A falha da pedagogia brasileira
Durante anos, alunos foram treinados para acreditar que estudar significa copiar.
O professor escreve no quadro. O aluno copia. O livro tem um texto que o professor quer discorrer sobre. O aluno copia. A apostila traz uma atividade. O aluno copia a atividade antes de finalmente poder respondê-la.
Depois de páginas inteiras preenchidas e uma aula desperdiçada, todos fingem que ocorreu algum tipo de aprendizagem. Não ocorreu, porra.
Se o aluno já possui um livro didático com o conteúdo, QUAL a finalidade pedagógica de obrigá-lo a reproduzir esse mesmo conteúdo no caderno? A informação já está impressa, organizada e disponível.
Essa metodologia transforma estudantes em copiadoras humanas de baixa velocidade. É inútil, cansativa e intelectualmente miserável. Em vez de ensinar o aluno a compreender, interpretar e questionar, ensina-o a movimentar a mão enquanto mantém o cérebro em estado de economia de energia.
Durante as aulas, não vejo a hora de ir embora pra casa e abrir o Youtube pra aprender de verdade. Sinto que jogo meu tempo no lixo estando na escola.
Nem julgo outros alunos que mostram desinteresse. Passar cinquenta minutos transcrevendo um parágrafo não é nenhuma aventura intelectual. Nem eu mantenho foco naquilo que copio do quadro.
Enquanto o aluno copia algo que já está escrito, a aula não avança. O professor espera. Os alunos mais lentos ficam para trás. Os mais rápidos terminam e passam o tempo só na zoeira. Ao final, todos possuem algumas páginas preenchidas e quase nenhuma ideia realmente compreendida.
É uma excelente produção de tinta. Como educação, deixa um pouco a desejar. A grana do pagador de impostos tá sendo bem aplicada, ein?
O tempo de aula deveria ser usado para aquilo que o aluno dificilmente conseguiria obter sozinho: explicações, exemplos, demonstrações, perguntas, exercícios, correções e debates. O professor deveria ajudar o estudante a estabelecer relações entre ideias, identificar erros de raciocínio e aplicar o conhecimento a situações concretas.
Caso o aluno queira revisar determinado conteúdo posteriormente, basta marcar a página do livro, registrar os conceitos principais ou escrever um resumo com as próprias palavras. Um bom resumo exige compreensão.
Uma aula deveria combinar leitura, explicação, reflexão, pesquisa, resolução de problemas e discussão. Não existe aprendizado sério sem participação intelectual. O aluno precisa lidar com a ideia, questioná-la, testá-la e reformulá-la.
Conhecimento não é uma inscrição rupestre transferida do quadro para o caderno.
Também existe uma confusão frequente entre buscar e pesquisar, ensinada pelo meu valoroso professor vascaíno Flávio.
Alunos ouvem constantemente que precisam “fazer uma pesquisa” sobre determinado assunto. Na maioria das vezes, porém, ninguém está realmente pesquisando.
Pesquisa é a produção sistemática de conhecimento. Envolve uma pergunta, levantamento de dados, análise, comparação de fontes, método e conclusão. Busca é a procura por um conhecimento que já foi produzido.
Quando um aluno digita um tema na internet e encontra um artigo, ele realizou uma busca.
Quando copia esse artigo inteiro e entrega ao professor, não realizou nem pesquisa nem estudo. Realizou apenas uma transferência de texto entre dois lugares.
Existe algo particularmente humilhante nessa atividade: o estudante copia um artigo da Wikipédia, altera duas ou três palavras e o entrega ao professor como se tivesse acabado de retornar de uma expedição científica.
O professor, por sua vez, recebe dezenas de versões mutiladas do mesmo texto que ele próprio poderia ter encontrado em trinta segundos.
Todos perdem tempo, papel e dignidade. No meu caso, é ainda mais humilhante, pois preciso copiar manuscrito. Menores de idade não podem trabalhar, então de onde eu tiraria o dinheiro pra fazer uma xerox?
O conteúdo encontrado na internet deveria servir como ponto de partida para comparação, interpretação e debate. O aluno deveria explicar o que compreendeu, confrontar fontes diferentes, identificar contradições e apresentar alguma conclusão própria.
O problema não é consultar a Wikipédia. O problema é usar a função “copiar e colar” como método epistemológico.
Copiar conteúdo não ensina ninguém. O que ensina é a explicação, o exercício, a aplicação e o esforço para formular uma ideia com palavras próprias.
Um aluno que lê bastante, anota apenas o necessário e tenta compreender está muito à frente daquele que mantém um caderno impecável, colorido e intelectualmente vazio. Deixo aqui minhas críticas a quem faz zoeira com minha letra feia por escrever rápido. Eu nem abro meu caderno quando chego em casa. Qual o sentido?
Essa cultura da cópia também ajuda a explicar por que tantos estudantes escrevem respostas longas e imprecisas. Desde cedo, aprendem que quantidade de linhas representa qualidade.
Se a resposta parece pequena, acrescentam frases inúteis. Repetem o enunciado. Reformulam a mesma ideia três vezes. Produzem uma espécie de neblina verbal para fingir que a resposta ficou mais bem elaborada e aumentar a nota.
Depois reclamamos da prolixidade, mas fomos nós que distribuímos pontos pela ocupação territorial da folha.
O aluno precisa aprender a administrar o próprio tempo e a própria inteligência. Caso a escola não ofereça condições adequadas de aprendizagem, ele não deveria aceitar passivamente que sua formação seja reduzida ao conteúdo do quadro.
Deve buscar livros, aulas, artigos, exercícios e fontes alternativas. Deve aprender além da sala de aula e, quando necessário, apesar dela.
Isso não significa desprezar professores ou imaginar que todo estudante pode educar-se completamente sozinho. Significa apenas reconhecer um fato desconfortável: a instituição escolar nem sempre está comprometida com a aprendizagem tanto quanto está comprometida com a manutenção de seus próprios rituais.
Aprender exige mais do que obedecer. Exige curiosidade, comparação, dúvida, exercício e autonomia. Uma ideia não pode ser simplesmente empurrada para dentro da cabeça de alguém por meio de repetição mecânica.
Um caderno cheio prova apenas que alguém escreveu muito.
Não prova que aprendeu alguma coisa.
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