O fato de alguém se divertir com uma música não concede à música qualidade por osmose, nem transforma toda crítica em perseguição promovida pela elite de cartola, monóculo e assinatura vitalícia da Filarmônica de Viena.
Spartakus também observa que complexidade não é requisito obrigatório para uma boa canção. Correto. “Shape of You”, de Ed Sheeran, e “That’s What I Like”, de Bruno Mars, não exigem uma comissão de doutores em musicologia para serem compreendidas. São músicas populares, simples e eficientes naquilo que pretendem fazer.
Mas simplicidade e precariedade não são sinônimos. Uma música pode ser simples e ainda apresentar boa produção, interpretação competente, estrutura funcional e domínio técnico. Colocar tudo no mesmo saco porque “cada obra tem seu valor subjetivo” elimina justamente a distinção que Spartakus começou tentando estabelecer.
O valor artístico subjetivo explica por que alguém gosta de uma obra. Não determina sozinho a qualidade dela.
Também achei desproporcional aproximar MC Loma de Mamonas Assassinas ou recorrer a Van Gogh para mostrar como o valor artístico pode mudar com o tempo. Van Gogh não se tornou importante apenas porque morreu e recebeu uma atualização póstuma de prestígio. Sua obra possuía qualidades que foram reconhecidas tardiamente.
O vídeo ainda usa um elemento emocional poderoso: MC Loma era uma adolescente de origem humilde que, com poucos recursos, derrotou campanhas milionárias e transformou a própria vida. É uma história admirável. Não acho que ela mereça, mas parabéns aí. Queria ter tido a mesma sorte, porque talento não foi.
Uma trajetória humilde não melhora automaticamente a obra produzida. Biografia comovente não funciona como plug-in de qualidade técnica.
Meu incômodo maior está na ideia de que o gosto artístico não deveria influenciar qualquer avaliação sobre uma pessoa. Evidentemente, uma música isolada não revela toda a inteligência, o caráter ou a formação de alguém. Quem ouve funk não sofre uma lobotomia instantânea ao apertar o play.
Ainda assim, nossas preferências dizem alguma coisa sobre nós. Repito a frase de St Tomás de Aquino o suficiente.
Aquilo que consumimos repetidamente alimenta sensibilidades, expectativas e repertórios. Julgar alguém exclusivamente pelo gosto musical seria estupidez. Fingir que o gosto não revela absolutamente nada é outra estupidez, apenas com maquiagem inclusiva.
Também não vejo sentido em tratar toda crítica cultural como elitismo. O elitismo existe quando alguém despreza pessoas por sua origem social ou usa conhecimento como instrumento de humilhação. Criticar uma obra pobre não constitui crime contra as classes populares. Pessoas humildes também merecem acesso ao excelente. Reservar a elas apenas aquilo que é fácil, descartável e comercialmente conveniente talvez seja um elitismo ainda mais nojento, embora apresentado com sorriso acolhedor.
Roger Scruton alertava para o esvaziamento do conceito de arte quando qualquer produção recebe automaticamente esse título e nenhuma distinção qualitativa permanece possível. Pode-se discordar dele, mas o problema continua: quando tudo possui o mesmo valor, “valor” vira apenas uma palavra decorativa.
Cada pessoa é livre para ouvir o que quiser. Pode escutar MC Loma, metal norueguês ou panelas batendo. Liberdade de gosto não inclui imunidade à crítica.
Spartakus tem razão ao combater o sujeito pseudoculto que usa Bach como acessório de superioridade moral. Erra quando parece concluir que, para evitar o esnobismo, precisamos suspender o julgamento estético e fingir que toda preferência possui a mesma qualidade.
Jorge Vercillo resumiu a situação com mais economia: “Gosto não se discute, se lamenta.”
Eu acrescentaria apenas uma correção.
Gosto se discute, sim. Alguns, depois da discussão, continuam sendo lamentáveis.
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