Um jogo de conceitos e o problema da linguagem

A língua portuguesa não é exatamente pobre. O problema costuma ser outro: tentamos comprimir, numa única palavra, distinções que outras tradições filosóficas levaram séculos para construir.

Isso aparece com frequência quando traduzimos termos gregos ou latinos. Uma palavra chega ao português aparentemente intacta, mas parte de sua arquitetura conceitual ficou pelo caminho. O resultado é previsível: usamos o mesmo termo para realidades diferentes e depois nos surpreendemos quando a discussão termina num pântano semântico.

Não é sempre uma limitação do idioma. Muitas vezes é limitação de quem o utiliza.

Palavras não são recipientes neutros. Elas carregam pressupostos históricos, culturais, filosóficos e teológicos. Quando alguém transporta um conceito humano diretamente para o discurso religioso (ou faz o movimento inverso), pode criar não uma explicação, mas apenas uma confusão com vocabulário solene.

Tomemos a liberdade.

Quando dizemos que uma pessoa é livre, estamos falando de liberdade política, moral, psicológica, metafísica ou simplesmente da possibilidade prática de escolher entre algumas alternativas? Essas coisas não são a mesma coisa.

A liberdade humana não precisa significar ausência absoluta de limites. Caso significasse, apenas um ser onipotente poderia ser chamado de livre. Mesmo essa formulação exigiria cuidado, já que onipotência e liberdade também não são conceitos intercambiáveis.

O ser humano é livre dentro de determinadas condições: possui uma natureza, ocupa um tempo, habita um corpo e age num mundo que não pediu sua opinião antes de existir. Sua liberdade é mais situada do que infinita.

Já a liberdade atribuída a Deus pertence a outra ordem conceitual. Aplicar a Deus, sem qualquer ajuste, categorias produzidas a partir da experiência humana é antropomorfismo.

O mesmo problema aparece quando tentamos pensar a eternidade como se fosse apenas uma quantidade indefinida de tempo. Um ser temporal percebe sucessão: antes, durante e depois. Um ser atemporal, por definição, não experimentaria a realidade dessa maneira. É como se estivesse fora do tempo.

Não basta, portanto, dizer “liberdade”, “tempo” ou “existência” e presumir que todos estão falando da mesma coisa. Frequentemente, duas pessoas utilizam a mesma palavra enquanto discutem conceitos completamente diferentes. Depois chamam o fracasso de mistério, quando às vezes foi apenas negligência terminológica.

O paradoxo do Navio de Teseu revela um problema semelhante: o que exatamente preserva a identidade de uma coisa através da mudança? Sua matéria, sua forma, sua continuidade histórica ou o reconhecimento que lhe atribuímos?

A resposta não cabe numa definição preguiçosa.

Algo parecido ocorre com o amor. Em português, chamamos de amor fenômenos tão distintos quanto desejo, amizade, afeição, cuidado, caridade, apego, devoção e dependência. Depois nos perguntamos por que tantas pessoas “amam” de maneiras mutuamente incompatíveis.

Os gregos não resolveram o problema simplesmente por possuírem mais palavras, mas ao menos dificultaram um pouco a fraude conceitual. Árabe é ainda mais rico em vocabulário e também tem problemas.

A linguagem não apenas descreve o pensamento. Ela também delimita aquilo que conseguimos distinguir com clareza.

Isso não significa que o transcendente deixe de existir quando não encontramos uma palavra adequada para ele. Significa apenas que a realidade não tem obrigação de caber perfeitamente no nosso vocabulário (uma notícia particularmente desagradável para quem acredita que nomear alguma coisa equivale a compreendê-la).

A Filosofia da Linguagem é um bom ponto de partida para investigar essas questões. Mas ela também exige certa humildade: nem toda pergunta possui uma resposta imediatamente acessível, e nem toda frase obscura contém uma profundidade secreta.

Às vezes, o mistério está no objeto. Em outras, está apenas na incapacidade do autor de escrever com clareza (autocrítica).

Entre os conceitos mais difíceis de tratar estão amor, liberdade e igualdade. Não porque sejam palavras vazias, mas porque quase todos as utilizam como se seus significados fossem evidentes.

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