Eu ODEIO o sistema educacional do Brasil
Recentemente li um artigo que organizou várias críticas que eu já fazia à educação brasileira. Foi quase terapêutico: finalmente alguém reuniu num só lugar a sensação de que passamos anos copiando matéria do quadro para, no fim, continuarmos sem saber declarar imposto de renda, falar em público ou interpretar um contrato.
O texto questiona o currículo obrigatório, a padronização do ensino e a ideia de que estudar qualquer conteúdo, de qualquer maneira, produz automaticamente uma pessoa educada. Não produz. Às vezes produz apenas alguém capaz de decorar o ciclo reprodutivo das briófitas por quarenta minutos e esquecê-lo assim que entrega a prova.
A escola brasileira parece ter uma relação quase romântica com a decoreba. O professor escreve, o aluno copia, a prova pergunta, o aluno reproduz. Todos fingem que houve aprendizado e seguem para o próximo capítulo. É uma encenação educacional bastante eficiente: ninguém aprende muito, mas o caderno fica lindíssimo.
Isso começa cedo. Português, matemática e ciências são fundamentais, mas até essas disciplinas frequentemente são ensinadas como punição administrativa. Em vez de compreensão, recebemos repetição. Em vez de curiosidade, recebemos exercícios numerados. A criança entra perguntando por que o céu é azul e sai preocupada em saber se a resposta estará “igual à do livro”.
No ensino médio, o problema ganha musculatura. O aluno precisa decorar escolas literárias, fórmulas químicas e classificações biológicas, mesmo sem entender por que aquilo importa. Depois se forma sem saber falar numa entrevista, organizar o próprio dinheiro ou prestar primeiros socorros.
O currículo deveria dar muito mais espaço para oratória, finanças pessoais, direito básico, nutrição, primeiros socorros, inteligência emocional, política, redação, interpretação de texto e língua estrangeira. Conteúdos tradicionais continuariam existindo, mas precisariam justificar sua presença para além do clássico argumento pedagógico: “está na prova”.
A pergunta central deveria ser simples: o que esse conteúdo desenvolve no aluno? Raciocínio? Cultura geral? Capacidade profissional? Autonomia? Se a resposta for apenas “vale dois pontos”, talvez tenhamos encontrado o problema.
Também me incomoda o modo como o sistema educacional trata o diploma. O documento deixou de ser prova limitada de formação e virou uma espécie de amuleto burocrático. Enquanto isso, acumulam-se cursos, certificados e qualificações. O cidadão já não tem uma pasta de documentos; tem um inventário de RPG. Graduação concede cinco pontos de empregabilidade, pós-graduação oferece bônus de resistência e um curso online de liderança aumenta carisma em dois pontos. Competência prática, curiosamente, permanece como item opcional.
Outra falha é a pouca valorização da autonomia educacional. A aprendizagem funciona melhor quando considera aptidões, ritmo, interesses e objetivos individuais. O modelo padronizado prefere tratar trinta pessoas diferentes como se fossem unidades idênticas produzidas na mesma fábrica. Quando algumas não acompanham, o sistema conclui que o defeito está nas peças.
Também existe um problema ideológico. Toda instituição transmite valores, mesmo quando posa de entidade neutra pairando acima da humanidade. O erro começa quando determinada visão política é apresentada como conclusão científica indiscutível e o aluno percebe que, para obter nota, basta descobrir qual opinião o corretor deseja ler. A redação vira um exercício de interpretação psicológica: “qual frase socialmente aprovada preciso escrever para ganhar mil pontos?”
A educação deveria ensinar o aluno a argumentar, comparar fontes e reconhecer falácias. Em muitos casos, ensina apenas a repetir o vocabulário autorizado com a entonação correta. Chama-se pensamento crítico, desde que a crítica chegue à conclusão previamente definida.
Não considero inútil todo conteúdo escolar, nem acredito que a escola deva ensinar apenas aquilo que gera lucro imediato. Literatura, filosofia, história, matemática e ciências ampliam a inteligência e a compreensão do mundo. O problema está em ensinar tudo de maneira mecânica, sem contexto e sem qualquer relação perceptível com a formação humana.
O Brasil não precisa escolher entre cultura geral e preparação para a vida. Pode oferecer as duas. A dificuldade é que isso exigiria abandonar a confortável tradição de medir educação pela quantidade de matéria despejada sobre o aluno.
O artigo que motivou estas reflexões foi “Sim, a escola está destruindo gerações e causando estragos profundos”, publicado no Instituto Mises Brasil. Também considero interessante o livro Educação: Livre e Obrigatória, de Murray Rothbard, embora nenhuma obra deva ser tratada como escritura sagrada apenas porque concordou conosco com bastante entusiasmo.
No fim, a escola brasileira frequentemente prepara o aluno para fazer provas sobre assuntos que esquecerá, receber um diploma que talvez não prove muita coisa e procurar um emprego que exigirá habilidades que ninguém ensinou.
Mas ele sabe identificar uma mitocôndria.
Cada coisa no seu devido lugar, né?
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